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Peixe-boi de 40 mil anos: como cientistas descobrem a idade de um fóssil?

O nome científico dado à espécie descoberta foi Trichechus hesperamazonicus - Reprodução/UFMG
O nome científico dado à espécie descoberta foi Trichechus hesperamazonicus Imagem: Reprodução/UFMG

22/11/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Há dois métodos básicos para determinar a idade de fósseis e rochas
  • Um analisa o processo de transformação de um mineral em outro
  • O outro examina características do local onde o fóssil ou objeto foi achado
  • Assim deu para saber que a rocha mais antiga já encontrada tem 4,4 bi de anos
  • Há uma margem de erro que pode ir de dezenas a milhões de anos
  • Às vezes, o fóssil inteiro que vemos no museu é apenas uma réplica

Um estudo desenvolvido na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) descobriu uma nova espécie fóssil de peixe-boi que viveu a cerca de 40 mil a 45 mil anos no território onde hoje fica o estado de Rondônia. O achado foi publicado no começo do ano e a espécie nomeada Trichechus hesperamazonicus, primeiro de seu gênero.

Vira e mexe cientistas publicam artigos científicos sobre algo muito antigo que eles encontraram — como o peixe-boi descoberto pelos cientistas brasileiros. Mas como os pesquisadores conseguiram determinar a idade do animal? E como é possível saber quanto tempo tem um objeto encontrado em sítios arqueológicos?

Alessandro Batezelli, professor do IG-Unicamp (Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas), explica que há dois métodos básicos para determinar a idade de fósseis e rochas: a datação absoluta e a datação relativa. O primeiro é feito por meio de métodos laboratoriais, chamado de geocronológicos, que se baseiam em estudos sobre a desintegração radioativa de isótopos. Já o segundo, leva em consideração outros fatores, como as características do local onde o fóssil ou objeto foi encontrado.

Quando um mineral se transforma em outro

Talvez você não lembre as aulas de química nuclear que deve ter tido na escola, mas desintegração radioativa de isótopos é o nome dado à transformação de um átomo em outro por meio da emissão da radiação que emana do seu núcleo instável. O Potássio 40, por exemplo, com tempo se transforma em Argônio 40.

No método de datação absoluta, o que se busca é determinar quais materiais estão contidos na amostra arqueológica, a proporção dos isótopos radioativos e o resultado de seu decaimento.

No exemplo dado do Potássio e do Argônio, uma amostra hipotética totalmente composta por Potássio 40 vai levar 1,25 bilhão de anos para ter metade desse elemento transformado em Argônio 40. Esse período é a chamada "meia-vida". Há laboratórios e empresas dedicadas a fazer esse tipo de análise e o resultado pode demorar de dias a meses para sair.

Mas há vários minerais que podem ser usados para esse tipo de análise, como o Rubídio 87 (meia-vida de 48,8 bilhões de anos) e o Urânio 238 (meia-vida de 4,5 bilhões de anos), entre outros.

Ao menos em tese, com esse método é possível datar objetos arqueológicos de períodos anteriores aos da formação da Terra, o que aconteceu há estimados 4,6 bilhões de anos.

A rocha mais antiga já encontrada, por exemplo, é um fragmento de zircônia de 4,4 bilhões de anos. Na ocasião, foram analisados traços de urânio nesta amostra e a proporção desse mineral e de chumbo, que é o resultado do decaimento de alguns dos seus isótopos.

Vestígios de vida

Há, porém, uma "pegadinha": o dobro do tempo da meia-vida de um isótopo não quer dizer que ele desaparecerá completamente.

Para explicar isso, tomemos o caso do Carbono 14, comumente usado para determinar a idade de materiais orgânicos e que tem o nitrogênio como produto do seu decaimento.

"Vamos imaginar uma quantidade de 30 gramas desse material. Após os primeiros 5.730 anos, que é a meia-vida dele, teríamos 15 gramas de Carbono 14. Depois de mais 5.730 anos, esses 15 g seriam 7,5 g. Passados mais 5.730 anos, seriam 3,75 g e assim por diante. Neste caso, o crítico é ter instrumentos que possa medir os vestígios do Carbono 14, mas a sua análise pode determinar a idade de amostras de cerca de 70 mil anos", afirma Mario Cozzuol, professor do Departamento de Zoologia do ICB-UFMG (Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais), e um dos envolvidos na descoberta citada no início deste texto.

Olhando ao redor

Outro método de datação absoluta envolve procurar cristais de zircônia próximos ao local onde os fósseis ou objetos foram encontrados.

"Caso existam esses cristais, é possível fazer uma leitura do seu interior, onde alguns átomos 'explodem' e deixam marcas. Neste caso, como há uma taxa constante de decomposição, é possível determinar a idade desta amostra de acordo com a quantidade de 'cicatrizes' que houver dentro desses cristais", explica Cozzuol, ressaltando que isso serve para medir a idade do cristal, e não necessariamente do fóssil que está próximo dele.

Olhar ao redor do fóssil ou objeto é outro meio de saber a idade que ele tem. A chamada datação relativa envolve observar as características do local onde o fóssil ou objeto foi encontrado. Neste caso, a datação leva em conta a formação geológica, as camadas de solo, os tipos de rocha, entre outros fatores. É o chamado método estratigráfico.

Como o nome deixa claro, ela é uma forma menos precisa para estimar a idade de um achado arqueológico, mas não menos importante.

Margem de erro

Por mais que a combinação esses métodos ajudem a tornar a estimativa de data de um fóssil ou de um objeto mais precisa, há uma margem de erro considerável. Aqui, tudo depende da precisão dos equipamentos usados em laboratórios e da idade da amostra em si.

"O erro pode ir de dezenas de anos, para datações de amostras provenientes da história recente nos últimos 50 mil anos, até milhares ou milhões de anos no caso da datação de rochas e fósseis mais antigos", explica Batezelli.

Segundo ele, nas últimas décadas houve um avanço muito grande nos equipamentos e nas técnicas de análise. Além disso, os laboratórios têm desenvolvido protocolos muito rígidos para seus processos, o que permite que os resultados sejam muito precisos.

Noite no museu?

Quando pensamos em fósseis dentro de um museu, vem à mente aquele belo tiranossauro montado osso a osso. Ou, ainda, exemplares de animais perfeitamente preservados. Logo concluímos que achados arqueológicos envolvem esqueletos totalmente montados ou animais em "estado de novo".

Em algumas situações, de fato, isso pode ocorrer. Animais encontrados congelados e envoltos em resina, por exemplo, ou que passaram por algum processo de mumificação, podem preservar tecidos moles.

"O normal, no entanto, é encontrarmos fragmentos. Isso porque, ao morrer, os animais e plantas começam a se decompor e muitas vezes eles viram alimentos para outros organismos. Situações nas quais o organismo acaba sendo enterrado rapidamente, ele tende a se preservar melhor, especialmente em condições com pouca água ou oxigênio", conta Cozzuol.

Já no caso de ossos, a chance de encontrar exemplares em boas condições é maior, mas ainda assim não é possível considerar isso uma regra.

Sobre a forma de exposição em museus, tudo depende da instituição. Em alguns casos, o que os visitantes encontram é, sim, o material encontrado originalmente - caso existam partes faltantes, elas podem ser replicadas em materiais como o plástico.

De acordo com os especialistas consultados, há uma tendência dos museus, quando possível, apresentarem o material original.

No caso de espécimes únicos e grande valor histórico, porém, é comum que se utilizem réplicas como forma de evitar danos e também preservar o original para estudos. Neste caso, são exibidas réplicas perfeitas que, normalmente, são construídas usando materiais leves, como resina.