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Mulher Sem Vergonha

Minha responsabilidade é com meu público. A do presidente é com todo o país

A atriz Maria Flor responde às críticas e ofensas que recebeu depois de vídeo em que ataca verbalmente o presidente Jair Bolsonaro - Reprodução/Instagram
A atriz Maria Flor responde às críticas e ofensas que recebeu depois de vídeo em que ataca verbalmente o presidente Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução/Instagram
Maria Flor

Maria Flor

Maria Flor é atriz, 36, estreou em 2003 na novela "Malhação". Estará na próximo novela das 9, "Lugar ao Sol", exibida pela rede Globo.

Colaboração para o Uiniversa

12/04/2020 17h36

No dia 30 de março postei um vídeo no meu canal do Youtube, Flor e Manu. O canal é feito por mim e meu marido, Emanuel Aragão. Falamos sobre amor, casamento e relacionamento em geral, de forma espontânea e amorosa. Mas neste momento de quarentena resolvemos fazer vídeos diários que acabaram extrapolando os temas e entrando em outros assuntos. Foi o caso do vídeo "Pare de fugir de você mesmo".

No vídeo, acabei fazendo uma piada/cena agressiva e disse: "Eu só queria esfregar a cara do Bolsonaro no asfalto quente, até ele ficar com a cara toda esfolada e a pele dele sair e eu arrancar com a mão, com o dente, pegar aquele olho dele enfiar os dois dedos, assim".

Não foi a minha intenção ameaçar realmente o presidente, era mais uma vontade de catarse dividida com meus seguidores, uma raiva compartilhada. Concordo que foi uma imagem bastante pesada. Eu estava abismada com as últimas declarações do presidente em rede nacional. Não preciso lembrar que ele disse que a pandemia era uma gripezinha, que deveríamos voltar à normalidade e que a economia não poderia parar. Na véspera do vídeo, ele havia ido conversar com comerciantes e futuros eleitores nas ruas de Brasília, sempre em campanha.

Visto por mais de 95 mil pessoas - temos um pouco mais de 100 mil inscritos no canal - e com 5 mil likes e 3.9 mil deslikes, o vídeo parece uma pesquisa do Datafolha. Metade concorda e metade discorda. Mas o fato é que tivemos muitas visitas de figuras que desconheciam a existência do canal e foram levadas até ele por um trending topics do Twitter. Aí você imagina o conteúdo dos 2 mil comentários...

Foi uma enxurrada de ataques misóginos, machistas, preconceituosos e maldosos tanto na minha rede no Instagram quanto no canal no Youtube. Mas um comentário, que aparecia com frequência, chamava a nossa atenção: "Vocês são hipócritas, são dois pesos e duas medidas. Imagina se fosse o presidente fazendo essa piada? "

Tive muita vontade de responder a esse comentário e me segurei. Achei que não adiantaria, que a distância entre esses dois polos já é tão incalculável que não tem mais como encontrar uma língua possível que possa servir aos dois, que possa fazer eles se aproximarem e o diálogo acontecer.

Desisti. Mas os comentários voltaram: "E se fosse o presidente fazendo essa piada? "

Quando a gente faz uma piada tem duas coisas que a gente precisa pensar. A primeira é o objeto da piada ou da cena, a quem essa piada se dirige, a quem ela se refere. A segunda coisa é o sujeito que faz a piada, que lugar essa pessoa ocupa na sociedade, e qual a responsabilidade desse sujeito no mundo. Se o objeto da piada é uma pessoa ou um grupo vulnerável, inferiorizado, criminalizado e descriminado, só se está reafirmando e confirmando que esse grupo é "inferior", ou pior, ou ainda, menos importante e passível de agressão ou ridicularização.

Se o objeto da piada é uma pessoa ou um grupo que detém o poder e não será ameaçado pelo conteúdo da piada, o objetivo da piada ou da cena é desconstruir esse objeto, criticá-lo, denuncia-lo, discordando dele e questionando as atitudes deste grupo ou desta pessoa.
Como quando um humorista, por exemplo, faz graça com os poderosos.

O mesmo precisamos pensar sobre o sujeito da piada. Quem é essa pessoa que faz a piada? Que lugar ela ocupa e qual a responsabilidade dela?

Quando eu faço uma piada, ou cena, ou vídeos no YouTube, eu sou uma atriz e youtuber. A minha responsabilidade é com o meu público, com a cena, com meus seguidores. Essa é uma grande responsabilidade para mim, e tento fazer o melhor que posso. Às vezes eu erro é claro, como todos nós.

Já o lugar que um Presidente da República ocupa é muito diferente. A responsabilidade dele em relação as piadas que ele faz é bem maior. Envolve a vida das pessoas, envolve dinheiro público, envolve um país inteiro.

Ou seja, eu posso fazer piada com o maior cargo do poder executivo brasileiro. Eu não estou numa posição superior de poder em relação ao presidente.

Mas o presidente não pode fazer as piadas que fez e continua fazendo. Piadas com gays, no país que mais mata LGBTs no mundo. Piadas com mulheres, que ele não estupra porque são feias, num país onde cresce o número de feminicídios ano após ano. Piadas com negros num país estruturalmente racista, que mata negros todos os dias.

O Presidente não entendeu que na função dele, no cargo que ele ocupa, ele não pode fazer piada com ninguém. Talvez ele possa fazer piada com homens brancos, heterossexuais, ricos, donos de bancos e meios de produção. Mas ele não acharia engraçado, não é?

Mas, mais grave do que isso, são seus seguidores e apoiadores não entenderam que a função e a responsabilidade de um presidente não é fazer piada, é proteger, gerir, acalmar, cuidar, amparar e dar união aquela sociedade, principalmente em momentos de crise.

Seus apoiadores não perceberam que não deveríamos poder imaginar "se fosse o presidente fazendo essa piada", porque não cabe à função dele a comédia ou a piada. Seus apoiadores não perceberam que sim, são dois pesos e duas medidas.

O peso de ser presidente e a medida dessa responsabilidade impossibilitam que ele diga as coisas que diz. Mas ele diz, e tem gente que aplaude. E tem gente que fica pessoalmente ofendida se você critica o paizão de rider e blusa da seleção no planalto.

É grave, meus amigos, é muito grave.

Lembro de uma piada, específica, muito ruim inclusive, só que mais leve, mais bem-humorada e menos rancorosa e recalcada, que ele fez com os jornalistas. Esta profissão que anda sendo atacada e esculhambada a torto e a direita pelo poder executivo. O dia em que o presidente chamou um palhaço para falar sobre o PIB brasileiro numa coletiva em frente ao Planalto. Ele pedia para o sósia, vestido como ele e com faixa de presidente da república, perguntar o que era o PIB. Como se fosse engraçado o presidente não saber o que é o PIB do país que ele mesmo governa.

Na cena, ele olha para o "palhaço" ao lado dele e manda ele repetir, como um ventríloquo: "o que é o PIB? Repete? O que é o PIB?". Num delírio narcísico, ele olha para a própria imagem Bolsonaro-palhaço, com riso de gozo nos lábios, fascinado com a possibilidade de fazer todos nós de bobos. Apoiadores ou não.

Uns dizem amém e outros xingam e esbravejam nas redes, como eu.

A pergunta que fica é se de fato o presidente consegue se diferenciar do palhaço. E, principalmente, se nós brasileiros, tão castigados com o nosso delicado passado político, conseguimos entender que não precisamos de um palhaço como chefe do executivo e sim de um presidente.

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