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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Diário de 2 pais': casal compartilha rotina de amor e dupla paternidade

"Não gostamos do termo família gay. Fica parecendo que todo mundo na familia é gay. Tios, avós, irmãos, filhos... Preferimos apenas familia" - Foto: Reprodução/Instagram
"Não gostamos do termo família gay. Fica parecendo que todo mundo na familia é gay. Tios, avós, irmãos, filhos... Preferimos apenas familia" Imagem: Foto: Reprodução/Instagram
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

https://universa.uol.com.br/colunas/morango

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

05/01/2022 04h00

Nascidos em Salvador, na Bahia, e radicados em Toronto, no Canadá, Otávio e Marcel têm uma história de amor de filme. Juntos há quase 11 anos, eles são pais de Christian, 13, e dos gêmeos Victor e Matthew, 1 ano e 11 meses, e compartilham a rotina da família no Instagram, no @diariode2pais, onde são acompanhados de perto por mais de 26 mil pessoas.

Foi por uma rede social, aliás, que o casal se conheceu, em 2011. "Vi o perfil de Marcel no Facebook, tínhamos um amigo em comum. Pedi para esse amigo nos apresentar e começamos a nos falar. Marcamos um jantar e um mês depois já estávamos morando juntos", conta Otávio.

O enfermeiro Marcel Cerqueira Gouveia, 33, e o administrador de empresas Otávio Cerqueira Gouveia, 55, com os filhos gêmeos Victor e Matthew, gerados em útero solidário  - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
O enfermeiro Marcel Cerqueira Gouveia, 33, e o administrador de empresas Otávio Cerqueira Gouveia, 55, com os filhos gêmeos Victor e Matthew, gerados em útero solidário
Imagem: Reprodução/Instagram

Otávio, de 55 anos, tem ainda três outros filhos e um netinho, frutos de seu primeiro casamento, com uma mulher. Ele se entendeu gay aos 27 de idade.

"Até os 27 eu me via como hétero. Não estava no armário, eu não tinha consciência de ser gay. Até que conheci um cara e me senti atraído. Foi algo bem simples e rápido. Eu entendi o que estava sentindo e deixei fluir. Foi quando me separei e passei a namorar com um homem. Não tive nenhum processo de negação. Logo todos ficaram sabendo. Minha família não criticou. Não que eu saiba. Houve um apoio geral. E a vida seguiu."

Oficialmente casados desde 2013, Otávio e Marcel começaram a pensar em aumentar a família.

Para Otávio, o segredo de um relacionamento longevo é a tolerância.

Amor só não basta. As pessoas são muito diferentes e isso sempre gera conflitos. Se você não entende que o outro existe e que você precisa ceder e tolerar certas diferenças, não tem como durar. Se abre mão de muita coisa para estar junto. Se isso não te violentar nem te anular, está tudo certo. Se é o que você quer, abrir mão faz parte.

Christian, 13, com os irmãos Victor e Matthew  - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Christian, 13, com os irmãos Victor e Matthew
Imagem: Reprodução/Instagram

"A princípio, Marcel não pensava em ter filhos, mas o nascimento de meu neto e o convívio com meu filho mais novo, Christian, que adotei quando ele tinha 2 anos, foi mudando isso. Conversamos muito, ponderamos, pesamos todos os prós e contras e fomos amadurecendo a ideia", revela. Os dois optaram pela fertilização in vitro (FIV).

No caso deles, os óvulos foram obtidos em um banco de óvulos (que preserva o anonimato da doadora), fertilizados com os sêmens de ambos (por escolha do casal), e gerados em uma barriga solidária.

No Brasil, a reprodução assistida é controlada pela Resolução n° 2.168/2017, do Conselho Federal de Medicina, pelo Código de Ética Médica e pela Lei n° 11.105/05, conhecida como Lei de Biossegurança. São elas que regem os direitos e deveres de médicos e pacientes.

No país, as doadoras temporárias do útero, ou "barrigas solidárias", devem pertencer à família de um dos parceiros até 4° grau (mãe, avó, filha, irmã, tia, prima, sobrinha), e a doação temporária do útero não poderá ter caráter lucrativo ou comercial - diferente do que é permitido em outros países, como os Estados Unidos, por exemplo.

"Expor a dupla paternidade nas redes é a forma de se posicionar politicamente"

Otávio e Marcel fizeram a primeira tentativa de engravidar em 2017, em Salvador. A irmã de Marcel gestaria os embriões - dois seriam transferidos. As chances de sucesso de uma FIV são de aproximadamente 50%. As duas primeiras tentativas falharam.

Dois anos depois, em 2019, uma amiga do casal se voluntariou para ser barriga solidária, e a família fez uma nova tentativa. Exceções como essa dependem da anuência do Conselho Regional de Medicina (CRM), já que a doadora temporária do útero não tem parentesco consanguíneo com Otávio ou Marcel. As duas tentativas anteriores foram levadas em consideração para o aval do CRM. E deu tudo certo.

Mais que celebrar a vida, expor a dupla paternidade nas redes é a forma de se posicionar politicamente escolhida pelo casal. "Tentamos educar as pessoas, mostrar que nossa família é igual a todas as famílias. Quando recebemos um ataque e não conseguimos dialogar, bloqueamos. Algumas pessoas nunca vão mudar. Mas a maioria absoluta dos seguidores nos enche de carinho. Temos tido sucesso com essa forma de militar. Mostro que minha família é igual a sua, a todas. Temos as mesmas alegrias e dificuldades."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL