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Cientista já estudou com livros do lixo e hoje busca tratamento para asma

A cientista Dayene Caldeira - Fundação Estudar/Divulgação.
A cientista Dayene Caldeira Imagem: Fundação Estudar/Divulgação.

Marcelle Souza

Colaboração para o Tilt, no Rio de Janeiro

11/10/2021 04h00

Quando era criança, uma das brincadeiras favoritas da cientista Dayene Caldeira, 28, era pesquisar as características das doenças e explicá-las para os adultos. O material de consulta eram livros que ela e a avó encontravam no lixo, enquanto recolhiam recicláveis para ajudar no sustento da família, que morava na periferia do Rio de Janeiro.

"Minha avó não sabe ler, mas sempre acreditou na educação. Toda vez que encontrava um livro, ela me dava. Foi assim que eu aprendi inglês e que me apaixonei pela área da saúde", conta a pesquisadora.

Com apoio também da mãe, que era cobradora de ônibus, Caldeira se formou em fisioterapia, fez mestrado e agora está no doutorado em ciências biológicas no Laboratório de Investigação Pulmonar da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde pesquisa uma técnica que, com uso de células-tronco, tem o objetivo de fazer a regeneração dos pulmões de pacientes com asma.

A cientista Dayene Caldeira - Fundação Estudar/Divulgação - Fundação Estudar/Divulgação
A cientista Dayene Caldeira
Imagem: Fundação Estudar/Divulgação

O interesse pelo tema veio também de casa, da avó diagnosticada com asma grave.

"Eu me lembro das muitas vezes em que ela foi internada na UPA [Unidade de Pronto Atendimento] com crise de asma. Em algumas delas, a gente achou que fosse perdê-la", diz.

Com a pesquisa em andamento, ela quer ajudar não só a avó, que nunca teve acesso a tratamentos de ponta, mas também as cerca de 20 milhões de pessoas que vivem com asma no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. A doença leva a 350 mil internações por ano no Sistema Único de Saúde.

'Ciência tem que ter diversidade'

Pacientes com asma têm uma reação alérgica, causando inchaço e estreitamento das vias que levam o ar do nariz até o pulmão. Os sintomas comuns são tosse, dificuldade para respirar e chiado no peito.

A doença pode ser causada por fatores genéticos e ambientais, como a poluição, que foi o tema da dissertação de mestrado de Dayene na UFRJ. À época, ela mostrou como a existência de nanopartículas de combustíveis fósseis, como o diesel, podem piorar o sistema respiratório de camundongos em apenas 24 horas.

"As periferias das grandes cidades estão rodeadas de grandes avenidas. Essa é a minha realidade, é a minha experiência de vida. Então, para fazer ciência, eu sei que é preciso diversidade, com estudos que representem de fato a nossa população e, assim, os resultados sejam mais robustos", afirma.

Foi durante o mestrado que ela descobriu que havia um boom de pesquisas em outros países sobre a relação de algumas doenças e disfunções nas mitocôndrias, que são estruturas responsáveis pela produção de energia das células.

A cientista começou então a se perguntar: será que a cura da asma também pode estar relacionada com as mitocôndrias? E transformou a questão no tema de sua pesquisa de doutorado.

"Estudos já mostraram que uma nova mitocôndria é capaz de recuperar a função daquele tecido. O que a gente quer fazer é testar se a transferência mitocondrial, com uso de células-tronco, é capaz de regenerar o pulmão das pessoas com asma", explica.

Os tratamentos disponíveis hoje para pacientes com asma são baseados em medicamentos que agem para combater a inflamação do tecido pulmonar, aliviando os sintomas. O problema é que, a cada nova crise, os brônquios e as vias aéreas perdem um pouco da sua função e da capacidade de se recuperar.

Nova abordagem terapêutica

O estudo de Dayene busca uma nova abordagem terapêutica, que dê conta de melhorar a qualidade de vida do paciente e, se possível, recuperar totalmente o tecido pulmonar. "Não podemos falar em cura, mas, no fim, esse é sempre o objetivo da ciência", diz.

A pesquisa ainda está na fase de estudos pré-clínicos, com testes in vitro e em animais e deve durar até o fim do doutorado, previsto para 2024.

A etapa clínica, com seres humanos, quando serão avaliados os riscos para os pacientes e a eficácia da abordagem, deve ser realizada em um possível pós-doutorado.

"Neste momento, a gente trabalha para confirmar a hipótese de que essa nova abordagem melhora a função pulmonar. Ainda existe um longo caminho, mas os resultados que tivemos até agora nos deixam bem animados", diz.

Até o final do ano, ela deve embarcar para a Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, onde fará, ao lado de pesquisadores de referência em doenças pulmonares, parte dos testes em laboratório. O intercâmbio será realizado com bolsa de estudos do programa Líderes, da Fundação Estudar.