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Pandemia faz Uber dar "cavalo de pau" e investir bilhões em delivery

Pandemia tem mudado foco do modelo de negócio da Uber - Jeenah Moon/The New York Times
Pandemia tem mudado foco do modelo de negócio da Uber Imagem: Jeenah Moon/The New York Times

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

07/07/2020 09h00

Sem tempo, irmão

  • Uber Eats incorporará compra online em mercado do aplicativo Cornershop
  • Novidade mostra apetite da Uber para bombar app de delivery durante pandemia
  • Empresa mudou foco do app de viagens compartilhadas para serviço de entregas
  • Motoristas da Uber ficam de fora e terão que fazer solicitação para Cornershop

A pandemia causada pelo coronavírus fez a Uber dar um "cavalo de pau" em seu modelo de negócio —ou quase isso. Se até há pouco tempo seu foco era oferecer viagens de carro a passageiros, a companhia se viu obrigada a dar uma atenção quase única ao Uber Eats, serviço de entrega que passou a ser "atividade essencial" no período de distanciamento social.

O reflexo disso está em anúncios recentes da empresa, incluindo o desta terça-feira (7). A partir de agora será possível "fazer mercado" no Uber Eats - e também no app "principal" da Uber - com a solução da Cornershop, app de compras em supermercados que foi integrado à plataforma da Uber e que já funciona com um aplicativo próprio no Brasil desde janeiro deste ano em 11 cidades.

Não é um "cavalo de pau" completo porque o Uber Eats já ganhava relevância dentro da empresa nos últimos anos. Ele era avaliado como uma das áreas que mais cresciam, mas sem alcançar o negócio principal de corridas. Agora, ele ganhou ainda mais destaque e tem sido o principal desafogo da Uber.

Isso é o que explica, por exemplo, a recente aquisição bilionária da empresa. Sim, a Uber continua dando prejuízos bilionários e teve sua situação piorada pela pandemia, mas por outro lado está desembolsando US$ 2,65 bilhões (cerca de R$ 14,7 bilhões) na compra do aplicativo de delivery Postmates —a transação ainda está sob aval das agências reguladoras dos Estados Unidos.

A Postmates funciona em quase 3 mil cidades norte-americanas oferecendo delivery local. Sua compra é uma clara estratégia da Uber para aumentar a participação no mercado de entregas dos EUA —por lá, a líder é a DoorDash.

Mercado no app

O que a Uber teve que fazer, na prática, foi acelerar inúmeras soluções que já eram negociadas para o Eats. O caminho para as implantações poderia ser mais longo, mas a pandemia fez com que a companhia ficasse atrás de concorrentes no quesito soluções embarcadas.

É o caso, por exemplo, da estratégia com a Cornershop. A Uber já havia anunciado a compra da startup chilena no segundo semestre de 2019 —ou seja, antes da pandemia—, mas só agora começará a implantar a solução - o acordo da compra, estima a Uber, deve ser concluído nos próximos dias.

Funcionará assim: no app da Uber Eats será possível clicar no atalho Mercado e aí o aplicativo começará a oferecer a experiência já presente no app da Cornershop —que continuará existindo, para quem quiser. O aplicativo principal da Uber também implantará um botão dedicado a compras de supermercado - da mesma forma que já possui um para o Eats.

A solução de navegação é muito semelhante às de outros aplicativos como iFood, James e Rappi —e talvez por isso a Uber tenha corrido para adotá-la. São mostrados itens de supermercado em vez de pratos, com o usuário podendo escolher a quantidade e fazendo personalizações como escolher entre uma banana mais madura ou mais verde.

O pagamento, ao fim, é feito na experiência do Uber Eats —não é preciso fazer um cadastro na Cornershop.

"Acho que já faria sentido no mundo pré-covid, mas nosso mundo mudou para sempre. O Uber Eats é a conveniência do novo normal, as pessoas confiam em nós para conseguir o que querem, quando querem", diz Daniel Danker, chefe de produto do Uber Eats.

A correria da Uber para lançar isso foi tão grande que, inicialmente, a ferramenta começará a funcionar na América Latina e no Canadá —até o fim do mês o serviço deverá começar a funcionar nos Estados Unidos.

