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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não só testa congelada: Botox me fez refletir sobre minhas marcas

Getty Images
Imagem: Getty Images
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Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

17/08/2021 04h00

Não, você não precisa ficar com cara de pandeiro ao aplicar a toxina botulínica. Há profissionais sensíveis e capazes de garantir aquele aspecto de quem acabou de dormir dez anos, sem deixar muitas pistas do procedimento. Por acaso, tem algum problema deixar pistas? E se eu quiser ficar com a cara bem esticadona mesmo? Se joga! Meu único conselho, se é que me permite dá-lo, é o de procurar um profissional da saúde. Aplicação de Botox é um procedimento médico, não uma limpeza de pele que você marca ali na esquina ou ganha numa rifa no bingo da igreja.

Aqui, do meu lado, sempre observei com franca curiosidade os movimentos e avanços da indústria da beleza. Movimentos e avanços... Acabei de pensar nas possíveis relações com essas palavras. Me veio um tabuleiro de xadrez, uma pista de dança. Essas relações não deixam de ser um grande jogo e uma grande dança. Pensando assim, prefiro não perder a partida, nem o rebolado. Puxando pela memória, acho que há mais ou menos quinze anos essa palavra e prática se tornaram presentes nas conversas e caras de pessoas próximas: o Botox. Botox, na verdade, é uma marca. A substância é a toxina botulínica, que pode ser empregada para paralisar músculos do nosso rosto e evitar linhas ou dores — do bruxismo, por exemplo.

Sempre atenta, assim que surge um novo procedimento ou ativo, tento entender o que é, o que faz, por que faz, e mais, me pergunto "preciso disso?" "quero isso?"

Devo confessar que, anos atrás, quando minhas amigas de vinte e poucos anos começaram a congelar suas testas, silenciosamente as julguei. Por pura babaquice e pretensão mesmo

Pretensão de achar que eu era um tipo de "special shit", só por não estar rendida aos ditames da indústria da beleza e à ode à juventude. Olha como sou resistente! Hm... A vida ensina, meu bem.

A artista que cuida da minha pele é uma mulher que não dá um passo sem a ciência no comando. Ela tem essa habilidade tão escassa hoje em dia: ela ouve. Olha só, que coisa louca. Ela te ouve e te respeita. Tudo isso para dizer que dra. Carla, a artista em questão, nunca tentou me enfiar agulhas na pele só porque era o que todos estavam fazendo.

Corre o tempo e, em 2018, ela lançou: "Não acha que está na hora de fazermos um Botox, Fabi?" Confesso que, a princípio, tinha muita curiosidade sobre o resultado. Queria ver como aquilo afetaria meu rosto, e, mais que isso, minhas expressões. Sou meio expansivona, falo com o corpo inteiro. Tive medo de perder isso. De ficar com a cara empalhada, liga? Com aquele ar de eterna surpresa. Fiquei com medo de estar negando algo inegável, a passagem do tempo.

Confio demais nessa mulher e me entreguei para as suas agulhas. Posso dizer que, naquele dia, entrei com semblante de uma pessoa cansada e saí com aquele ar pós-férias-com-o-grande-amor (ou amores). Lembro claramente disso. Ninguém do meu círculo próximo de amigos perguntou nada. Ninguém notou. A única pergunta que respondi (a qual eu e apenas eu sabia ser relativa às agulhadas) foi: "Tava de férias, Fabi? Tá com um ar tão descansado." Sorri relaxada.

Isso foi lá em 2018. Fiz como modo de experimentação e não voltei a fazer. Desde então, continuo olhando tudo com atenção. Sendo honesta, me incomoda a pasteurização dos rostos e corpos. Esse exército de gente inexpressiva, que mal mexe a boca. Mas, problema deles. Eu que fique quieta e cuide da minha vida. E, cuidando da minha vida pandêmica, notei uma inscrição no meio da minha testa. Uma não, duas. Tentei ignorar.

Carla me perguntou: "Você tá mais preocupada que o normal ultimamente? Mais estressada? Tem dormido direito?" Pensei "apenas vivo no Brasil em 2021..." De início, ignorei as valetinhas que se formavam ali. Aos poucos, fui notando que elas me deixavam com um ar zangado, meio acabadona. Comecei a noiar. Senti que tava perdendo o controle da testa... "Ah, então você acha que pode controlar tudo?", "Me deixa, isso aqui eu posso, sim". Marquei com a doutora.

Depois de três anos, fui em busca daquela brisa fresca na cara. Fui em busca do semblante despreocupado e plácido. As inscrições tão lá, só que levemente neutralizadas. Espera aí. Vou deixar isso aqui ainda melhor. As marcas continuam, mas foram elaboradas em superfície mais branda, com toxinas, ideias, certezas e incertezas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL