PUBLICIDADE

Topo

Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em curso online, Dilma fala de misoginia e lembra "bela, recatada e do lar"

Dilma Rousseff em fórum na Argentina, em 2018 - Martin Acosta - 22.nov.2018/Reuters
Dilma Rousseff em fórum na Argentina, em 2018 Imagem: Martin Acosta - 22.nov.2018/Reuters
Conteúdo exclusivo para assinantes
Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista de Universa

06/08/2021 12h00

"Sem dúvida a ação dessa mídia oligopolista contribuiu para a ruptura com a democracia e a realização de um golpe que esteve ancorado na misoginia. A sintaxe do golpe foi basicamente misógina e nos conduziu a situação desastrosa que o Brasil enfrenta hoje com um governo neoliberal, neofascista, eminentemente antigênero, homofóbico e antidiversidade LGBTI", diz a ex-presidenta Dilma Rousseff, no curso "Misoginia como arma de disciplinamento político", oferecido pela Escuela de Estudios Latinoamericanos y Globales - ELAG, da qual também é presidenta de conselho. A plataforma de cursos tem ainda em seu conselho figuras como Álvaro García Linera, ex-vice-presidente de Bolivia, Elizabeth Gómez Alcorta, ministra de mulheres, gênero e diversidade da Argentina e Celso Amorim, ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores do Brasil.

A convite de Universa, assisti com grande expectativa à primeira aula online ministrada por Dilma (o curso todo tem quatro). Afinal poucas vezes a ex-presidenta falou detalhadamente sobre o aspecto indiscutivelmente misógino (concordemos ou não com decisões e conduções de seu governo) que envolveu o processo que culminaria em seu impeachment há exatos cinco anos.

Acho particularmente impressionante a tentativa de apagamento de sua figura política por parte da mídia e de atores políticos, como se a presidência do Brasil pulasse de Fernando Henrique para Lula e de Lula para Bolsonaro. Não se fala sobre Dilma, sobre golpe, sobre a crueldade dos parlamentares em suas falas pró-impeachment, nos adesivos distribuídos nas ruas e grudados nos carros que colava a cabeça da então presidenta em corpos sexualizados, na celebração de seus torturadores, nas capas de revistas com imagens de uma mulher 'louca, desequilibrada'

Quando entrevistamos a então presidenta para a Pública em 2016, perguntei sobre a misoginia por parte da imprensa para com ela naquele momento, e Dilma respondeu: "Eu acredito que tenha isso, mas a violência não começou agora, a não ser que a gente esqueça o passado. A violência está no fato de que tem uma história sobre mim. Outro dia me perguntaram se eu dormia de sapato. Sabe as histórias que diziam que a gente, na clandestinidade, dormia de sapato, e eram verdade? A gente dormia de sapato para fugir. Eu sou presidenta da República, como é que vou dormir de sapatos? Para fugir? Você entende? Tem estereótipo atrás de estereótipo."

Quando insisti bastante em perguntar sua posição pessoal sobre a descriminalização do aborto, se seus acordos com líderes religiosos tinham valido a pena, ela se adiantou e me disse: "Você quer saber se eu sou feminista? Me pergunte quando eu não for mais presidenta". Ver portanto seu nome em um curso sobre misoginia como arma de disciplinamento político me pareceu em si uma declaração extremamente importante.

Dilma, no entanto, mantém no curso sua fala bastante afastada de declarações pessoais. Inicia com a IV Conferência Mundial sobre a Mulher, Conferência de Pequim, ocorrida em 1995, passa por noções de gênero, empoderamento, diversidade e colonização. Mesmo quando fala sobre a misoginia direcionada a ela durante seus governos, traz esses elementos a partir de estudos e pesquisas, como a tese da professora de estudos linguísticos Perla Haydee da Silva, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), que analisou cerca de 3.000 comentários direcionados à presidenta na página do Movimento Brasil Livre (MBL) no Facebook. "Louca, burra, prostituta e nojenta, vai pra casa, vai lavar roupa", cita Dilma sobre os comentários, porém a partir da tese.

A ex-presidenta lembra também logo no início da aula, sobre a reportagem feita pela revista "Veja" com a esposa de Michel Temer, Marcela, com o título que viraria meme, série, música, marchinha de Carnaval e tema para diversos estudos: "Bela, recatada e do lar". "A reportagem não poupa elogios ao que considera uma mulher 'perfeita'. E qual é a mulher perfeita? É silenciosa, bonita, vaidosa e se restringe a ser dona de casa. É para ser um contraponto a mulher que ousa ocupar a presidência. Mas se torna uma espécie de sincericídio misógino", diz Dilma.

Ela fala ainda sobre marcos conquistados nos governos do PT (como por exemplo a importantíssima e avançada Lei Maria da Penha, sancionada no Governo Lula e que faz 15 anos hoje e a lei do Feminicídio, sancionada por Dilma em 2015, que transforma a morte de mulheres por questões de gênero em crime hediondo) e em mais um dos raros momentos em que se coloca pessoalmente, diz: "Desde a minha primeira campanha em 2010 um argumento de que eu não seria uma pessoa política apesar de ter passado três anos de prisão sob a Ditadura Militar e ter uma presença ao longo de 25 anos na política institucional era algo estarrecedor. Eu não era política. Eu era rotulada de 'gerentona', a presidenta que não tinha tido nenhum cargo parlamentar e por isso não era política. Eu fui desacreditada sistematicamente pela mídia durante meu governo".

Confesso que gostaria de ter ouvido mais de Dilma a partir de sua vivência e grande experiência política e espero um dia ainda poder ouvir. Pretendo também falar mais vezes aqui na coluna sobre a condução misógina de seu processo de impeachment, assim como as tentativas posteriores de apagamento histórico da figura da única presidenta mulher que já tivemos

O impeachment de Dilma é emblemático do machismo estrutural brasileiro e é urgente que falemos e lidemos com isso ao invés de fingir - como sempre - que nunca existiu, sob o risco de não termos outra mulher na presidência ou de repetir esse processo trágico que nos trouxe até aqui. Porque a história pode até acontecer a primeira vez como tragédia, mas a segunda acontece como farsa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL