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Há poesia naquela mensagem: artista transforma frases do Instagram em verso

Divulgação
Imagem: Divulgação

Bárbara Therrie

Colaboração para Tilt

18/11/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Artista seleciona trechos de chats com amigos e até desconhecidos
  • O perfil no Instagram quer mostrar como há poesia no dia a dia
  • Dono do perfil quer publicar um livro de poesias com a série de mensagens

Já parou para analisar aquelas suas conversas que rolam nas DMs (directmessages) do Instagram, quando você "chama alguém no probleminha"? Nem sempre é xaveco. Dali podem sair papos filosóficos, desabafos e conselhos, trocas de afetos e ideias. Foi isso que percebeu o barista e artista visual César Machado, 26, que passou a publicar na sua conta (@cesarmachado) versos feitos a partir de textos guardados na rede social.

"Tem dia que é super produtivo", "tem que dia que nada dá certo", "tem dia que eu tento fazer várias coisas ao mesmo tempo e não faço nada direito". As frases, assim soltas, parecem banais, mas viram poesia no "recorta e cola" de Machado.

Desde outubro de 2019, ele seleciona trechos de conversas que teve com amigos, conhecidos e até desconhecidos, faz o print screen (captura da tela) e começa a fazer a colagem digital. As frases vêm de diálogos aleatórios, sem pauta definida, com divagações e interrupções.

cesar machado - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
César Machado, 26, o poeta de Instagram
Imagem: Arquivo pessoal

"O objetivo é mostrar como há poesia no que a gente conversa no dia a dia pelas mensagens do Instagram, onde a fala se tornou algo tão frágil", explica. "São frases que, no meio da conversa, me atingem, chamam a minha atenção, me emocionam e que eu reconheço como um verso de poesia. Para mim, a poesia precisa promover um significado dentro de cada um", acredita.

A inspiração veio de uma amiga que recortava as mensagens das conversas que tinha com amigos, as organizava de diferentes maneiras, com cores e imagens, e postava nos Stories. O artista visual adaptou a ideia, passou a colocar em um único post várias frases que formavam um poema e a colar em um fundo branco.

"Em meio ao bombardeio diário de imagens e informação que recebemos, decidi adotar o fundo branco com uma proposta de desacelerar, de fazer as pessoas pararem para ler com mais calma. Ele ajuda no processo de fazer o leitor ser um pouco mais atento ao que está enxergando e não ter o olho viciado no automático", explica.

Segundo Machado, o que começou como uma forma de mostrar para ele e para os amigos como há poesia no dia a dia, tomou uma proporção que ele não esperava. A repercussão foi tanta, que em um ano de projeto, o número de seguidores dele saltou de 2.000 para 27 mil.

"Nunca imaginei que tanta gente iria ler o recorte das frases", diz.

O artista visual conta que recebe muitas mensagens de apoio e incentivo para continuar produzindo. "Além de me darem sugestões de temas para publicar, as pessoas relatam que passaram a ler poesias e a ter diálogos com mais profundidade", comenta.

Na opinião de Machado, a tecnologia exerce um papel central na criação de arte nos dias de hoje, porque democratiza o acesso.

"Plataformas como o Instagram permitiram que muitos artistas independentes começassem a expor e divulgar seus trabalhos sem precisar pagar uma taxa de locação em uma galeria, por exemplo. Além disso, o espaço digital possibilita conversas, trocas e criações conjuntas entre artistas que moram em diferentes regiões do país", diz.

Por outro lado, Machado vê um aspecto negativo. "Com a massificação da produção de arte na internet veio também a dissolução do valor de trabalho criado pelo artista e a dificuldade em vendê-lo. Enquanto escritor, ficou ainda mais difícil obter algum retorno financeiro, dada a facilidade com que qualquer pessoa pode ler o trabalho de um autor, de graça, em um PDF achado no Google, por exemplo."

Ainda assim, ele diz ter planos de escrever um livro de poesias em torno da série de mensagens e publicar no ano que vem. A ideia é mesclar colagens, imagens e fotos que ele produz enquanto artista visual.

"Penso que trazer o livro para fora da internet, ou seja, das publicações no Instagram, será importante para mostrar que o mundo digital é matéria-prima para criar arte e fazer coisas reais que importam. O movimento atual é criar algo no mundo físico e levar para internet, meu livro fará o movimento inverso, criar algo na internet e levar para o mundo físico", afirma.