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Débora Miranda

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Elas têm nome! Torcida palmeirense pede nome das atletas em camisas de jogo

Time feminino do Palmeiras - Rodrigo Corsi/ FPF
Time feminino do Palmeiras Imagem: Rodrigo Corsi/ FPF
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

02/05/2021 04h00

A torcida do Palmeiras lançou, na última semana, a campanha #elastemnome. A ação, que foi divulgada e ganhou força nas redes sociais, pede que as jogadoras da equipe de futebol feminino usem camisas com seus nomes nas costas, junto aos números —como ocorre com o time masculino.

O texto reproduzido diversas vezes na internet fala de como o nome e o número nas camisas de futebol já fazem parte há anos da cultura do esporte. "Entretanto, essa história parece não refletir no futebol feminino", lembra a nota.

"Não basta toda dificuldade do esporte com diferenças estratosféricas de salários, estruturas, equipamentos, marketing etc, as mulheres enfrentam mais esse silenciamento."

Procurada, a assessoria de imprensa afirmou: "O Palmeiras cumpre o regulamento da CBF, que, atualmente, coloca essa questão como opcional. Mesmo assim, é algo que pode vir a acontecer, pois é apenas uma questão de ajuste de logística".

Por que ter o nome na camisa é tão importante?

No futebol masculino, a numeração nas camisas surgiu em 1947 e, em Copas do Mundo, apareceu pela primeira vez em 1950. Lembrando que, nessa época, o futebol feminino estava proibido no Brasil por um decreto-lei do então presidente Getúlio Vargas. Já o nome dos atletas nas costas foi exigido pela Fifa pela primeira vez no Mundial de 1994.

Embora ainda hoje não seja obrigatório segundo as regras da Federação Paulista de Futebol nem as da Confederação Brasileira de Futebol, o nome nas costas da camisa já virou prática entre as principais equipes de futebol profissional masculino.

Um dos motivos é óbvio: possibilita a melhor identificação dos jogadores em campo, o que, por consequência, facilita muito a vida de narradores, torcedores, fotógrafos e —aposto— até de árbitros.

Mas, no que se refere ao futebol feminino, a discussão ganha novos contornos. Partindo do princípio de que a modalidade só passou a ser permitida por lei nos 1980 e, portanto, ainda hoje enfrenta atrasos, descrédito e discriminação de todos os tipos, é fácil imaginar o sentimento de equidade que esse ato de reconhecimento despertaria.

Porque é isso mesmo que significa decidir colocar os nomes das jogadoras nas costas das camisas: um olhar dos clubes para o reconhecimento de que o esporte feminino tem que caminhar lado a lado ao masculino. Com os mesmos direitos, os mesmos benefícios e a mesma estrutura.

Para além disso, se pensarmos que a modalidade está em pleno crescimento, que as TVs estão começando a mostrar os campeonatos, que a torcida por essas atletas está começando a se formar, quão importante é ter o nome delas exposto, para que todos possam facilmente conhecê-las e identificá-las? É essencial, para dizer o mínimo.

"A partir do momento que você entra no vestiário e tem aquele espaço que é reservado somente para você, com o número da sua camisa, o seu nome nas costas, é uma sensação única. Você vê que tem uma importância, que você está marcando a história ali dentro do clube. Você acaba sendo representada, aquilo passa a ser sua marca, a torcida te reconhece, o pessoal que acompanha de casa reconhece e sabe que você usa aquele número, que você é a fulana ou a sicrana. É uma representatividade muito grande para nós enquanto atletas. É uma sensação indescritível", afirmou Rita Bove, meia do Santos, em reportagem publicada pelo UOL Esporte em dezembro do ano passado.

Jogadoras do Corinthians comemoram gol - LEONARDO SGUACABIA/PHOTOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - LEONARDO SGUACABIA/PHOTOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Jogadoras do Corinthians comemoram gol; time é um dos poucos que estampam os nomes das atletas na camisa de jogo
Imagem: LEONARDO SGUACABIA/PHOTOPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Mas por que, afinal de contas, quase nenhum time ainda tem os nomes nas camisas?

Segundo a coluna apurou, o motivo que ainda impede que o Palmeiras coloque nomes nas camisas das jogadoras do futebol feminino tem a ver com a quantidade limitada de material esportivo disponível —mesmo motivo que faz com que os jogadores da base também atuem sem nome.

O futebol feminino recebe quantidade muito menor de camisas do que o masculino, o que acaba sendo decisivo para que os clubes optem por não marcar o uniforme com os nomes das jogadoras, possibilitando a reutilização e a redistribuição.

Enquanto no masculino é relativamente comum os jogadores trocarem camisas no fim do jogo, ou mesmo dar para torcedores, fãs, amigos, no feminino é preciso economizar. Inclusive, em alguns clubes, as camisas ainda precisam ser divididas com atletas das categorias olímpicas.

Outro ponto que faz com que os clubes optem por não marcar as camisas com os nomes das atletas tem a ver com a ainda alta rotatividade do elenco. Muitas equipes fazem contratos curtos com as jogadoras e não querem inviabilizar o uso das camisas caso elas saiam ou troquem de equipe. Da temporada passada para esta, o time do Palmeiras passou por muitas mudanças e, caso as camisas tivessem sido estampadas com os nomes das jogadoras, teriam de ser descartadas. Vale lembrar: as jogadoras ainda não receberam uniformes novos, que devem chegar apenas em maio.

Ou seja, todos os problemas para que elas recebam o reconhecimento de ter os nomes nas camisas ainda têm a ver com o fato de a categoria estar muito atrás do profissionalismo praticado no futebol masculino e ainda não ser valorizada nem ter conquistado direitos semelhantes aos dos homens no esporte.

A questão logística de marcar nomes nas camisas pode parecer complicada, mas para times como o Palmeiras não é algo irrealizável. Equipes grandes têm em seus centros de treinamentos a máquina que "silka" marcas patrocinadoras e números nas camisas. O mesmo sistema é usado para os nomes.

O que precisa ter, além de uma negociação com a marca responsável pelos uniformes que favoreça mais a modalidade, é vontade e organização. Mais do que isso: se os clubes olharem para suas atletas como um patrimônio valioso, a torcida vai junto. Quem sabe as camisas da equipe feminina não possam, em breve, ser sucesso de vendas? Por que não olhar para o futebol feminino com o grande potencial que ele tem de também gerar lucro e ser uma fonte importante de negócios e alegria para os times?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL