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Débora Miranda

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Jornalista agredida: 'Não vou ceder um milímetro, amanhã volto à cobertura'

Jornalista foi agredida enquanto trabalhava - Reprodução/Twitter
Jornalista foi agredida enquanto trabalhava Imagem: Reprodução/Twitter
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

08/05/2021 04h00

A cena é chocante. Um homem agarra o pescoço de uma mulher, na beira de um campo de futebol. Ela, com o braço, tenta se desvencilhar.

A agressão aconteceu após a partida entre Altos e Fluminense-PI, válida pela 9ª rodada do Campeonato Piauiense, na noite de quarta-feira (5). A jornalista Emanuele Madeira, 30 anos, da TV Clube, afiliada da Globo no Piauí, filmava a discussão entre o técnico Wallace Lemos, do Fluminense, e Warton Lacerda, presidente do Altos e deputado estadual pelo PT.

Ela acompanhava o jogo como repórter do site GE Piauí e registrava a discussão para a reportagem, com seu celular. "A gente estava esperando a coletiva, pronto para gravar a declaração do técnico. E teve início a confusão. Comecei a gravar. Minha intenção era já enviar para a redação. Foi quando ele surgiu", lembra Emanuele.

O agressor, que usava camisa do estafe do Altos, foi identificado como João Paulo dos Anjos Abreu. Ele havia sido credenciado para a partida pelo time, como auxiliar de CPA (Centro de Pesquisa e Análise), responsável pelas estatísticas do jogo.

"Nunca tinha visto ele na vida. Chegou dando ordem, dizendo que não era para eu gravar, que era para apagar o vídeo. Pedi a ele que não encostasse em mim. Ele veio tomar o celular da minha mão e, quando conseguiu pegar o telefone, fui para cima dele, tentando recuperar o aparelho. Nessa tentativa de reaver o celular, ele me tocou na parte do pescoço. Foi aquela cena que todo o mundo viu", lembra Emanuele.

Ela diz que, na hora, não conseguiu ter a dimensão do que estava acontecendo. "Não senti a situação. Estava tão focada em recuperar o celular que eu só me toquei do movimento dele quando vi as imagens. Minha reação foi de perplexidade. Em dez anos de profissão, nunca tinha passado por nada semelhante."

A jornalista Emanuele Madeira - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
A jornalista Emanuele Madeira
Imagem: Reprodução/Instagram

Depois do jogo, vazou uma mensagem de áudio divulgada em um grupo de WhatsApp que teria sido identificada como sendo de Abreu. No recado, o homem chama Emanuele de "sapatão vagabunda" e diz que ela o agrediu, não o contrário. O áudio foi anexado às acusações que a jornalista oficializou contra ele. No mesmo dia da partida foi registrado um boletim de ocorrência e, ontem, ela assinou seu depoimento.

O sentimento, ela diz, é de decepção.

Mas, pessoalmente, não mudou nada. Não vou ceder um milímetro para essa situação que aconteceu. Amanhã volto à cobertura e já me escalei para todas as partidas do Altos que meus editores acharem que temos que cobrir. Vou seguir com meu trabalho.

Emanuele espera, no entanto, que a Justiça faça sua parte. "Porque não é algo só sobre mim. E, se nada acontecer, abre um precedente para que episódios como esse possam se repetir com outras mulheres e outros profissionais dentro do campo de jogo. Espero que tenham essa sensibilidade. Se as pessoas acreditarem que podem interferir no trabalho do outro, não tem mais jogo. Fica inviável."

Se quem estivesse filmando a briga fosse um homem a abordagem de Abreu seria diferente? Emanuele tem certeza que sim.

A primeira coisa que ele não faria é ir para cima de mim.

'A gente não pode parar'

A relação de Emanuele com o esporte vem de algum tempo. Ela foi judoca, chegou a treinar com a campeã olímpica Sarah Menezes. Brinca dizendo que jornalista esportiva é uma atleta frustrada. Quando chegou à universidade, decepcionou-se ao descobrir que não havia como se especializar na área em que queria atuar: jornalismo esportivo.

Quando a faculdade inaugurou sua rádio universitária, Emanuele se reuniu com amigas que tinham sonhos semelhantes e lançou o programa "Universitária Esportivo", dedicado ao esporte amador e no qual faziam tudo: produção, locução, reportagem.

"Vimos que era a única oportunidade que nós teríamos de entrar no mercado esportivo aqui. E deu certo. Foi o que nos catapultou para o mercado de trabalho e para dentro do esporte. Conseguimos reconhecimento depois que as pessoas, especialmente os outros jornalistas, viram que trabalhávamos de forma séria, porque as mulheres que gostavam de esporte eram sempre consideradas maria chuteiras. Sempre houve uma visão bem preconceituosa."

Emanuele diz que o mercado ainda é bastante inóspito para mulheres. "Houve duas pessoas que trabalharam com a gente no programa e que hoje não sentem mais vontade de voltar. A desilusão delas com esse cenário [do esporte] foi muito grande."

A jornalista não quer que o mesmo aconteça com ela, mesmo depois do trauma da agressão. E espera que sua história seja contada como uma mensagem de resistência para tantas mulheres que sonham em trabalhar dentro de campo.

Ainda me sinto anestesiada. Mas o que eu espero é que as pessoas não desistam por causa desses obstáculos. No momento da agressão, só quem foi ao meu socorro foram as meninas que estavam ali, no campo. É nós por nós e acabou! É necessário ter uma corrente de solidariedade. Se as pessoas não tivessem me dado força, eu não teria conseguido me levantar no dia seguinte. A gente não pode parar. É muito difícil, mas não dá para parar. Senão a gente vai ser engolida.

Segundo reportagem do UOL Esporte, a polícia ainda tentava encontrar o acusado de agredir Emanuele para ouvir sua versão dos fatos.