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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Transformamos indignação em ação para punir Cury por assédio a Isa Penna

A deputada estadual Isa Penna (PSOL-SP) - Divulgação
A deputada estadual Isa Penna (PSOL-SP) Imagem: Divulgação
Maisa Diniz

Maisa Diniz

Maisa Diniz é administradora especialista em estratégia. Cofundadora do Vote Nelas e fez parte da organização da campanha Por Uma Punição Exemplar

Colaboração para Universa

03/04/2021 13h46

Em 2018 eu e mais dez mulheres incríveis criamos o Vote Nelas, uma organização social que nasceu de forma despretensiosa, mas com ideias muito consistentes, feminina e feminista por mais mulheres na política. "O Afeganistão tem mais mulheres na política que o Brasil". Esse era o dado e fato que nos fazia pensar e agir para que elegêssemos mais mulheres naquelas eleições.

E apesar do tenebroso resultado que elegeu Jair Bolsonaro (sem partido) presidente, também tivemos um aumento de 50% de mulheres eleitas deputadas. Um lindo motivo para comemorar. Celebramos também o êxito de Marina Helou (Rede Sustentabilidade-SP) como deputada estadual por São Paulo, uma de nossas cofundadoras.

A partir daí nos conectamos com outras organizações por mais mulheres na política. O Elas no Poder, oficialmente crush; Instituto Update, uma inspiração, e o Vamos Juntas na Política, grandes aliadas.

Eu, pessoalmente, tinha certeza de que mais mulheres no poder fariam do Brasil um país mais seguro para todas nós. Porém, eu estava errada.

Vi a violência contra uma mulher ser praticada dentro da maior Assembleia Legislativa do país e como vítima, uma deputada democraticamente eleita. Na madrugada de 16 de dezembro de 2020 o deputado Fernando Cury (Cidadania) encoxou e apalpou o seio da deputada Isa Penna (PSOL) no plenário da casa legislativa. Tudo isso televisionado em pleno 2020, em plena pandemia. Um escárnio.

Ato que cabe a Lei 13.718/18 de importunação sexual: praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro. Pena de reclusão de um a cinco anos de prisão.

O caso se arrastou e o Conselho de Ética da Alesp, formado majoritariamente por homens, apurou os fatos, ouviu advogados e testemunhas. Por fim, o deputado santista Wellington Moura (Republicanos-SP), eleito com votos da região sul da capital, principalmente Piraporinha e Parelheiros, foi o autor e articulador da proposta aprovada por 5 votos a 4 que transformou o que era para ser uma punição em uma licença. Basicamente, Fernando Cury seria afastado por 119 dias enquanto seu gabinete continuaria trabalhando intacto, normalmente. Praticamente férias remuneradas.

O meu erro foi acreditar que quando uma mulher ocupa um espaço de poder na política, será esse mesmo poder que irá protegê-la física e emocionalmente. Mas isso não é verdade.

O deputado estadual Fernando Cury (Cidadania -SP) - Arquivo Agência Alesp - Arquivo Agência Alesp
O deputado estadual Fernando Cury (Cidadania -SP)
Imagem: Arquivo Agência Alesp

Ao longo desses anos de trabalho ouvimos relatos de mulheres de todos os espectros políticos, do PSOL ao PSL, e foi com elas que aprendi que a política é um lugar constante e rotineiramente violento. Nenhuma mulher está segura, precisamos estar atentas e vigilantes, cuidando para que elas se mantenham fortes para suportar nos representar nesse espaço.

A política é um lugar tóxico e insalubre, o machismo e a violência contra mulheres é o modus operandi do sistema político brasileiro.

No vídeo é possível ver que o deputado Fernando Cury, antes de praticar o crime de importunação sexual estava conversando com o deputado Alex de Madureira (PSD-SP), um político conservador de Piracicaba (SP), pastor da Assembleia de Deus, eleito com votos principalmente da região de Cidade Tiradentes em São Paulo. Eles cochichavam e riam, logo depois Alex tenta segurar Fernando Cury, mas não consegue. E ele assiste passivamente o crime ser praticado. Alex de Madureira não falou sobre o que conversaram antes do crime. E nós nunca saberemos.

