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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Dani Calabresa: é preciso coragem para assumir-se como vítima de assédio

Dani Calabresa participa do Saia Justa - Vídeo/Reprodução
Dani Calabresa participa do Saia Justa Imagem: Vídeo/Reprodução
Natália Zuccala

Natália Zuccala

Natália Zuccala é pós-graduanda no curso "Psicanálise", do Instituto Sedes Sapientae, onde está em formação como psicanalista; também é autora do livro "Todo Mundo Quer Ver o Morto" (Ed. Patuá), do projeto de contos "Agora estou aqui" e professora de Língua Portuguesa em São Paulo.

Colaboração para Universa

04/03/2021 13h28

Em entrevista ao programa "Saia Justa", do canal GNT, Dani Calabresa falou sobre o caso de assédio vivido por ela e protagonizado pelo humorista Marcius Melhem. Ela demorou quase 3 anos para conseguir falar publicamente sobre o que ocorreu, segundo matéria da revista Piauí publicada em dezembro de 2020.

O que a fez levar tanto tempo para assumir que estava sendo assediada? Muitas mulheres passam pela mesma situação e precisam de anos para dar-se conta de que aquela "brincadeira sem graça", aquela mão boba, aquele constrangimento não foi apenas um acidente. Mas por que isso acontece?

A verdade é que é preciso ter muita coragem para assumir-se vítima. Em primeiro lugar porque nós, mulheres independentes do século 21, lutamos todos os dias para nos provarmos pessoas fortes, competentes, merecedoras do lugar de prestígio que ocupamos na sociedade e para reafirmarmos que não somos "sexo frágil" coisa nenhuma.

Nesse contexto, quando somos oprimidas, violentadas, constrangidas, fica muito difícil encarar a verdade, porque nos sentimos enfraquecidas, como se, ao nos percebermos vítimas de uma situação, nos tornássemos mais fracas. Isso quando não tem alguém para fazer o desfavor de minimizar nosso sofrimento e dizer que tudo não passa de "mimimi".

Nesses contextos, muitas vezes escondemos de nós mesmas a gravidade do ocorrido, recalcamos esse conteúdo tão incômodo da consciência e levamos bastante tempo para trazê-lo de volta.

Encarar que fomos assediadas significa dar de frente com a nossa impotência perante à violência do machismo e isso dói. Às vezes até jogamos com a situação, fingimos estar no controle e subestimamos a potência destruidora da opressão, mas não adianta, cedo ou tarde a conta chega e então é pior ainda.

É importante compreender que qualquer mulher, por mais forte que seja, pode ser vítima de violência numa sociedade como a nossa e isso não a torna menor! Por que não questionamos, pelo contrário, a fraqueza dos nossos assediadores? São eles que precisam submeter o outro aos seus desejos, eles que precisam violentar e constranger para poderem obter prazer. Por acaso isso é força? Dominação? Fortes são as mulheres que conseguem encarar uma situação como essa e confrontar seus assediadores.

Há outro elemento que entra nessa conta e torna tudo mais difícil: quando nossos algozes são pessoas próximas, amigos, parentes, ou mesmo maridos. O fato de ser alguém que admiramos faz com que tenhamos de mudar a forma como enxergamos essa pessoa e nem sempre estamos preparadas para isso. Ainda mais quando idealizamos esse alguém, vamos ter que tirar essa figura incrível do pedestal, ver sua face desconhecida e destruidora.

E se nosso assediador for uma figura de poder, por exemplo, como um chefe? Aí podemos acabar nos dando muito mal. A profissão para a mulher moderna é normalmente uma fonte de prazer e realização, então não queremos prejudicá-la.

Dani disse na entrevista que o trabalho a salvou, mas, ao mesmo tempo: "por causa do trabalho eu não reagi antes. Tinha tanto medo de sofrer algum boicote, ser prejudicada, que não reagi antes".

Vejam como esse mecanismo é perverso. As mulheres precisam constantemente provar que não conseguem as coisas por conta de seus corpos: é comum sermos acusadas de seduzir os outros para termos o que queremos, seja no "teste do sofá", ou usando um vestido mais decotado. As nossas ações são constantemente sexualizadas, mesmo se não tivermos essa intenção.

No entanto, quando conseguimos as coisas por conta da nossa competência, como no caso da humorista, vem alguém e coloca a sexualidade na roda de novo! É quase como se a nossa condição feminina sempre estivesse associada à sedução e essa característica nunca pudesse sair de cena nas relações: se conseguimos algo, foi porque seduzimos alguém, se perdemos tudo, foi pela mesma razão. Isso fica ainda mais evidente num campo majoritariamente masculino, como o humor.

Quando pessoas públicas têm a coragem necessária para se colocar, como a Dani fez, estão prestando um serviço imensurável para todas as mulheres - porque nos ajudam a enxergar os mecanismos que nos oprimem silenciosamente - mas também para os homens, que finalmente têm motivos para rever sua relação com a própria sexualidade.