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Filhos dão pito nos pais que escorregam no politicamente correto

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Imagem: Unsplash
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

19/09/2020 04h00

Um jovem de 30 e poucos anos, filho de pais de humanas, diz que a cultura politicamente correta é chata. Ele reclama que não tem mais liberdade para chamar os amigos de viado, de japa, de negão, de gordo. Acho surpreendente que um homem com essa idade reclame da linguagem politicamente correta, pois é exatamente sua geração a grande propagadora dessa ideia hoje. Batalhando por uma revisão da nossa linguagem cotidiana, os millenials (nascidos nos anos 80) tentam mudar o agressivo-fofo vocabulário afetivo masculino, por exemplo, motivo da chateação do jovem.

Os millenials aprenderam nas salas de aula e nos almoços em família que palavras têm poder. Deixar de nomear pessoas de jeito pejorativo é o começo de um processo de reflexão sobre preconceito. E tão importante quanto, de reparação para os injustiçados e humilhados.

Como mãe de millenials, bato palmas para os adultos que nossos filhos se tornaram. Sim, este foi o projeto de filho com o qual nossa geração sonhou. Pessoas corretas, atentas aos direitos humanos e das minorias, empáticas. Pessoas que não ofendem ou pré-julgam, que são abertas à diversidade e a novos modelos de convivência.

Por que então, em vez de nos sentirmos orgulhosos diante dos filhos, algumas vezes nos sentimos pequenos e errados? "Mãe, não é assim que se fala. Pai, você está sendo machista." Levamos pito dos filhos porque escorregamos nas falas, somos rudimentares nessa nova língua.

Nem sempre é ruim, afinal criamos filhos questionadores. Tenho aprendido muito, ficado mais atenta aos preconceitos que carrego. Apesar do trabalho que dá, aprender a língua politicamente correta é o mínimo que podemos fazer. A língua reflete nossos valores e já passou da hora de falarmos com responsabilidade na busca de uma sociedade mais inclusiva e respeitosa.

No entanto... muitas vezes, sinto que nossos novos professores parecem estar gostando muito desse papel, a ponto de penderem para uma equivocada tirania do bem.

Com este desabafo, gostaria de chamar a atenção dos millenials para um ponto que costuma ser esquecido. Podemos ser rudimentares na nova língua, mas não somos machistas, racistas, gordofóbicos, homofóbicos. Na verdade, a batalha contra o machismo, o racismo e a homofobia não nasceu com vocês. Muita gente foi às ruas para que, hoje, vocês pudessem gritar livremente contra as injustiças e as vergonhas do mundo.

E nós, bem, nós lemos livros legais para vocês à noite, pagamos escolas construtivistas, investimos na construção do seu senso crítico. Não merecemos ser tratados do mesmo jeito que professoras impacientes tratam alunos com déficit de atenção.

Há pouco tempo, entrevistei uma acadêmica que me ensinou uma palavra nova: idadismo, preconceito contra os mais velhos. Não quero, com isso, requisitar um papel de vítima, pelo contrário. Estou me apropriando de um lugar de pessoa mais velha que, por incrível que pareça, pode saber tanto ou mais do que vocês.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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