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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Adesão a protestos antibolsonaro surpreende e pressiona por impeachment

29.maio.2021 - Manifestantes na Avenida Paulista em protesto contra Jair Bolsonaro - NELSON ALMEIDA / AFP
29.maio.2021 - Manifestantes na Avenida Paulista em protesto contra Jair Bolsonaro Imagem: NELSON ALMEIDA / AFP
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

30/05/2021 10h57

As manifestações antibolsonaro deste sábado (29) surpreenderam. Milhares de pessoas que não negam a pandemia ocuparam as ruas do país para materializar uma desaprovação que já é apontada pelas pesquisas de opinião mais recentes.

O que se viu nas ruas, a despeito do medo da pandemia e da repressão policial como a que aconteceu em Recife (PE), foi mais que uma mobilização partidária de oposição. Além da presença dos movimentos sindical, estudantil, indígena, negro, dos sem terra e dos sem teto, por trás dos cartazes que pediam vacinas, impeachment e chamavam o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de "genocida" havia olhos indignados. Com máscaras, escudos contra a covid-19, são os olhos que se pronunciam.

A expressão das pessoas revelou sobretudo um sentimento de imenso pesar, que só brota quando a dor da perda é insuportável. Foram recorrentes em diversas cidades pessoas empunhando palavras difíceis como "meu pai morreu de covid", o maior símbolo da legitimidade dos protestos.

As manifestações também foram impulsionadas pela postura de deboche demonstrada pelo presidente da República, seus apoiadores, sua família, seus ministros e seu ex-ministro da Saúde general Pazuello no final de semana passado durante o passeio de motocicleta no Rio de Janeiro, que têm constantemente estimulado aglomerações sem máscara, sem pudor, sem respeito, sem cuidado com a população, que está mergulhada na tristeza e no desalento.

Ato contra Bolsonaro em São Paulo toma Avenida Paulista

As mortes são muito concretas, assim como a fome. Os protestos foram importantes para demarcar que o comportamento negacionista e a omissão diante das crises sanitária e social serão cobrados, inclusive dos representantes do Legislativo que têm atuado na CPI da Covid e na Câmara dos Deputados para tumultuar a compreensão sobre a responsabilidade acerca do combate da pandemia e de seus efeitos.

O que se viu nas ruas do país neste sábado foi um termômetro, que deve deixar políticos em alerta: a faísca necessária para dar impulso a uma onda cada vez maior em direção ao afastamento de Bolsonaro pode ter sido lançada.

A tendência é que esse volume aumente conforme a população seja vacinada.

O que ficou evidente nesses protestos — e é inegável — foi a existência de um forte luto capaz de mobilizar por mudança.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL