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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A internet nos une ou nos afasta? Duas opiniões que podem te surpreender

Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

01/05/2021 04h00

Na semana passada, entrei em contato com duas opiniões interessantes sobre um assunto polêmico: a existência da internet nos aproxima ou nos distancia? A primeira opinião, encontrei em um livro: o celular é uma benção, pois permite que alguém esteja presente mesmo quando está ausente. A segunda opinião, ouvi em um podcast: o contato virtual pode ser, sim, tão significativo quanto o presencial, especialmente se este contato acontecer por meio de voz - ligações e mensagens gravadas.

Peraí que já vou revelar as fontes. A primeira vem de um personagem do livro Talvez Você Deva Conversar com Alguém (Editora Vestígio), da escritora norte-americana Lori Gottlieb.Esse personagem tenta provar à mulher que, ao atender o celular quando está dentro de casa, ele consegue se dedicar mais à família do que faria caso o aparelho ainda não existisse. Porque, antes do telefone móvel, o personagem teria que optar por estar no local de trabalho na maior parte do dia. A mulher, que praticamente cria sozinha dois filhos bem pequenos, não engole a teoria do marido. Para ela, estar com a família é estar totalmente presente, sem a interrupção dos chamados de trabalho. "Não quero que você esteja no trabalho e em casa ao mesmo tempo. Não somos seus colegas de trabalho. Somos sua família."

O personagem, então, explica a sua terapeuta - que é a escritora do livro - que as brigas em torno do assunto têm substituído a harmonia antes existente no casamento. Ele não entende que a esposa não entenda que ele está fazendo o possível para conciliar vida pessoal e vida profissional.
Quem você acha que está com a razão? O personagem, um homem que ama sua família, mas está tremendamente ocupado com sua carreira em ascensão como produtor de seriado em uma indústria de TV, uma indústria que costumeiramente desrespeita horários? Ou a esposa, uma designer gráfica que faz home office para cuidar das crianças pequenas do casal e sente falta do marido e de um parceiro na criação dos filhos? Lori, a escritora psicóloga, faz o que pode para entender o lado do seu paciente - não é isso o que fazem os terapeutas? -, mas ela própria se incomoda com a relação sem freios do personagem com o celular - utilizado, inclusive, no consultório, durante as sessões de análise. Ao final, o desentendimento do casal culmina com um acontecimento trágico (não vou revelar aqui para evitar spoiler. Se você puder, leia o livro. É muito bom.)

Pois bem, esse é o tipo de conflito cuja solução sempre vai apontar para a chata receita do "cada um vai ter que ceder um pouco". Mas, por um momento, vou fazer como a terapeuta e me engraçar com a opinião do produtor de seriado. Ainda que seja um caso extremo de uso intenso do celular, o personagem tem um ponto. As novas tecnologias, de fato, permitiram que ele estivesse em dois lugares ao mesmo tempo.

Ah, claro, pode-se discutir a qualidade da presença. "Hoje em dia, não prestamos mais atenção no outro", "Perdemos o calor humano", "Não sabemos mais conversar"... Esse tipo de crítica, que virou um lugar comum, poderia facilmente ser usada como um argumento contra a intermediação da tecnologia nas relações.

Para responder a essas críticas, vou passar para a segunda opinião, a que falei no começo do texto. Ela veio de uma conversa da psicanalista Viviane Moisé com as apresentadoras do podcast Mamilos, Juliana Wallauer e Cris Bartis, no episódio "Quem Cuida de Mim?" "Para mim, o virtual é o que temos de melhor, se não fosse o virtual o mundo teria desabado na nossa cabeça.... O mundo não desabou porque nós virtualizamos as relações", disse Viviane. "Aceitem a virtualidade, aprendam que ela tem afeto." Concordo com ela. (Inclusive, escrevi sobre esse tema há exatamente um ano, aqui na coluna.)

Assim como Viviane, acho que está na hora de aceitarmos que não há caminho de volta. Me irrita essa nostalgia fácil que nos faz olhar para trás e enganar nosso próprio cérebro com imagens de um passado perfeito, sem fissuras. Como se, naquele passado, todas as comunicações fossem de muita qualidade, como se as pessoas fossem mais presentes, como se a humanidade fosse mais fraterna e mais humana e as famílias, mais felizes.

Antes, antes do celular e das redes sociais, não era melhor. Era apenas diferente. Era o que tínhamos. Agora, temos outra coisa no lugar. Coisas novas significam mudanças. Mudanças vertiginosas como essas que estamos vivendo significam novos ganhos, mas também novas perdas, novos males e novas doenças. "Não surpreende que a moderna tecnologia, que tem transformado a paisagem sociocultural tão radicalmente, também influencie várias formas de psicopatologias e comportamentos", disseram os psiquiatras Vladan Starcevic e Elias Aboujaoude, cientistas australianos que citei no livro "Hipnotizados, O que os Nossos Filhos Fazem na Internet e o que a Internet Faz com Eles" (Editora Objetiva, 2018). Eles estavam falando sobre as doenças psiquiátrias que surgem para responder às angústias do seu tempo.

Então, se por um lado o excesso de uso vai trazer novos problemas e novas doenças, por outro o uso apropriado pode, de fato, facilitar o contato humano, como defende Viviane Moisé e o personagem do livro de Lori Gottlieb. Em sua jornada neste planeta, o ser humano vem demonstrando uma absurda capacidade de se adaptar a novas condições de vida. Mas algo que não mudou e que continua essencial para nossa sobrevivência é a necessidade do contato com o outro. Esse contato, não vamos perdê-lo. Vamos continuar em busca dele, com as ferramentas que dispuseremos, enquanto estivermos por aqui, não se preocupem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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