No Brasil, as seguintes cidades fazem parte do lançamento inicial: Belo Horizonte, Brasilia, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Goiânia e Campinas. Entre as principais redes disponíveis no Cornershop (e consequentemente no Uber Eats) por aqui estão Carrefour, Big, Varanda, Emporium São Paulo, Gimba e Cobasi.

Compras "de tudo"

Apesar da Cornershop dizer que o Brasil é o mercado com mais crescimento em 2020, a concorrência aqui também é mais apertada: Rappi e iFood já contam com soluções embarcadas de compras antes do Uber Eats, incluindo parcerias com pequenos mercados.

Com a pandemia, a procura por serviços do tipo explodiram. Só em supermercado, por exemplo, a Apas (Associação Paulista dos Supermercados) divulgou um crescimento de 107% nas compras online no setor logo no fim de março.

Ainda assim, a Rappi já é mais conhecida como app para "entrega de tudo", filão que o Uber Eats tenta beliscar agora, ao mesmo tempo que tenta se distanciar do iFood. Este, por sua vez, é mais conhecido pelos restaurantes, mas também já faz entregas gerais e supermercado.

As compras realizadas por delivery cresceram 59% durante a pandemia em relação ao período imediatamente anterior, segundo dados da empresa de pagamentos Rede compilados até maio. Tudo bem que a Uber também anunciou novidades pós-covid para seu app principal, mas todos esses dados justificam o motivo da maior dedicação ao Eats.

Ainda na primeira semana de isolamento social, o Uber Eats passou a ofertar farmácia no aplicativo. Logo depois, surgiram floriculturas. Isso foi expandindo ao ponto de o app ofertar presentes e brinquedos em parceria no Brasil com a Disney. O céu é o limite na ideia de "delivery de tudo" da empresa.

E os motoristas?

Ao mesmo tempo em que o Uber Eats cresce, os motoristas da Uber continuam sofrendo com a queda na demanda. Mesmo depois da retomada de alguns setores, condutores ouvidos por Tilt apontam que ganham 40% do que faziam antes da pandemia por dia.

A Uber até tentou mudar alguns elementos do aplicativo e passou inclusive a ofertar o Uber Flash, modalidade em que é possível enviar um objeto —não uma pessoa— do ponto A ao ponto B. A parceria do Cornershop, que já realiza a maioria de suas entregas por carro, poderia significar uma nova renda a esses motoristas, mas não será bem assim.

Em vez de aproveitar sua base de motoristas que já trabalham no aplicativo principal, as entregas de supermercado serão feitas apenas por entregadores cadastrados na Cornershop, ao menos por enquanto. Novos cadastros não serão necessariamente aceitos mais rapidamente por serem motoristas de Uber.

"Nós não temos planos imediatos de integrar com motoristas da Uber, elas precisam se candidatar conosco. Daqui a um tempo pode rolar isso por causa da demanda, mas agora as entregas serão da Cornershop", aponta Oskar Hjertonssos, fundador e executivo-chefe da Cornershop.

Segundo Eduardo Lima de Souza, presidente da Fembrapp (Federação dos Motoristas por Aplicativo no Brasil), a Uber fez pouco para tentar adaptar os motoristas aos serviços de entrega —a chegada de ainda mais motoqueiros e ciclistas às plataformas ainda tornaram isso pior.

"A tentativa (de migrar para entregas) foi efetuada. Muitos motoristas migraram para as entregas, mas como você tem que ficar trocando mercadoria com cliente os motoristas temem contaminação. Você vai fazer uma entrega e não sabe se está contaminada. É diferente de veículos com passageiros, em que usamos película protetora e outras coisas", diz Duda, como é conhecido.

Além das entregas, a Uber encontrou mais uma área a ser explorada durante a pandemia: a venda de seu software para cidades usarem no transporte público. Segundo executivos da própria empresa, esse setor é "mais lucrativo" do que o de viagens para a empresa e, com a retomada das cidades, pode ser uma "mina de ouro" para a companhia finalmente passar a ser lucrativa.