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Garotas da equipe de robótica do Afeganistão conseguem fugir do Talibã

"As Sonhadoras Afegãs", time de robótica só para meninas do Afeganistão, em apresentação na ONU em 2020 - Unicef Afeganistão/Fazel/2020
"As Sonhadoras Afegãs", time de robótica só para meninas do Afeganistão, em apresentação na ONU em 2020 Imagem: Unicef Afeganistão/Fazel/2020

De Tilt, em São Paulo

21/08/2021 12h24

As "Sonhadoras Afegãs", uma equipe de 25 meninas de 12 a 18 anos que participa de competições internacionais de robótica, conseguiram sair do Afeganistão depois de ficar dias no aeroporto internacional de Cabul aguardando ajuda para continuar seu projeto de educação em tecnologia no exterior.

A informação foi passada pelo Ministério das Relações Exteriores do Qatar, para onde elas foram levadas, e não está claro quantas foram resgatadas. O relatório, no entanto, diz que elas chegaram com segurança a Doha.

Segundo Schaeffer Brown, do Fundo Digital Cidadão, "pelo menos uma dúzia das meninas da equipe fugiu do país". A organização é responsável pela criação do grupo em 2017, sob a liderança de Roya Mahboob, a empresária afegã do ramo da tecnologia. O Fundo de Cidadão Digital oferece aulas de STEM (sistema de aprendizado que reúne ciência, tecnologia, engenharia e matemática) e robótica para garotas.

A prioridade agora é levantar dinheiro para bolsas de estudos, falou Brown ao The Washington Post.

As garotas vieram da capital provincial de Herat e nasceram depois que o Talibã perdeu o controle do país, em 2001. Agora, são um símbolo de um Afeganistão mais progressista e, por isso, temiam represálias.

"Essas meninas estão extremamente apavoradas", disse a advogada internacional de direitos humanos Kimberley Motley, que trabalhou para tirar o grupo do país e permitir que elas continuem os estudo, ao "Canadian Broadcast News".

De acordo com Motley, as universidades de Herat já estão rejeitando as meninas, pedindo que não voltem lá, e há o constante temor que o Talibã force as estudantes a virarem crianças noivas, encerrando suas potenciais carreiras em tecnologia.

Também não está claro onde as meninas, que cursam o ensino médio, irão morar após sua evacuação.

Em 2018, elas levaram a medalha de prata por "conquista corajosa" na Competição Internacional de Robótica ao elaborar um projeto em duas semanas, quando os demais participantes levaram quatro meses. Antes da viagem, tiveram seus equipamentos confiscados pelo governo afegão.

Em 2020, criaram um ventilador de baixo custo para pacientes com a covid-19 em cerca de quatro meses. O modelo que usava peças de automóveis foi baseado no design do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA), com orientação de especialistas da Universidade de Harvard.

A fuga das meninas aconteceu enquanto as fotos do desespero dos afegãos no aeroporto de Cabul rodavam o mundo. Imagens feitas por satélite mostram milhares de pessoas tentando escapar do Afeganistão em meio ao avanço do Talibã e dão mais uma dimensão do tamanho da crise humanitária que se deflagrou.

New high-res #satellite imagery (10:36 am local time, August 16) of the chaotic scene underway at #Kabul's Hamid Karzai International Airport in #Afghanistan as thousands of people converged on the tarmac & airport runways as countries attempt to evacuate personnel from the city. pic.twitter.com/L6lhlVms54

-- Maxar Technologies (@Maxar) August 16, 2021

Naquele dia, o secretário de imprensa do Pentágono, John Kirby, anunciou que voos militares e civis estavam suspensos até que as tropas dos EUA conseguissem restabelecer um perímetro de segurança ao redor do aeroporto. Desde então, a apreensão em relação às meninas estudantes só aumentava.

O que está acontecendo no Afeganistão

O grupo fundamentalista assumiu o controle do país depois que o presidente norte-americano Joe Biden ordenou a retirada das tropas dos EUA, que passaram 20 anos na região. Embora o Talibã já viesse retomando aos poucos diversos territórios afegãos, o anúncio do presidente Biden acelerou o processo.

O acordo para a retirada foi feito pelo antecessor na presidência, Donald Trump, ainda em 2020.

A tomada de Cabul, capital e principal cidade do Afeganistão, ocorreu no domingo (15). O próprio presidente do país, Ashraf Ghani, fugiu para o Tajiquistão e, nesta quarta-feira (18), foi recebido nos Emirados Árabes Unidos.

Os EUA invadiram o Afeganistão em 2001, após os atentados de 11 de setembro. O longo conflito militar custou cerca de 300 mil vidas desde então. Entre elas, agora podem-se incluir as 7 mortes já confirmadas na confusão ocorrida no aeroporto de Cabul.