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Dez anos após acidente, Brasil ainda sonha em lançar foguete nacional

Ingrid Tavares

Do UOL, em São Paulo

22/08/2013 08h00Atualizada em 22/08/2013 17h35

A torre de lançamento na base militar de Alcântara, no Maranhão, foi modernizada há pouco mais de um ano, mas ainda espera sua grande estreia: o lançamento bem sucedido de um foguete de tecnologia brasileira.

O VLS-1 (Veículo Lançador de Satélites) pegou fogo há exatos dez anos, ainda na plataforma, onde trabalhavam 21 homens nos últimos ajustes do foguete. Faltavam apenas três dias para o lançamento quando a equipe foi surpreendida às 13h26 do dia 22 de agosto de 2003, com o equipamento de 50 toneladas entrando em ignição. E quando ele tentou voar, queimando o combustível das quatro fases, ele levou junto a estrutura montada ao seu redor, que só é retirada antes do lançamento, e matou todos os funcionários.

DEZ ANOS DE LUTO

  • Karime Xavier/Folhapress

    Doris Maciel, coordenadora da Associação de Viúvas das Vítimas de Alcântara, segura bandeira estendida sob o caixão de seu marido

Nos dois testes anteriores, feitos em 1997 e 1999, os motores, o sistema elétrico e de controle funcionaram normalmente, mas o foguete não chegou a completar sua missão. Problemas técnicos e distintos impediram que os satélites de dados e científicos, a chamada carga útil, fossem colocados em órbita, afirma a IAE (Instituto de Aeronáutica e Espaço), que é responsável pela fabricação dos foguetes nacionais.

Isso significa que o erro do primeiro protótipo não foi repetido na segunda tentativa de voo, e nenhuma das duas apontou a falha na ignição que causou o desastre anos mais tarde, em 2003.

Concluída em 2005, a investigação da comissão internacional não chegou a apontar culpados ou explicar o que ocorreu de fato com a ignição - o laudo da Aeronaútica, que conduziu o inquérito policial, apenas descartou sabotagem. Mas o relatório final do grupo indicou a necessidade da modernização da plataforma, dando novos rumos para o programa espacial brasileiro.

"Em projetos complexos como esses, como é um lançamento de um foguete, vários países aprenderam muito com seus acidentes. Os casos dos ônibus espaciais Challenger e Columbia, que causaram grande comoção no mundo todo, ajudaram a Nasa [Agência Espacial Norte-Americana] a revisar seus programas para evitar grandes acidentes", pondera o físico José Raimundo Coelho, presidente da AEB (Agência Espacial Brasileira).

Próximos passos

Com longa carreira no Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espacias), grande referência na construção de satélites, o físico diz que seu maior desafio à frente da Agência, desde maio do ano passado, é "fazer as coisas acontecerem" – e sem levar mais dez anos para isso.

"Quero mudar a percepção das pessoas. Eu ouço de muitos lados, de vários setores, que há um grande descrédito no projeto espacial, mas procuro construir uma agenda positiva para levar até a sociedade a importância do programa brasileiro."

Para isso, Coelho aposta não só na nova torre, com três novas rotas de fuga, mas também na modernização da infraestrutura de Alcântara que, segundo ele, está com 45% das obras concluídas. O governo está concluindo, dentro da base militar, a construção de dois sítios de lançamento: um só para os foguetes da família Cyclone, que fazem parte de um projeto de cooperação com a Ucrânia, e outro exclusivo para o VLS, carro-chefe do programa espacial. 

O primeiro voo, no entanto, só deverá ocorrer no ano que vem, ainda sem data definida, como um teste de configuração. Ele não usará toda a potência, ou seja, não terá combustível para "ligar" seus quatro motores, já que não tem a finalidade de colocar equipamentos em órbita, mas, sim, de qualificar seu sistema de navegação. 

Só no segundo teste em 2016, o foguete brasileiro completo será lançado, mas ele levará um experimento científico a bordo. Ele só deverá completar sua missão em 2017, avisa Coelho, quando colocar em órbita uma carga útil, provavelmente, um satélite de comunicação.

Alcântara é tido como uma boa área local de lançamentos por estar próximo do Equador, a órbita mais explorada comercialmente pelos satélites de comunicação, explica o presidente da Agência.