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Explicamos toda a ciência que você ficou sem entender em Dark

Cena de "Dark", série da Netflix - Divulgação
Cena de 'Dark', série da Netflix Imagem: Divulgação

Ana Prado

Colaboração para Tilt

01/07/2020 04h00Atualizada em 04/07/2020 14h50

Se você chegou na terceira temporada de Dark, que estreou na Netflix no sábado (27), e ainda não entendeu esse lance de viagem no tempo e universos paralelos, nós vamos te explicar o que os físicos dizem de tudo isso. Você pode não ter reparado, mas a série usa esses conceitos da ficção científica para trazer uma reflexão sobre a natureza do tempo e o livre-arbítrio.

A história —que aborda três casos de jovens desaparecidos na cidadezinha de Winden, na Alemanha— volta para o passado, mas com isso deveria alterar também seu presente e futuro. Mas até que ponto é realmente possível provocar mudanças, se o passado e o presente do seu eu atual é o que levaram você a se tornar essa pessoa que viajou no tempo?

Para ajudar a compreender toda a complexidade da série, Tilt separou alguns conceitos-chave que se destacaram ao longo das três temporadas.

ATENÇÃO: esta matéria contém spoilers.

Caverna de Dark - Tilt - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
A emblemática caverna de Dark
Imagem: Reprodução/Instagram

A base teórica para as viagens no tempo

A primeira cena da primeira temporada de "Dark" traz uma citação de Albert Einstein:

A diferença entre passado, presente e futuro é somente uma persistente ilusão

A frase, tirada de uma carta que ele escreveu em 1955 para consolar a viúva de seu melhor amigo, faz referência ao conceito de espaço-tempo proveniente da sua Teoria da Relatividade Geral.

"Ela representa uma visão em filosofia da física conhecida como 'eternismo', ou seja, a ideia de que não há diferença ontológica entre tempos passados, presentes e futuros. Eu estou agora em São Paulo, mas uma localidade na Islândia tem o mesmo estatuto ontológico do lugar em que me encontro", explica Osvaldo Pessoa Jr., professor de Filosofia da Ciência da USP.

Nessa visão, abandona-se a ideia clássica de que o espaço é uma espécie de caixa enorme onde coisas acontecem e o tempo passa. A caixa passa a ser vista como um espaço-tempo, e o tempo vira mais uma dimensão da caixa. Assim, a realidade vira uma coisa de quatro dimensões.

Seguindo a ideia, podemos aceitar que todos os pontos do espaço existem em todos os instantes. Ou seja, o local onde você está agora existe neste momento, como existiu cinco anos atrás e também daqui a dez anos, então também é aceitável que todos os instantes existam em todos os pontos do espaço.

Assim, com passado e futuro estando ambos "aqui", em teoria deve ser possível acessá-los com a tecnologia correta. "São Paulo em 2020 e São Paulo em 3020 são apenas pontos diferentes dentro da mesma caixa de quatro dimensões, e não há porque não ser possível traçar uma trajetória ligando esses pontos", afirma o escritor de ficção científica e jornalista especializado em ciência Carlos Orsi.

A Relatividade Geral indica um caminho de como isso poderia ser feito. Segundo essa teoria, o espaço-tempo é maleável e pode ser deformado, ou "dobrado", pela presença de massa. A gravidade, por exemplo, é um efeito dessa curvatura causada pela massa do nosso planeta.

Na imensidão do universo, existem muitas dessas dobras, o que permite aos teóricos conceber os chamados buracos de minhoca —"atalhos" para viajar através do espaço-tempo, como o que existe em "Dark", na região das cavernas.

Jonas na terceira temporada de 'Dark', da Netflix - Tilt - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Jonas na terceira temporada de 'Dark', da Netflix
Imagem: Reprodução/Instagram

A circularidade do tempo e a liberdade de escolha

Ainda no primeiro episódio, "Dark" apresenta a ideia da circularidade do tempo (que, vale dizer, nunca foi defendida por Einstein): em vez de passado, presente e futuro se sucederem de forma linear, eles se conectam em um círculo infinito, tal qual o símbolo da cobra comendo o próprio rabo que aparece em diversos momentos na série.

Para alguns teóricos, esse conceito não é tão estranho. "A divisão passado, presente e futuro é bastante artificial", afirma Rodrigo Petrônio, escritor, filósofo e professor da FAAP. "Primeiro, porque tem a ver com o modo de organização narrativa que temos do universo a partir da linearidade da vida dos seres vivos. Eles é que nascem, crescem e morrem. Mas não podemos transpor essa lógica de seres finitos para um universo infinito".

O professor lembra que temos ainda uma visão muito limitada do universo. "Muitos eventos cósmicos que aconteceram há bilhões de anos ainda estão reverberando agora. Esse passado ainda está aqui, assim como várias combinações de linhas causais do futuro, que poderão emergir daqui a 10 ou 1 milhão de anos", completa Rodrigo.

Como o professor H.G. Tannhaus diz em "Dark", "o que conhecemos é uma gota, e o que não sabemos é um oceano".

