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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro odeia as mulheres que não pode subjugar ou silenciar

Bolsonaro durante coletiva de imprensa, em Guaratinguetá, no qual foi agressivo com uma jornalista - Reprodução/TV Band Vale
Bolsonaro durante coletiva de imprensa, em Guaratinguetá, no qual foi agressivo com uma jornalista Imagem: Reprodução/TV Band Vale
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Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista de Universa

22/06/2021 04h00

Jair Bolsonaro fez mais uma de suas investidas violentas contra a imprensa na última segunda-feira (21). Arrancou a máscara, esbravejou, defendeu o uso de medicamentos sem eficácia comprovada para a covid-19, soltou a esmo as palavras "família" e "religião" como senhas para legitimar seus disparates e mandou aos berros a repórter Laurene Santos, da TV Vanguarda, "calar a boca".

Em sua primeira declaração pública após o marco de 500 mil mortes pelo coronavírus, atingido pelo Brasil neste fim de semana,o presidente se mostrou ainda mais descontrolado. Visivelmente acuado pela crescente impopularidade de seu governo, expressa nas ruas neste sábado (19), com manifestações em todo o país, aumentou novamente o tom.

Há muito tempo, entendi que Bolsonaro é um homem que odeia mulheres. Se pudesse, eliminaria todas que não pode subjugar. Desde quando ainda era apenas um deputado de segundo escalão e falou na tribuna da Câmara que não estupraria a colega Maria do Rosário porque 'ela não merecia' - declaração que rendeu a ele condenação na Justiça por danos morais - ou quando disse que 'fraquejou' e teve uma filha mulher

Outro momento foi quando votou pelo impeachment de Dilma Rousseff homenageando um reconhecido torturador e fazendo alusão às torturas sofridas pela ex-presidente durante a ditadura militar. "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff" e depois ainda cobrou que ela apresentasse um raio-x para provar que realmente sofreu tortura e teve o maxilar quebrado.

Ou quando reclamou dos direitos trabalhistas e da licença-maternidade dizendo que era mais vantajoso contratar homens. Quando se coloca contra os direitos reprodutivos das mulheres mesmo em caso de estupro, risco de vida para a mulher ou anencefalia do feto (casos em que o aborto é permitido por lei hoje no Brasil) e quer a todo custo proibir que se discuta misoginia e homofobia nas escolas. Quando ataca mulheres jornalistas como fez nesta segunda-feira e faz desde o início de seu governo.

Me lembro que em 2018, quando Bolsonaro avançava nas pesquisas rumo à presidência, conversei com muitas mulheres que diziam se sentir pessoalmente ameaçadas. A fala de uma professora universitária me marcou em particular: 'Vão eleger um presidente que me odeia, que quer me matar'. É exatamente assim que me sinto agora como mulher, jornalista e feminista

Sob o governo de um homem que quer me matar. E isso não é pouca coisa, sobretudo em um país cujo índice de mortes violentas de mulheres segue aumentando e que há muitos anos ocupa lugar entre os países com maior índice de feminicídios no mundo.

O presidente da República odeia as mulheres. Sobretudo as que não pode subjugar ou silenciar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL