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Por que temos déjà vu? Entenda o fenômeno que passa sensação de "reprise"

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Imagem: Thinkstock

Cintia Baio

Colaboração para Tilt *

27/04/2021 04h00

Déjà vu é uma expressão francesa, que significa "já visto", usada para descrever aquela sensação que temos de reviver uma determinada situação mesmo sabendo que nunca a presenciamos antes. O termo foi criado no século 18 por um parapsicólogo que acreditava que o déjà vu era um flashback de encarnações passadas.

Embora o fenômeno desperte a curiosidade de muitos cientistas, a verdade é que até agora ninguém conseguiu entender realmente como essa sensação é criada pelo nosso cérebro. O mistério é difícil de ser solucionado porque o déjà vu é algo tão espontâneo que fica muito difícil reproduzi-lo e estudá-lo em laboratório.

De acordo com André Souza, professor-assistente do departamento de psicologia da Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, existem duas possíveis explicações para o fenômeno. A primeira delas está relacionada à sensação de familiaridade provocada pela maneira como nossas memórias são criadas.

"Nossa memória para objetos é muito boa, mas não temos a mesma destreza para lembrar de como esses objetos estavam organizados espacialmente. Assim, quando estamos em um lugar onde há objetos diferentes dispostos de maneira semelhante a configurações que já vimos, temos a sensação de familiaridade que chamamos de déjà vu", diz Souza.

Outra teoria acredita que a sensação está ligada a uma "falha" momentânea de comunicação entre nossos sistemas consciente e inconsciente. Quando ocorre esse "tilt", a informação que passa do sistema consciente para inconsciente chega com um pouco de atraso, causando essa sensação de informação já conhecida.

Uma pesquisa publicada no periódico The Quarterly Journal of Experimental Psychology em 2016 revelou que a sensação ocorre quando o cérebro manda sinais para ver se houve algum tipo de "erro de memória". Ou seja, o fenômeno é nosso cérebro verificando se houve alguma incoerência entre o que realmente vivemos e o que achamos que vivemos.

Frequência

O número não é preciso, mas pesquisas apontam que a sensação de "já ter visto" determinada cena acontece com 30% das pessoas, é mais constante em indivíduos de 15 a 25 anos e tende a diminuir com a velhice. A primeira experiência, na maioria das vezes, ocorre na infância, antes dos dez anos.

"Não há informações conclusivas sobre o assunto, mas uma vez que o fenômeno parece estar ligado à formação das nossas memórias, é possível que essa maior incidência esteja relacionada ao fato que é durante a juventude que formamos as mais vívidas lembranças que temos das nossas experiências", diz Souza.

Déjà vu crônico

Nos últimos anos, os pesquisadores têm se debruçado sobre relatos de pessoas que dizem ter déjà vu constantemente. Como exemplo, foi noticiado em 2015 que um britânico de 23 anos experimentava isso há anos. O jovem chegou a evitar assistir televisão, ouvir rádio ou ler jornais por sempre ter a sensação de já ter visto aquelas histórias antes.

"Certa vez, ele foi cortar o cabelo e quando entrou na barbearia, teve um déjà vu. Em seguida, teve um déjà vu do déjà vu. E já não conseguia mais pensar em outra coisa", disse Chris Moulin, neuropsicólogo envolvido no estudo do caso.

Segundo os pesquisadores, os exames cerebrais sempre apontam normalidade, indicando que a causa pode ser muito mais psicológica que neurológica. No entanto, o estudo ainda não é conclusivo e outros casos estão sendo analisados.

Especulações fora da ciência

Longe do campo da ciência, acredita-se que o déjà vu possa estar relacionado a encarnações passadas ou experiências extracorporais.

A clássica resposta conhecida por muitos sobre o que realmente causa o déjà vu vem da famosa trilogia de filmes "Matrix" — que conta a história de um mundo dominado por máquinas que mantém os humanos presos em uma realidade virtual.

Quando o herói Neo vê um gato preto diz ter tido um déjà vu. É aí que Trinity explica: "O déjà vu é uma falha na Matrix. Acontece quando eles estão mudando alguma coisa". É claro que a explicação não passa de ficção, mas pelo visto, segue sendo a mais interessante, não?

* Texto baseado em reportagem publicada em 2015.