PUBLICIDADE

Topo

Morango

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Lesbike: elas criaram o primeiro pedal sapatão de Maringá

A empresária Priscila Brasil, 36, e a consultora empresarial Wellen Rezende, 36, fundadora do Lesbike, o primeiro grupo de pedal urbano sapatão de Maringá  - Arquivo pessoal
A empresária Priscila Brasil, 36, e a consultora empresarial Wellen Rezende, 36, fundadora do Lesbike, o primeiro grupo de pedal urbano sapatão de Maringá Imagem: Arquivo pessoal
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

https://universa.uol.com.br/colunas/morango

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

19/01/2022 04h00

Em busca de mais qualidade de vida, há pouco mais de um ano a arquiteta e consultora empresarial Wellen Rezende, 36, se mudou de Belo Horizonte, capital mineira, para Maringá, no interior paranaense. Mil quilômetros e ritmos completamente diferentes separam as duas cidades. "Em Minas, eu tinha meu negócio de consultoria. Com a pandemia, fiquei sem clientes e sem trabalho, e me sentia profundamente infeliz. E eu queria acordar todo dia e me sentir feliz, e poder curtir de bicicleta o caminho até o trabalho... Queria um lugar sem tanta correria, em que eu pudesse respirar. E na minha pesquisa apareceu Maringá. Fui mandando currículos e tudo aconteceu de uma forma muito fluida", conta a consultora.

Já na nova cidade, com os planos dando certo, surgiu uma necessidade: partilhar vivências com outras mulheres lésbicas. "Em pouco tempo conheci a Priscila. Ficamos muito amigas e, uns meses depois, começamos a namorar. Idealizamos o Lesbike juntas. Ela foi a primeira a comprar uma bicicleta. Ela estava em um processo terapêutico, buscando mais saúde mental, e queria praticar um esporte. Eu também comprei e a gente resolveu que queria andar juntas e separadas, e passamos a procurar grupos dos quais pudéssemos participar, mas não encontramos nada que atendesse nossas necessidades. Então criamos o nosso."

No início, Wellen e Priscila imaginaram que conseguiriam reunir dez mulheres para a prática, mas a adesão superou as expectativas. A primeira pedalada, que aconteceu no Dia da Visibilidade Lésbica, em 29 de agosto do ano passado, contou com a participação de 16 mulheres. De lá para cá, em pouco mais de quatro meses, já são mais de 60 integrantes conectadas ao grupo pelo WhatsApp e mais de 400 via Instagram.

"Quando a gente criou o grupo foi um estouro! Desde o primeiro passeio a coisa começou a aumentar muito. A gente realmente não esperava. Saímos no jornal da cidade, fomos chamadas na prefeitura, vieram outras propostas de projetos pra gente integrar. Pro tamanho da cidade (com aproximadamente 400 mil habitantes), a gente acha até que cresce rápido, porque não é algo amplamente divulgado, mas cresce para além da proposta do pedal", explica Wellen.

Lesbike - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
'Lançamos esse projeto em agosto do ano passado, promovendo um pedal, e depois realizamos um momento político em que estendemos cartazes sobre problemas gerais que levantam as pautas lésbicas', dizem Priscila e Wellen
Imagem: Arquivo pessoal

A consultora conta que além de dias fixos para a prática do pedal o grupo promove outras atividades, como encontros e rodas de conversa. "A gente entendeu que essa proposta de criar um grupo lésbico está se manifestando como um ambiente de identificação e de reconhecimento, em que muitas buscam pertencimento e representatividade. A gente percebe como ainda é difícil aqui na cidade esse movimento de participar de um grupo assumidamente lésbico. Muitas não são assumidas. Muitas que fazem parte do grupo nem bike têm, inclusive."

Medidas conta assédio e violência

No grupo, onde o diálogo é aberto, muitas integrantes revelaram ter sofrido situações de violência e assédio durante a prática esportiva. Essas experiências motivaram a adoção de estratégias para diminuir o risco de novos episódios, como a não divulgação pública dos pontos de partida e chegada do pedal.

"Há o problema do trajeto solo que cada uma faz até a gente estar em grupo. Sempre tem alguém assoviando, mexendo... E em grupo a gente está protegida, mas o restante do caminho que cada uma faz sozinha até chegar é muito perigoso. Muitas têm medo. E eu chamo atenção para a questão da violência porque, na questão da lésbica, muitas que não performam feminilidade podem não sofrer assédio, mas com certeza podem sofrer um episódio que pode levar a uma situação de violência maior", alerta Wellen.

Lesbike - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Lesbike: o grupo de pedal lésbico que surgiu há quatro meses tem 60 participantes conectadas via Whatsapp e mais de 400 pelo Instagram
Imagem: Arquivo pessoal

Referência no interior

A dupla diz não ter encontrado grupos semelhantes ao Lesbike pelo Brasil afora, mas agora elas querem inspirar outras mulheres pelo país.
"A gente sabe o quanto isso está fazendo bem para todas, principalmente no interior. Porque nas capitais, nas regiões onde a gente tem mais manifestação dos grupos lésbicos, onde tem grupos feministas, a relação é diferente."

"No interior, onde a maioria nem fala sobre o assunto, começa a aparecer uma aqui, outra ali, e trazer suas vivências, e contar como é difícil ainda estar num ambiente em que elas têm de se esconder. Elas gostariam de se apresentar para a sociedade, mas não sabem fazer esse caminho. É muito lindo ver isso acontecer, principalmente a partir de uma coisa que é tão saudável, que incentiva a sair, que incentiva a se apropriar do espaço da cidade."