Mas vendo e revendo a cena eu pergunto, quantos homens que lerão esse artigo que escrevo já foram Cury ou foram Alex? Tenho certeza que muitos. Afinal, segundo a pesquisa do Think Olga, 97% das mulheres brasileiras declaram que já foram vítimas de importunação sexual. E como bem disse Gloria Kalil, nesse caso, todas nós somos Isa Penna.

Estamos diante uma oportunidade de revermos quais comportamentos sociais são ou não são mais aceitáveis. Precisamos repensar a forma como homens, beijam, abraçam e encostam nas mulheres seja no trabalho, no transporte público e ou em qualquer outra. Minha sugestão é pensar, e se fosse o contrário?

E se um homem tivesse esses mesmos comportamentos sociais com outro homem no trabalho, no metrô, na rua... Como seria? Homens se preocupam tanto em ser carinhosos com outros homens assim como dizem fazer com mulheres? E, afinal, estamos mesmo falando de carinho?

O que vimos foram posturas canalhas de Fernando Cury alegando que aquele foi um ato de gentileza. Encostar os órgãos genitais em uma pessoa por trás, sem consentimento, é crime e não carinho. Também tiveram as inesquecíveis ideias de Wellington Moura que, em suas redes adora se colocar como defensor das mulheres, mas declarou: "Fernando Cury é um homem de família, um homem de uma mulher só".

Quase numa tentativa de nos teletransportar para a década de 30. Afinal, não é o casamento que impede homens de cometerem crimes, a fidelidade então, muito menos. Ou alguém acha que as prisões brasileiras estariam lotadas de pessoas solteiras e poligâmicas?

E com todo esse contexto, no Dia Internacional da Mulher lançamos a campanha "Por Uma Punição Exemplar", com um site de pressão e anúncios no jornal. Beatriz Bracher, escritora e uma das fundadoras da campanha, escreveu em carta enviada aos 94 deputados da Alesp: "Estamos cansadas de perder".

E estamos mesmo, nesses últimos 24 dias nossas derrotas viraram indignação e raiva. Sentimentos que se transformaram em estratégia, mobilização e ação. Minto, ações. Muitas ações, e em diferentes frentes de trabalho, com especialistas incríveis, de forma coletiva e colaborativa atuamos para pressionar e expor todas as pessoas que poderiam influenciar a tomada de decisão para cancelar as férias de Fernando Cury proposta por Wellington Moura.

Redes sociais, intelectuais, artistas, jornalistas, ativistas, homens e mulheres unidos para o resgate de um pacto civilizatório. Foram mais de 3 milhões de e-mails enviados, 40 mil pessoas mobilizadas, mais de 12 organizações aliadas, projeções feitas em 3 regiões da capital simultaneamente e 20 deputadas e deputados declarando apoio à campanha.

Assim, 1º de abril de 2021 ficará para sempre marcado. Foi neste dia em que, pela primeira vez na história do Brasil, um político eleito foi efetivamente punido por praticar violência contra a mulher.

Uma votação consagrada com unanimidade, 86 dos 94 deputados da Alesp disseram sim para que o deputado Fernando Cury perdesse seu mandato por seis meses. E nenhum teve a coragem de dizer não a essa pena, nem mesmo Alex de Madureira. Nem mesmo Wellington Moura.

Termino esse artigo transbordando gratidão por aquele grupo inicial de seis pessoas que passaram um final de semana incansavelmente trabalhando para que a tudo isso viesse a tona. Esta Páscoa vem com um sopro de esperança em tempos tão sombrios. Como ativista permaneço fiel ao meu compromisso com a utopia, para que todas as mulheres se reconheçam como uma força política.

* Maisa Diniz é administradora especialista em estratégia. Cofundadora do Vote Nelas e fez parte da organização da campanha Por Uma Punição Exemplar