Mas isso tudo levanta uma questão fundamental. Se passado, presente e futuro já existem e se repetem eternamente, como fica o livre-arbítrio? Ao voltarmos para o passado, teríamos qualquer poder real sobre ele?

Na série da Netflix, personagens tentam evitar a perda das pessoas que amam. Mas é justamente isso que acaba gerando aquilo que tentavam evitar. Na segunda temporada, Jonas volta para a noite em que seu pai teria cometido suicídio e, na tentativa de convencê-lo a não fazer isso, revela ter vindo do futuro. Michael fica perplexo, e esse encontro é que o motiva a tomar essa decisão.

A concepção circular do tempo está associada ao "eterno retorno" de Friedrich Nietzsche —filósofo que abre a segunda temporada. Trata-se da ideia de que todos os eventos no mundo se repetem na mesma sequência por uma série eterna de ciclos. Essa visão, como dá para imaginar, exclui a liberdade de escolha.

"Nietzsche foi um crítico contundente da ideia de livre-arbítrio", explica Scarlett Marton, professora de filosofia contemporânea da USP e uma das maiores especialistas brasileiras na obra do filósofo.

O livre-arbítrio também pode ser questionado sob a perspectiva global do espaço-tempo, segundo a qual todos os fatos já aconteceram e estão acontecendo. Assim, mesmo eventuais viagens no tempo já estariam "previstas" no grande esquema e não mudariam nada, ainda que fossem viagens ao passado.

Tilt - Martha na terceira temporada de 'Dark', da Netflix - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Martha na terceira temporada de 'Dark', da Netflix
Imagem: Reprodução/Instagram

Os paradoxos e os universos múltiplos

Mas esse emaranhado entre passado, presente e futuro dá origem a situações insólitas. Ao sumir na caverna, o personagem Mikkel Nielsen fica preso no ano de 1986. Lá, é adotado por uma enfermeira, ganha um novo nome —Michael—, cresce, se casa e tem um filho: Jonas Kahnwald. O mesmo Jonas que estava com Mikkel quando ele sumiu na caverna.

Depois, descobrimos que outra versão de Jonas apareceu naquele momento e levou o garoto a entrar ali —causando as condições necessárias para seu próprio nascimento, mais tarde. Ou seja, a existência de Jonas depende de Michael, que depende de Jonas, em um loop infinito conhecido como o paradoxo de bootstrap.

Segundo Orsi, esses paradoxos são causados pelas chamadas "curvas fechadas no espaço-tempo", quando uma trajetória começa e termina no mesmo lugar-instante. "Há quem use a ideia de paradoxos para defender que viajar no tempo é impossível, porque causaria a quebra de princípios como o de causa e efeito. E há quem use os paradoxos para defender a ideia de que conceitos como causa e efeito não são fundamentais e absolutos", completa.

Para lidar com esses paradoxos, a terceira temporada de "Dark" traz uma boa sacada, desta vez emprestada da física quântica: os universos múltiplos.

No fim da segunda temporada, Jonas é salvo do apocalipse por uma Martha Nielsen de outro universo. Na nova temporada, a história ocorre nesse mundo alternativo em que Mikkel não viaja no tempo e, portanto, não se transforma no pai de Jonas —que, então, nunca nasceu. Mas nesse universo, é Martha quem usa o casaco amarelo e quem, no futuro, se torna líder de uma sociedade secreta de viajantes no tempo.

Isso envolve o emaranhamento quântico, baseado em um conceito da mecânica quântica que pressupõe que partículas subatômicas podem estar em mais de um local ao mesmo tempo. Assim, uma partícula do seu corpo pode estar também a bilhões de anos-luz daqui simultaneamente —o que indica que você talvez também exista em outro lugar.

Em "Dark", isso é explorado por Tannhaus no penúltimo episódio da série. Ali, ele fala sobre o experimento mental do gato de Schrödinger, no qual haveria um instante em que um gato dentro de uma caixa com partículas radioativas estaria vivo e morto ao mesmo tempo.

As duas realidades existiriam até que a observação forçasse os átomos a um estado definitivo. Mas, segundo teorias de universos múltiplos, a coisa não acaba por aí. Ao abrir a caixa, você daria origem um universo paralelo em que, na mesma situação, encontraria um resultado oposto.

Mas, ao contrário do que a série sugere, não é preciso nenhuma catástrofe ou emaranhamento para isso: os universos se abrem cada vez que duas situações diferentes se tornam possíveis. Além disso, para a ciência, essa é uma teoria restrita ao mundo subatômico.

Do ponto de vista filosófico, no entanto, criar uma linha de tempo alternativa é uma boa saída para lidar com a bagunça provocada pelas viagens no tempo.

"Segundo o paradigma atual da ciência, não é possível viajar para o passado e alterar os acontecimentos passados. Mas uma 'linha de tempo alternativa', mais conhecida em filosofia como 'mundo contrafactual', pode ramificar a partir do mundo 'atual' (ou seja,aquele no qual nos encontramos, com toda sua história passada), a partir de diferentes instantes do tempo", explica Pessoa Jr.