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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Idosos não são "fofinhos": é preciso parar de infantilizar os velhos

Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

17/07/2021 04h00

Se você tem cabelos brancos, como eu, e odeia quando lhe tratam como criança, este texto pode interessar. Para ser bem sincera, ainda não tenho experiência em todas as situações que vou relatar aqui, mas sei que isso muda muito rapidamente, então vou me incluir, precocemente (mas nem tanto), entre os indignados.

Situação 1. Você vai fazer um exame e a enfermeira começa a falar no diminutivo. "Coloca o bracinho aqui." Não contente em tratar você como um bebê, passa a mentir descaradamente, se esquecendo que a paciente já viveu bastante e tem memória. "Não se preocupe, nem vai doer", diz a enfermeira.

Situação 2. Você vai passear e se veste com uma calça legging preta que imita couro. É uma legging antiga, sempre serviu e ainda serve. Percebe, no entanto, que as pessoas estão olhando, meio espantadas, para suas pernas. E das pernas para o seu rosto que, mesmo de máscara, revela seus mais de 50 anos de idade. Elas estão achando que você não tem mais idade para usar esse tipo de calça, meio roqueira, meio sexy. Não dá vontade de usar o dedo do meio em um ataque de rebeldia que vai combinar com a calça?

Situação 3. Você foi fotografada pelos filhos em um almoço durante esses dias quentes de outono e as tatuagens em suas pernas e seus braços estão expostas, já que a roupa adequada para a ocasião é a que deixa mais fresca - regata e short. Nas redes sociais, um amigo do filho comenta que você é muito moderna porque usa tattoos. Em respeito ao filho, você não responde ao amigo dele que suas tatuagens não foram feitas ontem, no estúdio que ele frequenta. Como cicatrizes, unhas e narizes, as tattoos são permanentes. Envelheceram com você.

Situação 4. Alguém, no seu grupo de conhecidos, comenta que a mãe de uma amiga é muito fofa porque usava uma camiseta feminista em uma festa de aniversário da filha. Fofa? Fofo é o gatinho que deita com as patinhas cruzadas. Fofo é o pezinho gordo de um bebê. O feminismo, pasmem, não foi inventado em 2010. E, no século passado, ele não era fofo. Nem um pouco.

Quando as pessoas envelhecem, elas não ficam bobas, não trocam de guarda-roupa (se preferirem continuar usando as roupas favoritas), não descascam suas tatuagens e nem aderem às causas das filhas por gentileza. Os cabelos ficam brancos, elas ganham rugas etc etc, mas as pessoas não regridem e nem apagam sua história e sua personalidade. Não viram bebês, que precisam ser ensinados, ou bichinhos de estimação, que precisam ser guiados.

Minha mãe, que já tem mais estrada do que eu, costuma dizer que, ao envelhecer a pessoa deixa de ser levada a sério. Segundo ela, a opinião do velho perde importância em um debate, a memória levanta suspeitas recorrentes - como se não estivéssemos todos, de diversas idades, desmemoriados ­-, a capacidade de tomar decisões é questionada. Em muitos casos, tudo isso é feito com as melhores das intenções, com o propósito de oferecer proteção. Muitas pessoas queridas, inclusive filhos, parecem pensar: o mundo mudou muito enquanto meu pai/minha mãe estava tomando sol na ilha do envelhecimento, longe de tudo, portanto ele/ela não se preparou para os novos perigos que se apresentam. Por isso, agora, apesar de você ter mais idade do que todos ao redor, vai ser tratada como a pessoa mais ingênua do pedaço.

É óbvio que em alguns casos, inclusive, os cuidados se justificam, porque a velhice pode trazer limitações físicas e cognitivas. Mas a velhice não é um estado homogêneo, não envelhecemos todos da mesma maneira. Aliás, com a expectativa de vida aumentando no mundo todo, aumenta também a diversidade no envelhecimento.

Costumo dizer aos meus filhos, brincando mas nem tanto, que não quero ser tratada como imbecil - pelo menos por eles - em nenhuma hipótese no futuro próximo. Não quero ser fofa, moderninha, uma atração turística. Quero ser respeitada como alguém que tem personalidade e história.

Há pouco tempo a OMS, Organização Mundial da Saúde, publicava um relatório que alertava sobre o crescimento do idadismo, o preconceito em relação à idade.

O mundo está ficando mais velho e seria mais inteligente para todos que não transformássemos boa parte da população em um estereótipo que mistura fofurice com decrepitude. Pessoas velhas continuam sendo adultos - alguns são gentis, alguns são cruéis. Entre uma coisa e outra, continua havendo toda a infinidade de tons de caráter e de personalidade de um ser humano.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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