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Mulher Sem Vergonha

É hora de mostrarmos que somos todos reais e imperfeitos

A influencer digital Dora Figueiredo nos estudios MOV - Leo Martins/UOL
A influencer digital Dora Figueiredo nos estudios MOV Imagem: Leo Martins/UOL
Dora Figueiredo

Falo sobre empoderamento, sexualidade e amor próprio de uma forma diferente, deixando de lado os preconceitos e sempre tratando assuntos muitas vezes considerados pesados de uma forma leve, assim como se estivesse falando de bolo de chocolate.

Colaboração para UNIVERSA

17/10/2019 04h00

Pergunte para uma criança o que ela quer ser quando crescer. São altas as chances de ouvir que o desejo dela é crescer como youtuber. Aquelas carreiras de tempos atrás, como astronauta ou artista de TV já não parecem tão apelativas assim. Hoje, para se atingir a fama, não é mais preciso estar na novela: ela pode ser alcançada e ultrapassada com uma ideia na cabeça e um celular conectado à internet.

Fiz teatro dos 8 aos 18 anos, sempre quis ser atriz, modelo, dançarina, sempre olhei para a televisão querendo estar ali. Tudo mudou quando eu decidi que queria estudar medicina. Virei vestibulanda e parei com as artes para focar no que eu achava que era o sonho da minha vida.

Acontece que passar em medicina em uma faculdade pública, por mais privilegiada que eu fosse, não é nada fácil, sabemos. Depois de 3 anos de tentativas frustradas, decidi tentar nutrição, mesmo nunca tendo desejado a carreira. Passei. Mas, nos anos seguintes, a incerteza sobre a futura profissão foi um dos elementos que me levaram à depressão.

As duas únicas certezas da minha vida estavam comprometidas: um relacionamento de 7 anos prestes a acabar e a faculdade de medicina que eu não estava cursando. Foi quando criei um canal no YouTube para expor minhas angústias e alcancei a fama que eu projetava quando criança.

Mas só criei o canal quando achei que tinha maturidade emocional suficiente pra ser xingada por estranhos sem me abalar tanto.

Hoje, quatro anos depois, eu sou independente financeiramente, sou reconhecida nas ruas e vejo as pessoas comentarem tudo o que eu faço. Nunca imaginei que teria a coragem de expor a minha vida de uma maneira que eu nunca tinha visto alguém fazer.

O fato de ter milhões de pessoas te observando muda a forma com que você vive a sua vida, pelo menos a sua vida online. Um post seu pode impactar negativamente alguém e até gerar uma onda de ódio tão grande que te fará passar meses com pavor de opinar.

Não é fácil ter que ser interessante o suficiente para atrair seguidores para seu conteúdo e ao mesmo tempo ser vulnerável na medida certa para gerar identificação sem se sentir invadida por pessoas que você não conhece.

Às vezes, no fim do mês você olha para seu feed e não reconhece a própria vida, olha para foto e não se vê, sua vida vira uma versão editada e com filtro. Isso é um potencial gatilho para a depressão.

Enquanto estava na minha festa de comemoração de 1 milhão de inscritos no canal, vivia um dos momentos mais difíceis da minha vida. Só que eu não falava sobre isso, não tinha condições de entender tudo que estava acontecendo, muito menos de dividir com esse um milhão de pessoas.

Só quem é observada por milhares de pessoas sabe o que é a cobrança por ser você mesma quando nem você se reconhece.

Eu perdi meu emprego home office e me afundei em dívidas no ano passado porque simplesmente não conseguia trabalhar. Era depressão. Não tive nenhum benefício na saída do meu emprego e não adiantava mostrar um atestado médico pros meus seguidores e pedir pra que eles continuassem a ver os vídeos, ou falar pra marcas comprarem publicidade sem eu conseguir fazer um post sequer.

Muitos famosos já passaram por depressão, alguns perderam suas vidas por ela, mas continuamos achando que a vida de quem tem a vida exposta é perfeita. Se ainda temos medo de falar dos nossos sentimentos para pessoas próximas, imagina falar abertamente sobre eles na internet.

É normal sentir medo ou vergonha de compartilhar momentos difíceis, ainda mais quando você não sabe quem vai receber esse conteúdo e qual será a reação. Mas quando feito de maneira responsável e prezando por a sua própria saúde mental, pode ajudar você e muitas pessoas.

Espero que cada vez mais pessoas públicas consigam se mostrar menos perfeitas, com seus corpos normais, relacionamentos reais, vidas com dia a dia muitas vezes entediantes, pois assim podemos ter um ambiente mais saudável para todos.

Mulher sem Vergonha é um espaço em que mulheres poderosas expressam suas ideias, desejos e confiança sem nenhum tipo de constrangimento. Para inspirar uma vida livre de padrões e julgamentos.

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