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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Quem é o homem?': 8 perguntas e frases que lésbicas não querem mais ouvir

"A ideia é justamente não ter homem numa relação lésbica então não nos perguntem isso", diz a colunista Angélica Morango - Arquivo pessoal
'A ideia é justamente não ter homem numa relação lésbica então não nos perguntem isso', diz a colunista Angélica Morango Imagem: Arquivo pessoal
Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

https://universa.uol.com.br/colunas/morango

Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

21/07/2021 04h00

Nasci lésbica, mas dei entrada no processo para tirar a minha carteirinha do "Vale dos Homossexuais" por volta dos 14 anos, quando era uma sapateen ainda. Tive crush na Alline Moraes, na Britney Spears e nas Spice Girls. Achava a Cássia Eller uma das mulheres mais incríveis de todos os tempos — e ainda acho.


Entender a diferença entre amar, admirar e desejar mulheres, aliás, foi o grande ponto de virada da minha história. Da minha. O autoconhecimento é um processo muito particular.

Contando assim, parece que tudo foi bem simples, mas não foi não. Conflito interno. Externo. Bullying. Negação. Medo. Preconceito. Tudo num loop infinito até os meus 24, quando falei para o país inteiro que eu era lésbica. Assim, com todas as letras, no "Big Brother Brasil" (Globo).

Desde então (e lá se vão 12 anos) me sinto muito confortável ao receber as mais variadas perguntas e colocações, com todos os tipos de vieses. Essas oito são algumas das que mais ouvi na vida — e respondi do meu jeitinho.

nazaré - Reprodução - Reprodução
A personagem Nazaré Tedesco, interpretada por Renata Sorrah na novela "Senhora do Destino", de 2004, usava a frase "Sinto de longe o cheiro de couro" para se referir a lésbicas
Imagem: Reprodução

"Lésbica? Sapa? Sáfica? Sapatona? Como posso chamar uma mulher que sente atração por mulheres?"
Pouca gente sabe, mas pode-se chamar uma mulher que sente atração por mulheres pelo nome dela.

"Toda mulher que beija mulher é lésbica?"

Não. Mulheres que beijam mulheres podem ser lésbicas, bissexuais, pansexuais, heteroflexíveis e até heterossexuais. A resposta é extremamente pessoal e depende de como cada mulher se sente e se identifica em relação à própria sexualidade.

"Como posso descobrir se uma mulher é lésbica?"
A menos que a dúvida parta de outra mulher que queira convidá-la para um date, a orientação sexual dela não diz respeito a mais ninguém.

"O que duas (ou mais) mulheres fazem juntas na cama?"
Exceto um duplo mortal carpado, tudo. Brincadeiras olímpicas à parte, depende do que elas estão a fim. As possibilidades são infinitas com ou sem acessórios.

"Num casal lésbico, quem é o homem da relação?"
Não há homem na relação. A ideia é justamente essa.

"Entre mulheres lésbicas existe a 'passiva' e a 'ativa'?"
Durante muito tempo mulheres que performam feminilidade foram vistas como "passivas", e mulheres que não performam feminilidade (chamadas de 'desfem'), como "ativas". Urge que a gente desconstrua esses estereótipos. Esse conceito meramente estético é completamente equivocado. Roupas, acessórios e cortes de cabelo não determinam o comportamento romântico, muito menos sexual das pessoas.

"Não curto mulher, mas você eu beijaria"
Se você acha que essa frase é um elogio, por favor, repense. Ela apenas fetichiza o corpo e a vivência lésbica.

"Sinto de longe o cheiro de couro"
Sucesso entre os memes de Nazaré Tedesco, personagem icônica de Renata Sorrah na novela "Senhora do Destino", o bordão está na moda há quase 20 anos e significa "sapatonice na área". Como em toda brincadeira, pode ser usada entre pessoas que tenham liberdade e intimidade entre si. Se você acha que não tem liberdade e intimidade suficiente para fazer essa ou qualquer outra brincadeira, é porque provavelmente não tem. Vida que segue. Há milhões de memes e bordões que não atingem diretamente a sexualidade de ninguém para serem usados com tranquilidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL