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Como seria se... entrássemos em quarentena há 40 anos?

Larissa Ribeiro/Estúdio Rebimboca
Imagem: Larissa Ribeiro/Estúdio Rebimboca

Matheus Pichonelli

Colaboração para Tilt

02/04/2020 04h00Atualizada em 05/05/2020 13h57

"Poderia ser pior se tivesse acontecido 15 anos atrás. Todo mundo trancado em casa com um Nokia 3310, um pacote com apenas 20 SMS, dez horas de ligações e só um jogo da minhoquinha".

Sim, poderia ser pior — como lembrou o meme que se espalhou pelas redes sociais. E, quanto mais se olha para trás, mais difícil fica imaginar como seria para um millennial encarar a quarentena do novo coronavírus sem WhatsApp, mensagens de vídeo, lives, YouTube, streaming, stories de Instagram e apps de compras.

Está certo que, no começo dos anos 1980, quando nasceu a primeira leva dessa geração, se alguém perguntasse como seria a vida no planeta dali a 40 anos, seria difícil acreditar que, em vez de carros voadores e robôs-faxineiros, estaríamos uma hora dessas em casa trancados e sob as ameaças de uma pandemia e da peste da ignorância.

Mas acredite: embora a transmissão do vírus tenha acompanhado a dinâmica de um mundo cada vez mais compactado, onde pessoas, serviços e produtos circulam a toda velocidade, nunca houve tantas ferramentas para enfrentamento de crises do tipo como agora. Inclusive para suportar as (muitas) horas em quarentena.

Em vez de iFood, disk-pizza

O cenário da pandemia seria bem diferente 40 anos atrás. Os sons também — a começar pelo ruído dos panelaços, combinados em grupos de WhatsApp e mensagens compartilhadas em redes sociais.

Ao menos no Brasil, boa parte da população pouco seria afetada pelo "buzz" em torno da doença, já que cerca de 33% dos habitantes do país ainda viviam no campo e teriam pouco contato com pessoas infectadas do outro lado do mundo.

Nas áreas urbanas, onde a aviação civil e o transporte terrestre estavam em ascensão, o risco seria maior. Além disso, cidades como São Paulo viviam o auge do processo de adensamento e verticalização, e como acontece hoje, medidas de contenção seriam inevitáveis.

Tartarugas Ninja - pizza - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Pizza? Só ligando

Nas cozinhas dos apartamentos cada vez mais populares, nada de iFood e Rappi: ímãs de geladeira (para quem tinha geladeira) e páginas amarelas das listas telefônicas seriam o caminho obrigatório para acessar serviços que começavam a despontar há 40 anos, como disk-pizza e as chamadas tele-entregas.

Naquele ano, a capital paulista havia chegado à marca de 1,6 milhões de veículos, e uma saída para furar os congestionamentos eram as motocicletas de 125 a 250 cilindradas — a Honda CG 125 já era fabricada no Brasil desde 1976 e se tornaria o veículo mais vendido do país. Começava, assim, a história dos motoboys na maior cidade brasileira.

Nas cidades menores, a quarentena teria um impacto no fluxo do comércio de porta em porta, ainda comum na época. O leiteiro deveria evitar conversa nos portões. O Serjão, vendedor de queijo que passava uma vez por semana na frente de nossa casa em Araraquara com uma carroça, provavelmente teria de suspender a atividade.

Stranger Things walkie talkie - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Se, por um lado, uma infinidade de serviços e refeições ainda não estavam no cardápio dos apps — e deixariam de ser consumidos enquanto durasse a calamidade —, por outro não haveria tanta ansiedade com o fluxo de informações atualizadas em tempo real nos smartphones que levamos para a cama antes de dormir. Nem tanta preocupação com fake news e declarações destemperadas das autoridades eleitas.

Seria ainda maior a espera pelas edições dos jornais e revistas semanais, cujo desafio era reunir informações do mundo até o fechamento da edição em papel. Eu mesmo, enclausurado numa casa do interior, precisaria enviar este texto por fax. Ou carta. Ou ditar tudo por telefone —em um tempo em que telefone fixo era caro e conferia status ao seu proprietário, com direito a fila de espera e aluguel para gerar renda.

Sem ligações de vídeo, o jeito era esperar um horário de tarifa reduzida, provavelmente no fim de semana, para falar com familiares isolados em outras cidades. Ou descer para algum orelhão e apelar para as ligações a cobrar ou DDD (Discagem Direta à Distância) — não sem antes besuntar as fichas, o fio e o telefone do orelhão com álcool em gel, criado em 1966 pela estudante de enfermagem da Califórnia Lupe Hernandez.

Telegrafistas e operadores de telex seriam profissionais em alta em tempos pré-internet, que só chegaria aos lares na segunda metade da década de 1990.

Faça a Coisa Certa - Radio Raheem  - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

"We don't need no education..."

O rádio, fatalmente, seria o principal veículo de informação sobre a crise, reunindo as famílias ao redor do aparelho ao fim do dia, como acontecia no anexo descrito no "Diário de Anne Frank" em meio à Segunda Guerra Mundial. Nos intervalos, seria possível ouvir os sucessos da época. Em 1980, nenhuma música tocou mais na rádio do que "Balancê", de Gal Costa, seguida por "Another Brick in the Wall", do Pink Floyd.

Para tocar, nossas músicas favoritas ainda ocupariam um espaço importante das salas em quarentena, com caixas de som, aparelho e discos de vinil. O primeiro Compact Disc da história, o álbum "52nd Street" do Billy Joel, só seria comercializado em 1982.

A TV, até então, atingia apenas 55% de um total de 26,4 milhões de residências brasileiras, de acordo com o Censo daquele ano. Parte dos aparelhos ainda era em preto e branco e os telejornais —uma ferramenta importante de informação até mesmo na atual quarentena— sofriam censura até fevereiro de 1980.

Para distrair as crianças, não havia muitas opções na TV aberta além de programas como "Sítio do Picapau Amarelo" ou mesmo "Os Trapalhões". O jeito era apelar para os brinquedos da época, como os Comandos em Ação, a Boneca Bailarina e os carrinhos de controle remoto Stratus.

A programação ao vivo, como agora, certamente seria afetada, com atrações canceladas e eventos esvaziados.

A locadora Jason Champion Video, inspirada nas lojas dos anos 1980 - ReproduçãoReprodução - ReproduçãoReprodução
Imagem: ReproduçãoReprodução

TV a cabo? Streaming? Bem...

Em 2020, diante das contingências, muitos programas esportivos da TV paga tiveram de apelar para jogos históricos para tampar a programação regular. Quarenta anos atrás, até isso seria impossível, já que a TV por assinatura só seria regulamentada por aqui em 1988.

Não é preciso dizer que maratonar séries era tecnicamente impossível até a chegada do streaming. Caberia às autoridades transformar a velha e boa locadora do bairro em área de serviço essencial, com orientações para que os clientes buscassem, rebobinassem e desinfetassem as fitas VHS (seladas, claro) antes da devolução. Para as crianças, o maior sucesso da Disney naqueles anos ainda era "Bernardo e Bianca", de 1977.

Atari 2600 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Fogão a gás e Atari

Alguns equipamentos que facilitaram a vida nos apartamentos já existiam há alguns anos, como ar condicionado, a máquina de lavar e o Atari 2600. O preço, porém, ainda era um empecilho.

Estocar alimento para evitar contato social nos supermercados também não seria tarefa fácil, já que o primeiro freezer vertical do mercado foi lançado em 1978 e ainda não havia se popularizado. Assim como o micro-ondas, uma invenção de 1947 que só inundaria as cozinhas brasileiras ao longo da década de 1990. Um alívio, já que os primeiros equipamentos a esquentar salsichas com micro-ondas mediam quase dois metros de altura.

Lasanha congelada, portanto, era ainda comida de astronauta, e as lendas sobre ondas cancerígenas em seu interior levariam ainda alguns anos para se propagar no modo analógico de boca em boca.

Não sei vocês, mas se Marty McFly me chamasse para uma volta ao futuro, nem eu, que sou saudosista, pensaria duas vezes para embarcar a qualquer lugar onde pudesse enviar logo este texto por email para algum lugar do tempo e espaço.

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Errata: o texto foi atualizado
O programa Vila Sésamo saiu do ar no Brasil em 1977. O texto foi corrigido.