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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A constante saudade que nos acompanha na pandemia e seu poder de mudança

"Qual o nosso papel na luta por um Brasil mais justo?" - iStock
"Qual o nosso papel na luta por um Brasil mais justo?" Imagem: iStock
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista de Universa

09/04/2021 20h39

A saudade, somada ao luto, à dor da perda, à angústia da doença, é um sentimento que nos acompanha todos os dias cada vez mais. Saudade de antes. Saudade do que teríamos sido nesses dois anos. Saudade dos planos que tínhamos. Saudade de um futuro projetado que não existe mais. Saudade de quem se foi. Neste domingo (11), o Brasil registrou 353,3 mil vidas perdidas, média móvel de 3 mil por dia.

Voltaremos a ser felizes?

Penso nisso todos os dias. Penso na vida pós-pandemia, na fome de tantos, nas milhares de vidas perdidas, nas batalhas que precisamos travar já para conter as injustiças, no que deixaremos para nossos filhos e netos. Penso no Brasil destruído, devastado, desmatado. Penso na descrença, no desânimo, na democracia fragilizada. Penso que, até hoje, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não visitou nenhum hospital em funcionamento com pacientes acometidos pela covid-19.

Respiro por quem não pode respirar.

Nesse sopro, de pulmão cheio, enxergo a responsabilidade individual e coletiva que se apresenta diante do desespero: há um caminho pavimentando em direção à justiça social. O único trajeto possível, se é que conseguimos tirar algum aprendizado do que estamos vivendo. Não pode ter sido em vão a construção feita até aqui. Não estamos começando do zero essa caminhada. É o que me alenta o coração.

Mas é preciso estarmos conscientes do compromisso que se impõe ao estarmos despidos nesse mergulho na lama em que nos encontramos: a esperança reside no compromisso de não retroceder em relação aos direitos, à necessidade de diminuir a desigualdade, na importância de enfrentar o racismo, na intolerância ao machismo e à homofobia.

Isso tudo veio à tona, vimos nosso retrato mais feio. Para que não seja um pesadelo eterno, precisamos agarrar essa fenda de luz que resta para seguir adiante com passos firmes, na certeza do trilhar o rumo certo.

Neste momento, dadas as circunstâncias, podemos nos mover pouco. Por outro lado, cada passo tem efeito profundo e conta muito: gestos de solidariedade, atenção, cuidado, um olhar carinhoso, o abraço possível, a mobilização na proteção do outro, são as belezas que curam, por dentro e pelo país doente.

Que papel cada um tem que desempenhar em nome de um Brasil mais justo? Como protegemos nossas crianças de atrocidades como a que levou a vida do menino Henry, 4 anos, há um mês ou como a que fez com que Fernando Henrique, 11 anos, Alexandre, 10, Lucas Matheus, 8, — os três meninos negros de Belford Roxo (RJ) —, desaparecessem sem deixar pistas há cem dias? São tão pequenos.

crianças Belford Roxo - Imagem: Montagem/UOL - Imagem: Montagem/UOL
Desaparecidos há cem dias: Fernando Henrique, 11 anos, Alexandre, 10, Lucas Matheus, 8, os três meninos negros de Belford Roxo (RJ)
Imagem: Imagem: Montagem/UOL

É inaceitável. Dessa certeza não é possível fugir. Somos responsáveis pela infância e juventude. Está também na Constituição.

Meu filho mais novo, de 12 anos, me apresenta a poesia que escreveu a pedido da escola. "Tão perto, tão longe" é o título que traduz o que ele sente.

Nesses últimos tempos, senti saudade. Não pude abraçar, apertar.
A vida virou um tédio;
Minha esperança foi falhando, acabando. A tristeza foi aparecendo, a alegria desaparecendo.
Meu corpo mudou, minha força também. Tudo indo para baixo, a força de vontade, a felicidade.
Certas coisas foram tomando forma e me dominando, como o estresse, a raiva, o mau humor.
Na medida do possível, aguentei;
Vivi, cresci, aprendi. Certas coisas positivas aconteceram, mas em minoria.
Havia locais de refúgio. De desabafo.
Senti uma saudade colossal de tudo.

Cuidemos das nossas crianças e jovens, de regá-los de esperança. Não no sentido ingênuo e vazio, mas na convicção de que o comprometimento é coletivo. A saudade nos norteia. Faz parte do Brasil que somos, a parte que está escondida de ser brasileiro, da alegria, da dança, do samba.

Não é por acaso que saudade é uma palavra tão nossa, que exprime muito sobre quem somos. Que ela nos faça capazes de mover o mundo e diminuir injustiças.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL