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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

(Mal)trate o ficante: existe protocolo de segurança no amor?

Getty Images
Imagem: Getty Images
Natália Zuccala

Natália Zuccala

Natália Zuccala é psicanalista, escritora e autora do livro "Todo Mundo Quer Ver o Morto" (Ed. Patuá).

Colaboração para Universa

07/03/2021 04h00

Na última semana, o Twitter foi invadido por mais uma frase de efeito com ares de mandatória, que pretendeu aconselhar o brasileiro em seu comportamento amoroso: "trate ficante como ficante". A discussão, que virou assunto de reportagem aqui em Universa, indica que não se deve tratar bem demais pessoas com quem a gente não tem um "relacionamento sério". O tal do "ficante".

Confesso que achei que em 2021 - em meio a crushes e matches - essa palavra já teria caído por terra, mas parece que não. "Ficar" ainda está na moda. Em tempos nos quais os protocolos de segurança salvam vidas, há quem acredite que pode evitar um coração partido da mesma maneira.

A primeira coisa que me salta aos olhos nessa história toda é uma estrutura um tanto controladora na boca de quem defende esses protocolos de segurança no amor. Em primeiro lugar, porque parece muito evidente a diferença entre um relacionamento sério e outro que não é. Tá certo que existe um momento em que os casais combinam: "estamos namorando", ou trocam alianças para se comprometerem, casam.

No entanto, a gente sabe muito bem que tudo é muito mais fluido do que isso. Os nomes e as classificações servem para nos acalmar, para nos dar a ilusão de que controlamos a maneira como aquela pessoa está conosco, em alguns casos, que ela é fiel a nós, mas de fato, são apenas virtualidades. Ninguém pode ter certeza sobre o quão comprometido o outro está ou não num relacionamento.

Uma outra face do controle evidente no tal 'trate ficante como ficante' é a ilusão de que é possível não se machucar nas relações amorosas. Bem, quanto a isso, realmente sinto muito: relacionar-se dói. Exige que a gente pense no outro, faça concessões, confronte a si mesmo e a seus defeitos. Qualquer relação, por mais fluida que seja, exige comprometimento, nem que seja com o próprio prazer.

Além disso, o apaixonamento em si é um estado de descontrole, ou por acaso a gente escolhe ficar pensando o dia inteiro naquela pessoa? Não. A paixão pode chegar a ser um estado febril, contra o qual há pouquíssimos remédios e, pior, é muito difícil evitar a contaminação.

Diante desse estado de enamoramento contagioso, é claro que é bom ter certo discernimento. Quem mergulha sem saber nadar, pode acabar se afogando mesmo. A questão é que o afogamento daqueles que se entregam no amor não é exatamente no outro, sinto lhes informar, mas no líquido amniótico da própria paixão. Sim, os apaixonados não estão vidrados no sujeito por quem se apaixonam, mas no estado em que se encontram.

Se por acaso conseguem dar uma subida na superfície para respirar, normalmente compreendem que aquela pessoa não é tão perfeita assim, e ninguém é. A gente se apaixona pela ideia que fizemos daquela pessoa, não por ela mesma, completa, complexa, inteira, com seus defeitos e vazios.

Então, se você não está afim de se entregar para esse estado profundo, ou pretende ter mais cautela no seu mergulho, a única saída é procurar de verdade encarar com quem você está se relacionando. De forma geral, e a não ser que se trate de alguém canalha, as pessoas dão sinais do que elas querem. É possível ler se estão ou não confortáveis com a maneira como demonstramos afeto e cuidado.

Quando não for possível ler, sempre é possível perguntar, não é mesmo? Conversar, sondar, dialogar. E se eu estiver me relacionando com alguém que está me enganando? Isso é sempre possível, o outro sempre pode mentir, fingir, enganar. Existe uma chance de você perceber isso, se não estiver tão comprometido assim com a paixão, porque ela também nos engana. Mas existe de fato uma chance de você não perceber que está sendo enganado, todos nós podemos acabar sendo iludidos por alguém uma vez ou outra, é verdade. E aí, então, não existe tratamento precoce, não é?

Viver é perigoso, é arriscado, não tem protocolo de segurança que nos impeça completamente de sentir dor, de ter raiva, de se arrepender. No final das contas, esse tal de 'trate ficante como ficante' parece uma tentativa de indiferença como forma de defesa contra as agruras da vida.

O problema é que não tem como excluir só a parte ruim das coisas. Se eu sempre estiver buscando me defender da dor, é provável que eu também acabe me defendendo do amor, porque normalmente ele cresce e surge onde é possível haver algum tipo de entrega e partilha. Será que não existem protocolos de segurança mais importantes do que esses pra gente se concentrar no momento?