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Fabi Gomes

O empoderamento das tetas de fora: a nudez te deixa mais forte?

Getty Images
Imagem: Getty Images
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

04/11/2020 04h00

Você acredita que se empodera quando posta foto pelada nas redes sociais? (o quanto de peladice é possível mostrar ali, né?) Vem comigo, porque essa discussão é boa.

Entendo que, quando a gente tá a fim de trocar ideia sobre uma determinada causa, é importante fazer uma pesquisa. Tentar entender de onde vem, como surgiu, por que surgiu, o que advoga? Especialmente se, do nada, essa causa é resumida a uma expressão que, de repente, se populariza e passa a ser amplamente utilizada.

Minha suspeita só aumenta quando termos que definem essas causas passam a figurar em peças publicitárias, oferecendo valiosas "lições de vida". Empoderamento é um desses casos. Então, pra começar a conversa, sugiro que depois deem uma lida no livro de Joice Berth: "Empoderamento (Feminismos Plurais)".

No livro, Joice oferece uma análise aprofundada sobre o termo e nos leva desde sua origem semântica até à Teoria do Empoderamento, referenciando diversos autores e pesquisadores. Numa das passagens, encontramos a citação ao sociólogo americano Julian Rappaportem. Em 1977, ele definiu empoderamento como "o processo de ganhar liberdade e poder para fazer o que você quer ou controlar o que acontece com você".

Postando foto pelada, ganhamos liberdade? De algum modo, sim, né? Pensando sob o aspecto da liberdade de expressão e autoaceitação, acho que sim.

Me empodero e controlo o que acontece comigo? Hmm, aqui já começo a pensar que não. Há alguma chance de essa imagem circular por aí fazendo com que eu possa ser objetificada de algum modo? Ah, mas se alguém usar essa imagem para obter prazer sexual, a questão tá com quem faz, não comigo. Sim. No entanto, o prato foi servido por você mesma, mulher empoderada. Irônico não? O fato de eu decidir não postar essa foto, por esse temor, não configura medo e controle? Acho que sim, né?

Pois é, amigas.

Serasse, mais uma vez, isso diria respeito à mulher sendo vitimizada e precisando decidir sobre como deve ou não expor seu corpo, baseada na opinião ou interdição do outro? Tô apenas levantando questionamentos pra pensarmos juntas.

Contribuo para empoderar outras mulheres? Talvez sob a ótica da aceitação, sim. Mas, como veremos, a teoria do Empoderamento não se restringe a esse aspecto individual, mas muito mais com ações que possam promover mudanças no coletivo.

De volta ao livro de Berth, um pouco mais à frente, já falando sobre a teoria do Empoderamento, ela cita a autora portuguesa Rute Vivian Angelo Baquero:

"De todas as palavras-chave que entraram no léxico do desenvolvimento nos últimos 30 anos, o "empoderamento" é provavelmente o mais usado e abusado. Como muitos outros termos importantes que foram inventados para representar um conceito político claro, ele foi "incorporado" de uma forma que praticamente o roubou de seu significado original e valor estratégico."

Dando mais um "tibunzinho"no assunto, encontramos no livro de Berth a definição da professora feminista norte-americana Nelly Stromquist:

"O empoderamento consiste de quatro dimensões, cada uma igualmente importante, mas não suficiente por si própria, para levar as mulheres a atuarem em seu próprio benefício. São elas a dimensão cognitiva (visão crítica da realidade), psicológica (sentimento de autoestima), política (consciência das desigualdades de poder e a capacidade de se organizar e se mobilizar) e a econômica (capacidade de gerar renda independente)."

Ou seja, segundo o ponto de vista de Stromquist, autoaceitação seria uma das dimensões associadas à expressão do empoderamento, porém não o único (tomei a liberdade até de colocar em destaque no texto).

Ué, então não tá errado realizar essa associação, certo? Certo. Mas a coisa é que ela não pode ser limitante ou reduzida à apenas essa definição, como diz a autora. Que é o que vem acontecendo, especialmente nas mídias sociais, onde tudo precisa ser envelopado em imagem, frases curtas e reducionismos.

Com roupagem de movimento revolucionário, muitas vezes calcados em discursos de autoaceitação e no individualismo, movimentos importantes perdem força e acabam por reforçar padrões dos quais pretendíamos nos livrar, além de reduzir a importâncias de lutas às quais deveríamos estar atentas. O desempoderamento (ou a manutenção do domínio) é sorrateiro e pode vir disfarçado em lindas fantasias.

A biscoitagem produzida e incentivada nas mídias sociais, com fortes raízes no caráter narcisista, é grande produtora de elogios como "linda", "musa", "deusa" e "perfeita". Essas manifestações, que figuram entre as mais recorrentes quando se trata de mulheres, acabam por nos embaçar a visão. Pra onde esses elogios podem estar nos levando? O que isso pode estar querendo nos dizer?

Seria uma hipótese a de que a prerrogativa da beleza e perfeição está sempre atrelada ao sucesso da mulher? Notem que, quanto maior o número de comentários elogiosos, mais e mais frequentes são essas expressões.

Só servimos enquanto musas, deusas, perfeitas ou lindas? Ah Fabi, para de história! E deusa? Tenho pra mim a sensação que essa deusa seria mais pros lados da Vênus, deusa do amor e da beleza, do que de Atena, deusa da sabedoria, ou Diana, deusa da caça. Claro, porque, nesse caso, a deusa viria como símbolo de beleza e não de poder ou sabedoria.

Algum problema com a beleza, querida? Muito pelo contrário, até trabalho com isso! Mas não podemos estar sempre associadas apenas a esse conceito. E as musas? Vieram pra inspirar os outros. São um veículo. Se liga nessa frase do galante cantor espanhol Joaquin Sabina: "as musas não cobram direitos autorais". Ah, que bom pra você né, querido?

O que dizer das musas do rock? Sempre figurando como poderosa força motriz para criação de seu homem. Vale a pena ler o artigo do jornal britânico "The Telegraph" a respeito. No qual, lá pelas tantas, o autor dispara: "As musas famosas na cultura do rock são essencialmente figuras descartáveis e sem poder. Pelo menos até que se estabeleçam de modo mais relevante." (tradução nossa)

Hesitei em trazer o questionamento para a coluna, já que, como podemos ver, não se trata de tema fácil. Encorajo fortemente as pessoas que se interessam por esse e outros temas atuais a se informarem em fontes de confiança. Buscarem o contraditório, ler e reler conceitos, buscar discussões acerca do tema. Não basta vestir (ou tirar) a camisa, com a expressão empoderamento, para de fato contribuir com a causa de modo eficaz.

Ao invés disso, interpretações simplistas e superficiais muitas vezes acabam esvaziando o significado e a força de movimentos e causas importantes. Aqui do meu lado, acredito que ainda há muita luta pela frente. Sendo honesta, o uso vulgar que acabou se atribuindo ao termo empoderamento me deixa pouco à vontade.

Não acho que vamos chegar a um lugar de igualdade, respeito e entendimento mútuos se ainda precisarmos de um lado sobrepujando o outro. Aliás, essa abordagem pode inclusive conter um certo perfume tirânico.

Agora, vamos esperar os comentários dos boys (e, surpreendentemente, algumas minas), inconformados com tanto "mimimi". Não leio, mas minhas amigas leem. Beijo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.