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Fabi Gomes

Hey, boy! Posso só me aproveitar de você?

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

27/10/2020 04h00

Quando tinha uns 14 anos, já com fogo no rabo, querendo ruar, ver e viver a vida, naturalmente, tinha como hábito desafiar minha mãe. Dona Nézia, que vinha de uma família simples do interior do Paraná, desde pequena trabalhou. Quando criança, para ajudar a família de seus pais, quando adulta, para manter a própria família. E Dona Nézia casou-se cedo, aos 16 anos, não necessariamente por amor, mas mais por vontade de sair de casa e ganhar o mundo.

Percebendo que, ao invés do mundo, ganharia o fogão e a vassoura, deu seu jeito de ir atrás de liberdade e da vida. Foi trabalhar fora e tornou-se cozinheira. "Nossa, Fabi, que legal! Então, você deve cozinhar super bem!" Na real, não. O pouco que sei, aprendi na quarentena e ao longo da vida, espionando discretamente o que Dona Nézia sempre fez tão bem. Guiada pela convicção de que mulher não PRECISAVA saber cozinhar, a linda nunca quis me ensinar.

Ao seu modo, com os recursos que tinha, Dona Nézia fazia as revoluções que podia. No pouco tempo livre disponível, ainda que de modo inconsciente, foi me transmitindo seus ideais e crenças. E foi numa dessas oportunidades que eu, querendo ganhar meu mundo e sair de rolê, me deparei com Dona Nézia entrando numas de encanar.

Isso por talvez sacar que o que semeou começaria a dar frutos, e eles possivelmente não seriam aceitos de modo tranquilo pelas pessoas. Encanava um pouco por proteção, claro. Um belo dia, imbuída das melhores intenções, Dona Nézia tentou me passar seus ensinamentos/experiência pessoais com os homens, e me alertou: "cuidado com os homens, Fabiana, eles só querem se aproveitar das mulheres".

O alerta me fez pensar, e indaguei: "Mas, mãe, e se eu quiser só me aproveitar também?" E ela não disse nada. Mas imagino que aquela petulância tenha gerado alguns questionamentos e lhe dado um certo orgulho.

A manutenção do patriarcado e das opressões às mulheres e a todo e qualquer sinal de sua liberdade acontece de modo automatizado e silencioso. Muitas vezes as próprias mulheres se encarregam da reprodução desses modelos e da transmissão dessa herança de geração em geração.

Junto ao pesado treinamento que recebemos de que "menina não pode isso" e "menina não pode aquilo", também somos ensinadas a como devemos ter nossos corpos, a fim de, com sorte, nos tornarmos noivinhas.

E ainda somos guiadas sobre como devemos cobrir (ou não) esses corpos, como devemos nos movimentar, comportar e falar - "não senta com as pernas abertas", "não pega bem menina falando palavrão", "que deselegante uma mulher no bar, bebendo desse jeito...", "acredita que ela saiu com as amigas e deixou os filhos com a babá?", "não chame o garçom, peça para um homem fazer isso por você"... Poderia encher páginas e páginas com exemplos dos do's and dont's para meninas.

Meninos também têm suas listas e não tô dizendo que são menos danosas. Afinal, ser ensinado a não chorar e não demonstrar fraquezas ou vulnerabilidades é de uma crueldade absurda, com consequências terríveis nas vidas de toda la gente. Sem mencionar a pressão pelo desempenho sexual performático e viril. Não ouse falhar! Ninguém passa incólume aos ditames das normas coercitivas, reguladoras e perversas da sociedade.

Mas meu rolê aqui são as meninas, que, nessa dança, têm uma lista muito mais extensa de restrições e estão há anos em posição de desigualdade. Vamos voltar aos corpos femininos. A construção de autoestima é sempre minada. Aí, já viu... E, no contexto que estamos tratando, naturalmente não seríamos ensinadas sobre como podemos explorar o prazer sexual, né? Afinal, isso nem parece uma opção.

Aí, quem lê o começo do texto deve pensar "ela deve ser muito liberada e confiante, se aos 14 já tava querendo aproveitar". Não, não, não! Aos 14, eu tava só pensando e falando essas coisas, fazendo essas associações baseadas no que sacava ao meu redor. Não significa que, quando comecei minha vida sexual, tudo tenha acontecido de forma mágica. É desafiador para todas.

E aí retomo o que trouxe para a roda no início: se eu quiser só me aproveitar do boy, por prazer, qual é o problema? Se todo mundo estiver feliz, segue o baile. Esse direito é universal, irrestrito. Mulher, homem, cis, trans, hetero, gay... Todo mundo pode e merece.

Além de não falarmos de modo aberto e franco sobre sexualidade, ela ainda é, em 2020, tratada como tabu. Temos todos os desafios relacionados aos padrões estéticos, aos quais somos extensivamente expostos. E, a essa altura, já estamos ligados que essa confiança e desenvoltura sexual têm muito a ver com sentir-se bem no seu próprio corpo. Não é possível que tudo isso seja planejado! Ou é?

Olha, sigo tentando aprender e a relaxar para potencializar minhas experiências. Mas esse jogo é longo, e a gente vai destravando as fases no meio do caminho. Destravei fases sensacionais aos 35, aos 40... fases que eu nem sabia que existiam. Tomara que siga destravando muitas mais!

E destravar essas fases todas é ou não é uma ferramenta incrível de autoconhecimento e exploração dos desejos? O destravamento das fases do jogo das minas é lindo, e uma força da natureza contra os impactos que os padrões geram. Duvida?

Quer saber como anda Dona Nézia? Tá ótima! Segue com suas revoluções e, contrariando o que muitos dizem sobre mulheres e a velhice: aos 83 anos, ainda namora e, segundo ela, recebe elogios de que é muito gostosa!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.