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Diário de um Confinado: como se faz uma série de TV só com trabalho remoto

Murilo, personsagem de Bruno Mazzeo, conversa por videoconferência na série "Diário de um Confinado" - Divulgação/Globo
Murilo, personsagem de Bruno Mazzeo, conversa por videoconferência na série "Diário de um Confinado" Imagem: Divulgação/Globo

Mirthyani Bezerra

Colaboração para o Tilt

06/07/2020 13h02

Sem tempo, irmão

  • Série é primeiro produto de dramaturgia da Globo 100% remoto, da pré à pós-produção
  • Por causa da pandemia, Murilo (Bruno Mazzeo) faz tudo dentro do loft em que vive
  • Kits com tripés, microfones externos, ring lights e celulares com câmeras 4K foram usados
  • Diretores e técnicos usaram apps de acesso remoto e videoconferência para monitorar produção
  • Mais de 25 horas de gravações foram armazenadas na nuvem

Com os estúdios fechados, a Globo tem apelado para soluções tecnológicas para continuar a produzir seus programas. "Diário de um Confinado", que estreou no sábado (4) na TV aberta e nesta segunda-feira (6) no canal Multishow, é um dos cinco programas da empresa com trabalho remoto no período da pandemia, além de ser o primeiro com 100% da equipe confinada, da pré à pós-produção.

Por causa do coronavírus, artistas e técnicos da emissora estão trabalhando em suas casas, usando aplicativos de videoconferência, celulares com câmeras de última geração e transferências em nuvem, entre outros recursos.

A série é protagonizada pelo ator Bruno Mazzeo e conta com a participação especial de Arlete Salles, Debora Bloch, Fernanda Torres, Lázaro Ramos, Lúcio Mauro Filho e Renata Sorrah. A direção artística da série fica a cabo de Joana Jabace, mulher de Mazzeo.

Joana Jabace - Divulgação/Globo - Divulgação/Globo
A diretora artística, Joana Jabace, monitora as gravações de "Diário de um Confinado"
Imagem: Divulgação/Globo

Acesso remoto e videoconferência

Para manter a qualidade técnica do programa, o setor de tecnologia da Globo precisou montar kits de gravação com tripés, microfones externos com grande sensibilidade e que permitem o monitoramento de áudio à distância, além de ring lights (aqueles aros de luz amados pelas blogueiras) para controlar a iluminação.

"Na separação dos equipamentos, o responsável técnico seguia as normas de proteção para higienizar, embalar e lacrar os equipamentos", explica Marcelo Bossoni, diretor de tecnologia de entretenimento da Globo.

Foram usados nas filmagens dois celulares de última geração: um conectado em conferência que permite às equipes monitorar e acompanhar a gravação, e outro para captação em 4K, que era usado pelos próprios atores. Os modelos de celulares não foram informados à reportagem.

Já para a casa de Jabace e Mazzeo, foram enviadas câmeras de filmagem com sensores full frame (mais avançado que os comuns) e estabilização ótica, além de outros itens de iluminação. A equipe de logística entregou todo o material na casa dos atores.

"Demos a distância toda a orientação para a montagem básica do kit, e fizemos um acesso remoto nos aparelhos celulares para aplicar configurações. Apesar de já estarem 'pré-setados' (com as configurações em dia), os equipamentos exigem ajustes dependendo da luz, áudio e ambientação de cada casa", explica Marcelo Bossoni.

Durante as gravações, produtores de artes, cenógrafos, figurinistas e entre outros profissionais controlaram as equipes e ajudaram na preparação e ajustes do set com programas de videoconferência como o Teams, da Microsoft.

A cada finalização de filmagem, a equipe de tecnologia acessava remotamente os celulares para transferir o material gravado para a nuvem. Em seguida, o conteúdo era disponibilizado para os servidores nos Estúdios Globo. Foram usados sistemas de nuvem convencionais do mercado e o material produzido somou mais de 25 horas de material bruto.

Ao todo, 48 profissionais participaram das etapas de produção da série, a maioria deles no home office. "Temos assistente de direção, arte, montador, pós-produção, efeito especial, só que todos os departamentos trabalhando remotamente, cada um de sua casa. No nosso apartamento, apenas eu, o Bruno e o Glauco Firpo, diretor de fotografia, que passou toda a temporada conosco, seguindo os protocolos de segurança", conta Joana Jabace.

Apesar de todos os ciclos da produção terem sido feitos de maneira remota, o diretor de tecnologia, Marcelo Bossoni, fez a ressalva de que colaboradores responsáveis pelos processos de sonorização e color grade (alteração de cores) precisaram ir aos Estúdios Globo.

Vieram para ficar?

Bossoni acredita que esse modelo de produção para teledramaturgia encurta distâncias, otimiza problemas de limitação física e permite fazer uma série de processos em nuvem —e tem tudo para ficar mesmo em um mundo pós-covid.

"Temos construído um trabalho muito relevante com acesso remoto que têm se mostrado essencial para o agora, mas que também proporciona uma série de ganhos que podem extrapolar o momento atual", afirma.

Para Jabace, a pandemia está transformando o ofício dos profissionais de TV. "Quem tiver coragem e capacidade de se reinventar vai seguir, pois a arte não vai parar", afirma.

"Acho que a dramaturgia vai sofrer adaptações e que as coisas, por necessidade, vão ser um pouco menores, com produções mais íntimas daqui por diante. No nosso caso, fizemos uma dramaturgia muito íntima e, consequentemente, muito humana, pelo fato de não ter outros cenários, outros universos. Foi uma comprovação de que somos capazes de fazer e de que como vamos ter que fazer daqui pra frente", teoriza a diretora artística.

A história

A obra conta o dia a dia de Murilo (Mazzeo), que por causa da pandemia se vê obrigado a fazer absolutamente tudo dentro do "apertamento" onde vive, desde compromissos profissionais à terapia. "O projeto foi feito na minha casa, mas poderia ter sido feito num estúdio pequenininho. Tem um 'mood' de dramaturgia e nosso intuito é que o espectador embarque no universo do Murilo", disse Joana Jabace.

Segundo ela, a obra foi pensada para dar ao espectador a sensação de tédio e confinamento que os brasileiros —ou ao menos aqueles que estão seguindo a quarentena— vêm sentindo ao longo de quase quatro meses de isolamento social.

"A sala da nossa casa foi transformada no loft do Murilo, como se o quarto fosse na sala. Ele está sempre ocupando o mesmo espaço, dando a sensação de que está enraizado, que não consegue sair do lugar. E, de fato, ele não consegue. No figurino, ele vai ter poucas trocas de roupa, e as próprias situações que a série aborda vão trazer essa sensação de aprisionamento, de que todos os dias são os mesmos", completa.

Ela conta ainda que o ambiente da série tem uma luz mais "quentinha" para contrastar com aquela luz de aspecto azulado que sai do computador, do celular, da linguagem das lives. "Do ponto de vista de movimentação de câmera, é uma 'câmera voyeur': como se tivesse uma câmera em registro, num documentário sobre o confinado. Por isso ele faz depoimentos para a câmera", diz.