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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Influenciadora fala das dores e delícias de ser uma lésbica desfeminilizada

"A sociedade falava o tempo todo que, por ser desfeminilizada, tenho que ser ativa. Isso é um mito", aponta a influenciadora Jéssica Milan, 25 - Reprodução/Instagram
"A sociedade falava o tempo todo que, por ser desfeminilizada, tenho que ser ativa. Isso é um mito", aponta a influenciadora Jéssica Milan, 25 Imagem: Reprodução/Instagram
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista do UOL

20/10/2021 04h00

Nas redes sociais, onde produz conteúdo sobre as dores e as delícias de ser uma lésbica desfeminilizada (desfem), ou seja, que não performa feminilidade, Jéssica Milan, 25 anos, estilhaça paradigmas com bom humor e leveza. Em pouco mais de um ano, a publicitária, que começou compartilhando vídeos sobre a sua vivência, já conquistou mais de 50 mil seguidores no Instagram e no TikTok.

"Meu primeiro vídeo foi falando sobre ser uma mulher gorda. Eu não tinha a pretensão de trabalhar como influenciadora, nem nada. Fiz porque eu tava cansada de ouvir certas coisas e quis me expressar. Foi bem daquele jeito: 'postei, joguei o celular e saí correndo'. Eu não queria nem ver a repercussão. Tava insegura, com medo. Quando publiquei, muita gente que eu admirava assistiu e veio falar comigo. Foi uma coisa surreal!", conta.

O vídeo viralizou e muitas mulheres lésbicas desfeminilizadas começaram a chegar no perfil dela e a compartilhar vivências. "Desde então, meu conteúdo ficou nichado. Falo sobre ser uma mulher gorda, desfeminilizada e lésbica. A identificação de tantas pessoas foi me dando gás pra continuar."

'O primeiro beijo, em um garoto, foi muito estranho pra mim'

Nascida em São José do Rio Preto, a 440 quilômetros de São Paulo, Jéssica conta que se entendeu lésbica por volta dos 13 anos de idade. Antes, teve um relacionamento com um rapaz que conheceu pela internet.

"Ele foi meu primeiro namorado, meu primeiro beijo na boca. Fomos ao cinema e lá dei meu primeiro beijo. Foi muito estranho pra mim! Eu pensei: 'Meu Deus, é isso que é beijar na boca que as pessoas falam?!'. Mantive essa relação com ele por três meses, mas a gente se viu quatro vezes nesse tempo. Foi o suficiente pra eu perceber que aquilo não fazia muito sentido pra mim."

O primeiro beijo em uma garota aconteceu pouco depois, com uma colega de sala que era assumidamente lésbica. "Quando a beijei pela primeira vez, nossa! Aquela sensação de borboleta no estômago, de flutuar, de 'meu Deus do céu! É isso que faz sentido', sabe?! Minha mão suava, foi uma coisa de louco", revela. O namoro durou três anos.

Para Jéssica, o processo de entendimento da sua sexualidade foi "prático". A saída do armário, entretanto, bastante conturbada.

"Na verdade eu não saí do armário, fui puxada pela minha mãe"

"Uma semana depois que comecei a namorar a menina da minha sala, minha mãe pegou uma carta que ela tinha escrito pra mim. Minha mãe já tava sentindo que tava acontecendo alguma coisa. Quando pegou a carta, foi direto à casa da menina, conversar com a mãe dela. Minha mãe tava brava, chorando, muito irritada com toda a situação."

Para enfrentar o momento turbulento, Jéssica pediu a ajuda do pai. "Meus pais são separados, liguei e ele foi me buscar. Meu pai foi super tranquilo, disse que já imaginava. Eu me senti acolhida e fiquei morando com ele por cerca de um mês. Depois fui retomando gradativamente o contato com a minha mãe. Hoje em dia nossa relação já é super saudável, conversamos sobre tudo, ela até compra cueca pra mim", diverte-se.

"Eu e minha mãe temos uma relação saudável, mas foram longos anos pra que essa aceitação de fato acontecesse. Foi um processo difícil pra ela e pra mim, consequentemente, mas o apoio do meu pai deixou as coisas mais tranquilas. Se eu não tivesse ele nesse momento, não sei o que teria acontecido."

Pressão heteronormativa

"Como a sociedade sempre foi muito heteronormativa, cheguei a me questionar sobre a possibilidade de ser transexual. Naquela época, 11 anos atrás, não se falava muito sobre transexualidade no Brasil. Encontrei canais gringos no YouTube falando sobre o assunto. Como percebi que não me encaixava dentro dos papéis de uma mulher que performa feminilidade na sociedade, eu tentava achar outra explicação, então cheguei a pensar na possibilidade de ser trans. Depois percebi que não era, que eu poderia, sim, ser uma mulher e me vestir dessa forma, e que tava tudo bem. Só que uma coisa não saiu da minha cabeça: que eu tinha que cumprir esse papel de 'ativa' na relação."

Mulher desfem não é "o homem" da relação

"Esse papel de dominante, desse negócio de cavalheirismo - que, pra mim, é super cafona -, de abrir a porta do carro... Isso ficou em mim durante um tempo, porque a todo momento eu percebi que era isso que as pessoas esperavam de mim. Vivi transando usando aquelas frases: 'só sinto prazer em dar prazer', 'eu gozo só de dar prazer'... E é lógico que eu gosto de dar prazer, mas eu também gosto de receber. As pessoas enxergam mulheres desfem como máquinas de dar prazer e só isso. E eu também quero sentir prazer, quero ter o meu corpo desejado, e não quero ser vista como um brinquedo que tá ali pra dar prazer e pronto. Eu não tenho essa função. Eu também preciso me sentir desejada, como todas as mulheres."

Levada a desempenhar o papel de mulher extremamente ativa nas relações, tanto afetivas quanto sexuais, Jéssica passou anos fingindo orgasmos.

"Descobri o que era orgasmo sozinha, por volta dos 18 anos. Eu me afirmava ativa, tinha relações sexuais com outras mulheres e só eu fazia coisas. Não gozava. Mesmo assim, falava que gozava 'só dando prazer'. Comecei a perceber que isso não fazia sentido, que eu gostava de dar... Eu gosto de dar, caramba! Qual o problema de uma mulher desfeminilizada falar que gosta de dar? Não tem problema nenhum nisso, mas foi colocado na minha cabeça durante muito tempo que isso era uma problemática. Criar conteúdo sobre isso me ajuda a me desconstruir e a me entender melhor a cada dia. Isso é muito importante", pontua.

Para a influenciadora, a expectativa de que mulheres desfem sejam sempre ativas no sexo, tomem a frente de todas as situações, paguem a conta do restaurante e enviem flores é um tabu que precisa ser quebrado. "Não que a mulher desfem não possa fazer essas coisas. Ela pode e deve, mas também pode e deve receber tudo isso. É uma troca, né?! Eu quero cuidar, mas também quero ser cuidada."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL