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Caixa Tem: é difícil criar um app para receber auxílio sem tanto problema?

Guilherme Dionízio/Estadão Conteúdo
Imagem: Guilherme Dionízio/Estadão Conteúdo

Gabrielle Pedro

Colaboração para Tilt

29/07/2020 04h00Atualizada em 31/07/2020 11h42

Sem tempo, irmão

  • Criado há três meses, app do auxílio emergencial ainda causa frustrações nos usuários
  • Desenvolvedores comentam dificuldades de criação de app para milhões de pessoas
  • Falta de investimento e de planejamento são apontados como causa dos problemas

O aplicativo Caixa Tem foi lançado no ano passado, mas desde abril virou o meio para a população obter os R$ 600 do auxílio emergencial por causa da pandemia de coronavírus. Desde a mudança, recebeu um monte de críticas por sua instabilidade, longas filas de espera para atendimento e falta de infraestrutura para aguentar o excesso de acessos simultâneos.

Será que é tão difícil assim criar um sistema dessas proporções? Tilt ouviu especialistas para entender.

Ponto 1: a fila de espera

As longas filas de espera para ser atendido lideraram as reclamações. O diretor da Faculdade de Ciências Exatas e Tecnologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Daniel Couto Gatti, argumenta que esse tipo de programação, bastante usado, serve para que as máquinas não fiquem sobrecarregadas.

Existem outros suportes que dariam conta da demanda ou o banco poderia contratar um serviço extra para garantir que as máquinas aguentem o volume de solicitações. "Mas isso gera um custo absurdo e há dados que não podem ficar fora do ambiente da empresa, o que dificulta [seu tratamento]", diz Gatti.

Kalinka Castelo Branco, professora do ICMC (Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação) da USP (Universidade de São Paulo), concorda, mas faz uma ressalva: a Caixa tentou fazer a divisão de usuários por data de nascimento para ter menos pessoas usando ao mesmo tempo, porém depois colocou mais funções no app.

"Quando você aumenta a funcionalidade, você também aumenta o uso daquele sistema. Então, as pessoas que já tinham recebido o auxílio passaram a usar o aplicativo para fazer outras coisas e isso aumentou o número de acessos. Talvez isso [os recursos novos] tivesse que ser dosado para conseguir escalar de uma forma mais organizada e calma", analisa.

O analista de desenvolvimento do Mercado Livre Michel Wilhelm acredita que faltou investimento para um app desse porte. "Se você faz um aplicativo que vai ter milhões de acessos, você precisa saber se está disposto a pagar um preço por isso", afirma. Para ele, seria preciso comprar ou alugar mais servidores para aguentar o excesso de requisições, isto é, os acessos dos internautas.

O problema com essa saída é que nem sempre a dona do serviço está disposta a pagar por ela. "Em poucos meses esse sistema talvez não vai mais existir. Então, por que a Caixa vai investir um fortuna imensa para dar melhor performance a um sistema que daqui alguns meses não estará mais no ar?", questiona o professor da Faculdade de Computação e Informática do Mackenzie Vivaldo José Breternitz.

Ponto 2: a instabilidade

O sistema da Caixa Econômica Federal conta com mais de 65 milhões de beneficiários, um volume tão grande de pessoas que dificilmente um app de larga escala daria conta. "Acho muito difícil existir um aplicativo que seja à prova disso", diz Anderson Chamon, do sistema de pagamentos PicPay.

As inconsistências do app aumentam quando mais gente o usa —há vezes que ultrapassa 500 mil acessos simultâneos. "Eles até calculam que podem ter 50 milhões de acessos por dia, por exemplo, mas dependendo do horário que se concentra o maior número de acessos, o sistema não dá conta", pondera Gatti.

Ponto 3: a urgência

Chamon considera que houve pouco tempo para criar um aplicativo que desse conta dessa demanda. Para ele, a solução seria pôr mais desenvolvedores na equipe do Caixa Tem, para antecipar o prazo e permitir que milhões de usuários possam usar ao mesmo tempo. "É um exercício contínuo de identificar os problemas e tratá-los", diz.

Outra possibilidade levantada pelos especialistas é o desenvolvimento em cascata —isto é, lançar o serviço com o mínimo necessário possível e sem bugs. Só depois que essa primeira fase der certo é que traria mais recursos, após um tempo de testes.

Mas para Gatti, da PUC-SP, essa também não é uma garantia de que o aplicativo estaria longe de problemas. "É extremamente complexa a solução, porque depende de inúmeros fatores. Então não dá para dizer se o escalonamento de processos conseguiria atender", ponderou.

Breternitz avalia que a Caixa entregou um bom produto, levando em conta o pouco tempo que os desenvolvedores tiveram para construí-lo. "Pelo tempo que o pessoal teve para fazer isso, é quase que um milagre. É um produto que está funcionando precariamente, mas está funcionando e o grande problema foi a urgência necessária criar para esse sistema", diz o professor do Mackenzie.

Ponto 4: a segurança

Neste mês, o governo identificou uma "ação orquestrada" de hackers para desestabilizar o Caixa Tem. Eles teriam mobilizado "robôs" para fazer disparo de mensagens de que o aplicativo estaria com problemas para a visualização de saldo.

Em maio, William Bonner disse que seu filho Vinícius foi vítima de um golpe envolvendo o auxílio emergencial. Segundo o jornalista, o CPF do filho foi cadastrado para um criminoso sacar o benefício em outra conta. "Meu filho não pediu auxílio nenhum, não autorizou ninguém a fazer isso por ele. Mais uma fraude, obviamente", escreveu o âncora do "Jornal Nacional" em seu Twitter.

Além dele, outros famosos como Manu Gavassi e Thammy Miranda tiveram seus nomes envolvidos no mesmo golpe para receber o benefício.

Kalinka Castelo Branco, da USP, analisa que esses tipos de fraudes, envolvendo pessoas famosas, não são difíceis de acontecer porque as informações deles estão públicas. Bancos de dados de pessoas comuns também circulam ilegalmente na web. "Hoje, é muito fácil você encontrar o CPF e o email válido de alguém. Então, uma vez que você está munido desta informação (de terceiros) é fácil", diz.

"Em um app como o da Caixa, a segurança é essencial. Além de criptografar e autenticar, tem mais coisas que eles precisam se atentar, como as leis de proteção de dados, pois são elas que respeitam a privacidade do usuário", explica Gatti.

O que a Caixa diz?

Procurada, a Caixa disse que "os clientes e beneficiários do auxílio emergencial estão conseguindo efetivar suas operações", mas que as instabilidades nos sistemas podem ocorrer devido à quantidade de acessos simultâneos. São 400 milhões de usuários únicos, mais de 1,2 bilhão de consultas de saldo e extrato, 17,9 milhões de boletos pagos e 4,9 milhões de compras utilizando as maquininhas/QR Code.

"Com os acessos simultâneos recordes registrados em todos os canais digitais da Caixa, que por vezes ultrapassa 500 mil acessos simultâneos, podem ocorrer intermitências nos sistemas, em momentos de maior concentração", diz a nota.

A Caixa ressaltou que melhorias estão sendo feitas, mas não comentou sobre o investimento em outras soluções ou serviço extra para dar conta do volume. Os desenvolvedores do aplicativo também foram contatados pela reportagem, mas não houve resposta.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado no depoimento de um dos entrevistados, a análise dos cadastros para o auxílio emergencial é da Dataprev, Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência, e não da Caixa Econômica Federal. O trecho com a informação errada foi retirado do texto.
Diferentemente do que foi informado no texto, o aplicativo Caixa Tem foi lançado em 2019, e não há três meses. O texto foi corrigido.