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Computadores fazem arte: como o digital influencia novas obras visuais

Google Maps Hack (esq.), Triple Chaser" e trabalho de Rafaël Rozendaal - Montagem com imagens de divulgação
Google Maps Hack (esq.), Triple Chaser" e trabalho de Rafaël Rozendaal Imagem: Montagem com imagens de divulgação

Daniel Dieb

Colaboração para Tilt

30/06/2020 04h00

Artistas criam com o que têm à mão. E na era digital, parte deles trabalha com smartphones e internet como instrumentos de produção artística, da criação à exposição. Ao mesmo tempo, refletem sobre o papel das mídias digitais no cotidiano e nas relações humanas.

No Google Maps Hack, instalação e performance que viralizou no começo deste ano, o artista Simon Weckert puxou pelas ruas de Berlim um carrinho de criança com 99 celulares ligados ao Google Maps, induzindo o mapa virtual a acreditar que havia trânsito por onde Weckert andou.

A Tilt, ele falou que a ideia é jogar luz não só em uma empresa, mas nos sistemas que usamos diariamente e que não sabemos como eles funcionam.

O trabalho do artista alemão deu certo porque o Maps tem dificuldades em diferenciar veículos que não sejam carros ou motos. Para o aplicativo, os smartphones seriam de pessoas em ônibus presas num engarrafamento. Weckert descobriu a falha ao acompanhar as manifestações do Dia do trabalhador, em 1º de maio, na Alemanha.

A multidão que estava nas ruas era, no Maps, linhas vermelhas que indicam trânsito. "Eu estava interrompendo o sistema ao participar dele", disse.

Giselle Beiguelman, artista e professora da FAU-USP, afirma que a instalação/performance usa as propriedades do Google Maps para modificar o funcionamento do mapa virtual e mostrar como ele funciona. "Isso não é tão óbvio para a maioria das pessoas. Elas em geral tomam esse processo como algo natural, uma mágica, um serviço que a empresa presta, sem levar em conta como ela presta", diz.

O Google Maps Hack parece brincar com as divisões real/virtual e analógico/digital. Para Sylvia Furegatti, professora do Instituto de Artes da Unicamp, a sensibilidade de Weckert não é de opor as duplas citadas, mas de combiná-las. É esse encontro que pauta o trabalho do alemão e de outros artistas contemporâneos.

Em seu trabalho, Weckert usa as próprias ferramentas digitais para mostrar como elas funcionam ao explorar as falhas do sistema. "Hack" foi a palavra usada por ele para definir o projeto, ao "usar objetos de maneira não usual e criar algo disso".

Um exemplo nesse sentido é o Forensic Architecture, grupo de pesquisa da Universidade de Goldsmith, no Reino Unido. A equipe interdisciplinar, formada de arquitetos e desenvolvedores a jornalistas e arqueólogos, investiga casos de violação de direitos humanos e de violência policial com base em fotos, vídeos, áudios e testemunhas.

Em "Triple-Chaser", eles usaram aprendizado de máquina para identificar um tipo de granada de gás lacrimogêneo usada em casos de repressão a protestos. O processo e o resultado tornaram-se um vídeo-instalação no Whitney, museu de arte contemporânea de Nova York, cujo vice-presidente do conselho era executivo da empresa que fabrica as granadas.

Forensic - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Nas imagens abaixo, modelos da granada Triple Acher sobre fundos com padrões diferentes para treinar a "visão computacional" que desenvolveram.

Forensic 2 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Forensic 3 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Forensic 4 - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Orientada pela prática de sistema aberto, a Forensic Architecture disponibiliza o material usado no site deles e cria exposições para mostrar como a investigação foi feita. Em 2018, o grupo foi selecionado para o Prêmio Turner, realizado pelo museu Tate de Londres e um dos mais relevantes da arte contemporânea britânica.

Em "Proxy Reverso", filme de ficção dos brasileiros Guilherme Peters e Roberto Winter, há o fluxo entre real e virtual ao longo da trama. Ele se passa em 2014 e conta a história de Davi Reis e Luís Pires, dois amigos que querem acessar dados do Vox Populi para mostrar que o instituto de pesquisa fraudou as pesquisas de intenção de voto para presidente daquele ano. Ele foi feito a partir da capturas de tela que mostram o que o personagem faz e as páginas dos sites à época da gravação.

Além de aspectos de criação e de inspiração, as tecnologias digitais são para o artista novos meios de exibir o trabalho e colocá-lo diante do público. Furegatti diz que, não fossem as plataformas digitais, não conheceríamos o trabalho desses artistas.

Entender como distribuir ou expor uma obra pelas mídias é o caminho explorado por Rafaël Rozendaal. Filho de brasileira, ele cresceu na Holanda e desde 2001 desenvolve "páginas na internet que são obras de arte que existem em muitos lugares".

Rozendaal fala que os sites são flexíveis no sentido de que qualquer um pode vê-lo em qualquer aparelho com internet. O que muda é o contexto. Ele traça um paralelo com a música, pois a relação muda a depender de onde ela é reproduzida, se quem a escuta está sozinho em casa ou com amigos em um festival.

Rafaël Rozendaal - Divulgação - Divulgação
Obra de Rafaël Rozendaal
Imagem: Divulgação

Já o Aarea.co é um site que expõe obras feitas apenas para ele. Cada trabalho é exposto individualmente e fica, em média, 20 dias no ar. Depois disso, o trabalho sai do ar e permanece o registro básico dele, como título e autor, sem imagens. Criado por Livia Benedetti e Marcela Vieira em 2017, o site não tem botões ou links, com exceção dos links para se inscrever na newsletter ou entrar nas redes sociais da página.

A ideia, explica Vieira, é que o site se transforme na obra, e a obra, no site. Em "One Square Kilometer", o Aarea.co se tornou uma tela preta de 1 km². Rolava e rolava o cursor para nada acontecer. O trabalho foi feito por Kenneth Goldsmith, artista americano e teórico da arte digital, e um dos poucos a mandar o código para a equipe do site.

Vieira fala que o Aarea.co quer pensar a internet como meio e lugar para mostrar a obra de arte. Um desafio é a questão dos arquivos dos trabalhos, porque manter todos disponíveis é custoso, requer manutenção e tornaria o site um repositório do que passou por lá. Isso acabaria com a ideia do site ser local para uma obra por determinado período de tempo.

O encontro entre arte e tecnologia proporciona uma série de reflexões. Jeitos de se fazer, modos de distribuir e lugares para mostrar são pontos recorrentes entre trabalhos contemporâneos. Há também espaço para questionar o que é real ou virtual, e interrogar as fronteiras entre público e obra. Se os artistas criam com que tem à mão, eles estão no começo do potencial artístico das mídias digitais.