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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Banheiros binários x multigêneros: o pavor que temos da diversidade

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Brenda Fucuta Brenda Lee Silva Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Brenda Lee Silva Fucuta

Colunista de Universa

29/11/2021 04h00

Você ainda tem banheiro de empregada em casa ou já incorporou aquele espaço de 1,5 m x 2 m à sua lavanderia? No local onde você trabalha, no andar dos executivos mais graduados, existe banheiro para mulher ou só para homem? Na escola do seu filho, os banheiros femininos aceitam crianças transexuais ou elas precisam usar o banheiro da diretora, que é neutro? No shopping, quando um homem trans entra no toilete masculino e usa o mictório ao seu lado, você se sente à vontade?

Sim, vou gastar esse espaço precioso para falar de banheiro, o mais rejeitado dos cômodos de uma casa, o filho bastardo, o tema desagradável, o menos nobre dos assuntos. Falar de banheiro é o fim da picada, para não dizer outra coisa, certo? Infelizmente, caro leitor, eu discordo. Falar de banheiro é falar do que nos une e nos divide. Em outras palavras, nós somos o banheiro.

Em 2015, eu e meus sócios de uma agência de causas sociais fizemos uma pesquisa sobre as diferenças entre as pessoas LGBTQIA+ e as outras. A minoria e a maioria. Tínhamos a sensação de que parte do estranhamento entre as duas populações estava no medo. Medo do diferente, do não tradicional, do rompimento com os costumes. Então, entrevistamos heteros e homossexuais, promovemos conversas entre eles, queríamos entender quais os principais pontos de atrito.

Uma das coisas que mais nos chamou a atenção foi a questão do banheiro. O banheiro, o lugar onde o ser humano é condenado a ser primitivo, onde não se sustentam as hierarquias, as castas e nem as nobrezas. No banheiro, fazemos xixi e cocô. Ponto. Comendo na xepa da feira ou no Santa Luzia (o mercado mais chique de São Paulo), somos iguais na hora de despejar os dejetos intestinais. Isso por si só tornaria o local exemplo de ideal democrático, certo?

Mas, por incrível que pareça, o uso do banheiro sempre foi um símbolo de guerra, um nó na nossa convivência. Pobres usavam banheiros fora de casa, uma casinha fedorenta no fundo do quintal. Ricos usavam banheiros em suítes, com azulejos e bidês e banheiras com água quente para limpar o bumbum. Negros não podiam usar o banheiro dos brancos. Até hoje, em apartamentos de classe média, empregados não são autorizados a dividir o banheiro (ridiculamente minúsculo) dos donos da casa. Concorda que a questão do banheiro é mal resolvida?

Banheiros multigêneros

E aí chegamos ao século 21, quando transexuais não podem usar os banheiros dos heterossexuais. Há coisa de duas semanas, viralizou um vídeo de uma senhora mostrando adesivos multigêneros em banheiros de uma loja do McDonald's de Bauru, interior de São Paulo. O vídeo causou comoção nas redes sociais, a maioria dos comentaristas dizendo que aquilo era um absurdo, coisa de comunista.

No começo, nem entendi o motivo. Era um vídeo bem amador, tremido, rodando 360 graus em um espaço preenchido por portinhas cinzas adesivadas com a figura de três seres humanos: um homem, uma mulher e uma pessoa de gênero neutro. Embaixo das figuras, a complementação: banheiros individuais.

Estavam reclamando de quê? Não é ótimo ter banheiros individuais? Não é muito mais legal que banheiros abertos, onde você precisa baixar a cueca na frente dos outros? Mas, então, a confusão se dissipou. As pessoas estavam reclamando da terceira figura do adesivo, a figura de gênero neutro ou transexual. No fim, a empresa precisou mudar os adesivos das portas, retomando os tradicionais símbolos de mulher e homem.

Questão foi para o STF

Caramba, temos uma fixação absurda na portinha do banheiro. Não sei se você sabe mas, desde 2015, nossa justiça delibera sobre essa questão. Está no Supremo Tribunal Federal um debate sobre o direito do uso do banheiro por pessoas trans. Em outras palavras: uma mulher trans, aquela que nasceu com o corpo masculino mas que se identifica com o corpo e a alma de uma mulher, pode ou não usar o banheiro (público) de uma mulher?

Essa questão foi levantada porque uma mulher trans tentou fazer xixi em um banheiro feminino em um shopping em Florianópolis. Com o impedimento da segurança do shopping, o caso foi levado à polícia e, desde então, repousa no colo dos juízes da Suprema Corte. E lá se vão seis anos sem que os juízes consigam agenda para deliberar.

Enquanto isso, ouço relato de garotas trans que são assediadas nos banheiros masculinos das escolas. De mulheres trans que desenvolveram doenças renais porque foram impedidas de fazer xixi no banheiro feminino do trabalho. Segundo dados do Dossiê de Assassinatos e Violência contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2020, 9% da população trans sofreu uma violação no direito humano básico de usar o banheiro correspondente ao seu gênero.
E aí, eu te convido: vamos pedir a esses juízes que não menosprezem o banheiro? Ele é muito mais importante do que parece.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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