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OPINIÃO

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BBB reforça lógica punitivista e põe Karol Conká para pensar no cantinho

Karol Conká é eliminada do BBB21 - Reprodução / Internet
Karol Conká é eliminada do BBB21 Imagem: Reprodução / Internet
Natália Zuccala

Natália Zuccala

* Natália Zuccala é pós-graduanda no curso "Psicanálise", do Instituto Sedes Sapientae, onde está em formação como psicanalista; também é autora do livro "Todo Mundo Quer Ver o Morto" (Ed. Patuá), do projeto de contos "Agora estou aqui" e professora de Língua Portuguesa em São Paulo.

Colaboração para Universa

25/02/2021 04h00

Após protagonizar polêmicas no Big Brother Brasil, a rapper Karol Conká deixou o reality com o maior índice de rejeição já visto na história do programa (99,17%). Ela caiu nas "desgraças" da audiência depois de interações agressivas (talvez abusivas) com outros participantes, como Lucas Penteado.

Nas redes sociais e mesmo na TV, quem não se declara a favor do cancelamento de Karol, defende que ela precisa de terapia. Mas como assim precisa? Quem precisa de terapia? Para que alguém faz terapia? É possível mandar alguém pro divã? E o que a saúde mental de Karol tem a ver com a gente?

Dentre os objetivos principais de um terapeuta, nas mais diversas vertentes da psicoterapia, está a busca pela diminuição do sofrimento do paciente, mesmo que a longo prazo. Então, fazer terapia não pode partir de uma ordem de outro, mas apenas de uma demanda própria.

Qual o sentido de mandarmos alguém para o tratamento, se não sabemos o que essa pessoa está pensando, se não estamos em sua pele? Não podemos dizer pra Karol: vá lá pro divã sofrer menos! A menos que essa não seja a nossa real intenção e aí a história muda, e muito. O que está escondido por trás deste requerimento por terapia?

Com certeza há uma parcela do público preocupada com a saúde mental da cantora, que enxergue o prejuízo psíquico da superexposição no BBB, que percebe que o programa instiga o confronto entre os participantes, que entende que aquela casa pode deixar qualquer um fora da casinha. Quem pensa dessa forma no máximo oferece ajuda, mas não tem o poder de deliberar sobre a saúde do outro.

Por trás dessa convocação à terapia parece haver uma lógica punitivista, que nos assombra como um sintoma dos tempos e do Brasil, 3° país que mais encarcera no mundo. Acreditamos que as pessoas devem pagar com a adequação de seus corpos pelas suas atitudes incômodas, ainda mais quando esses corpos são femininos e negros. Sendo assim, estamos mandando Karol fazer terapia para que ela sofra menos ou para que nos incomode menos? Queremos que ela possa ser mais feliz ou que se adeque aos nossos padrões de comportamento?

É claro que ela precisa lidar com as consequências de seus atos, mas não é papel da terapia fazer isso, muito menos na esfera pública. Terapia é assunto privado, ninguém pode te dizer sobre a sua necessidade de estar lá. Se abrir para um outro, refletir sobre a própria vida, não é tarefa fácil. Nesse processo damos de cara com nossos medos, visitamos o passado.

Cuidar da saúde mental é um ato de coragem, acima de tudo, e não uma busca por reabilitação. Muito menos uma procura por incomodar menos, por agradar mais, por adequar-se a um padrão de comportamento.

A terapia não pode ser ordenada como corretivo, como quem manda para o cárcere, para a sala da diretoria, ou para o cantinho pensar. Talvez o que esteja por trás dessa fala mandatória seja uma necessidade de satisfazer sadicamente o nosso desejo de castigar Karol, de fazer com ela o que ela fez com Lucas Penteado. Vigiamos o seu comportamento e agora queremos punir?

A distopia cada vez mais evidente do BBB parece estar caminhando perversamente da lógica vigilante do livro "1984", de George Orwell, para o punitivismo reabilitador de "Laranja Mecânica", de Anthony Burgess —e nós também. Diante disso, o mínimo que a psicoterapia pode fazer é não reafirmar essas lógicas. Estamos de olho!

* Natália Zuccala é pós-graduanda no curso "Psicanálise", do Instituto Sedes Sapientae, onde está em formação como psicanalista; também é autora do livro "Todo Mundo Quer Ver o Morto" (Ed. Patuá), do projeto de contos "Agora estou aqui" e professora de Língua Portuguesa em São Paulo.