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Quero ser engenheira aeroespacial, diz astrônoma mirim que conquistou Nasa

Nicolinha, de 8 anos, se tornou uma caçadora de asteroides e chamou a atenção até da Nasa - Arquivo pessoal
Nicolinha, de 8 anos, se tornou uma caçadora de asteroides e chamou a atenção até da Nasa Imagem: Arquivo pessoal

Carlos Madeiro

Colaboração para Tilt, em Maceió

17/09/2021 04h00Atualizada em 17/09/2021 10h24

A pequena alagoana Nicole Oliveira, 8, tinha apenas 4 anos quando surpreendeu os pais ao pedir um telescópio de presente. A ideia dela, conta a mãe Zilma Oliveira Simião, era substituir a prometida festa de 5 anos pelo equipamento, para que ela pudesse observar o céu.

"Eu disse a ela que, naquele momento, não seria possível. Não tínhamos aquele dinheiro todo. Ela disse: 'então não quero festa, mamãe", lembra Zilma.

Nicolinha, como é chamada, é mais que uma curiosa do universo. Dona de um canal de divulgação astronômica no Instagram e no YouTube, ela criou também um clube de ciências em que incentiva crianças a buscarem a ciência. Já são 55 inscritos, que acompanham ela na busca de asteroides e na divisão de conhecimento que tem.

Caçadora de asteroides

A astrônoma mirim pode ser considerada hoje uma referência da área no país. Recentemente ganhou destaque após encontrar 12 asteroides, que estão sendo avaliados pela Nasa (agência espacial dos Estados Unidos) para saber se eles são inéditos. Se sim, ela poderá batizá-los e será a mais jovem do mundo a fazer tal descoberta —a informação, por sinal, rodou os noticiários da área no mundo.

Nicolinha fez a sua análise a partir de um software fornecido pelo programa Caça Asteroides, do IASC (International Astronomical Search Collaboration, ou Colaboração de Pesquisa Astronômica Internacional) da Nasa. Ela ingressou no programa na primeira turma aberta no Brasil, em 2020, e recebeu seu certificado em janeiro de 2021.

Por conta da idade, a conclusão do treinamento foi destaque na página do IASC no Facebook.

"Minha mãe ficava cantando músicas de estrelas, e desde lá eu me encantei, adoro ver o céu. Por isso queria ter o telescópio", conta Nicolinha a Tilt. "Ela ficava pedindo para pegar uma estrela para dar a ela. A gente dava estrelas de pelúcia", completa Zilma.

Inscrita e certificada pelo programa, a astrônoma amadora recebeu arquivos de imagens para análise. No meio dessas imagens, ela já detectou oito, que foram enviadas para análise —que podem levar até três anos.

A observação se baseia nas movimentações entre as estrelas no campo de visão. Ao perceber essas movimentações, ela faz a indicação, e a possível descoberta segue para os cientistas avaliarem. Quem descobre ganha o direito de batizar o asteroide com o nome que quiser.

Nicolinha e a mãe - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Nicolinha e a mãe: juntas sempre
Imagem: Arquivo pessoal

Zilma diz que demorou a perceber que Nicolinha não tinha uma simples admiração pelo céu. "Como não somos da área, demoramos bastante para perceber [a vocação]. Ela sempre teve muito amor ao céu. Ela começou a assistir a vídeos de astronomia, visitava o site da Nasa — isso tudo ela mesmo procurando. Isso era o dia todo", conta.

O pedido por um telescópio de presente foi o que despertou nos pais um alerta: "aí, sim, comecei a prestar mais atenção", admite. "Mas ela não queria um simples, queria um telescópio melhor —que era mais caro, mas que dava mais capacidade de percepção. A gente resolveu fazer uma vaquinha, fizemos rifas com amigos e parentes", completa Zilma.

Após juntarem o dinheiro, o equipamento —que custou, junto com o frete e montagem, R$ 3.100—, foi finalmente comprado. "A gente só conseguiu comprar o telescópio no aniversário de 7 anos dela. A gente teve muita ajuda também do dono da loja que vendeu o produto. Quando soube que ela já tinha os canais, ele ajudou. Foi um trabalho em conjunto", lembra a mãe.

Curso aos seis anos

Nicolinha observa, em 2019, Mercúrio  - CEAAL/Divulgação - CEAAL/Divulgação
Nicolinha observa, em 2019, Mercúrio
Imagem: CEAAL/Divulgação

Até ter o tão desejado equipamento para observar o espaço, Nicolinha seguiu os estudos na área e fez seu primeiro curso, no CEAAL (Centro de Estudos Astronômicos de Alagoas), em Maceió, em 2019.

Na época, o curso não podia ser feito por crianças, mas o interesse dela foi tanto que a direção decidiu baixar a idade mínima para que ela pudesse estudar.

"Aos 6 anos de idade, ela fez o nosso curso de iniciação à astronomia. A gente já percebia a paixão que ela sentia pela ciência do céu e tudo que se refere à astronomia e astronáutica. Ela com seu clube incentiva outras crianças a entrarem nesse ramo da ciência astronômica, e isso muito nos satisfaz. É um orgulho para todos nós", conta Romualdo Arthur, sócio do CEAAL.

Coleção de certificados

Hoje, Nicolinha já coleciona certificados, que vão desde curso de física a aulas de como buscar exoplanetas no espaço. Também já deu palestra sobre o tema para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Em Brasília, ela entrevistou o astronauta Marcos Pontes. Ele é um das inspirações dela na área, além das astrônomas Duília de Mello e Rosaly Lopes.

Mas ela avisa: "Eu não quero ser astronauta!"

"Quero ser engenheira aeroespacial, construir foguete. Eu não quero ir para o espaço, é mais seguro ficar aqui, fazendo coisas legais", conta a menina, que quer estudar no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutico).

Bolsa e mudança

Natural de Maceió, a pequena se mudou no início do ano para estudar no colégio Farias Brito, em Fortaleza, de quem ganhou uma bolsa de estudos. Filha única, Nicolinha embarcou com a família para o novo estado.

O pai dela trabalha como analista de sistemas e conseguiu seguir com seu emprego em Fortaleza. "Deixamos tudo em Maceió e viemos. A empresa apoiou e está atuando em home office aqui. Já eu tive de vender todas as máquinas e material de artesanato para pagar o frete da mudança. Mas viemos para cá por ela", conta Zilma.

Nicolinha estuda hoje em colégio de Fortaleza que lhe deu bolsa  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Nicolinha estuda hoje em colégio de Fortaleza que lhe deu bolsa
Imagem: Arquivo pessoal

Nicolinha estuda pela manhã, mas completa o dia com atividades: nas tardes de terça e quinta ela estuda inglês, por exemplo. Alguns dias à noite tem aulas de astronomia na escola. Mas ela se dedica também para manter seu canal atualizado e manter contato com os sócios do clube.

"Quando termina as atividades dela, ela vai para o Instagram, fala com professores, convida especialista para dar aula — uma vez por semana se reúne para alguma aula", conta, citando que hoje vive para acompanhar a atividade da filha. "Fico de lado, não deixo ela sozinha."

Nicolinha diz que está feliz com a escola nova. Sempre alegre durante a entrevista, ela manda um recado que ela dá a todos: "Queria dizer a todos que gostam da ciência, continuem", diz.