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Motoristas de apps como Uber perdem até 90% das corridas e querem taxa zero

Com isolamento social, SP tem menos pessoas nas ruas; reflexo é sentido por motoristas de apps - Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo
Com isolamento social, SP tem menos pessoas nas ruas; reflexo é sentido por motoristas de apps Imagem: Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

31/03/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Motoristas de apps se dividem entre os que pararam e os que seguem trabalhando
  • Quarentena derrubou número de corridas nos apps, afetando renda de condutores
  • Motoristas reclamam da postura dos aplicativos, e federação faz exigências
  • Ajuda de R$ 600 do governo também é criticada pelos condutores
  • Aplicativos remuneram apenas motoristas com diagnóstico da Covid-19 em casa

Marlon Luz tem 39 anos e, em meio ao surto de coronavírus, decidiu respeitar a quarentena e deixar o carro em casa durante o isolamento social pregado pelas autoridades de saúde. Já Yan Brauer tem 28 anos e segue nas ruas de São Paulo com seu carro, mas percebeu que o movimento caiu em 90%. Ambos são motoristas de aplicativos como Uber, 99 e Cabify e viram suas vidas mudarem durante a pandemia.

Assim como tantas outras categorias de trabalhadores informais pelo Brasil, os motoristas de aplicativos sofrem com a paralisação momentânea e necessária, segundo especialistas sanitários, para diminuir os casos de coronavírus no Brasil. Ao mesmo tempo, reclamam que as empresas em que operam não têm feito o suficiente para ajudar os chamados "parceiros" no atual momento.

Dependentes da renda obtida pelas corridas diárias e sem a possibilidade de fazer home office, ambos se viram como podem com seu dinheiro guardado que garante uma estabilidade momentânea. Mas, se a crise durar por muito tempo, ficarão sem recursos.

"Percebi que estava muito ruim e não valeria a pena ficar na rua. Posso ficar em casa, mas não muito tempo. Uma semana dá, mais do que isso não", diz Marlon.

Já Yan segue pegando viagens, mas não no mesmo ritmo de antes. "Estou na rua, mas não com a mesma carga horária. Reduzi minha meta diária: era de R$ 500 em 12 horas, agora é R$ 200 em oito horas", alega.

Samuel Xavier, 44, também está em casa depois de ver o ritmo de viagens desacelerar. Segundo ele, a frequência de viagens caiu de 2,2 por hora, nos primeiros dias de isolamento, para uma por hora, em média, depois que houve maior restrição. As promoções e incentivos dos aplicativos também sumiram, diz.

"Posso aguentar um mês sem fazer qualquer manobra, mas ainda não tenho opção se a quarentena perdurar além desse tempo. Voltar a dirigir é a única opção na manga", aponta ele, que tem procurado trabalhos online em sites como o 99freelas no período.

Adaptações em meio ao surto

Ambos afirmam que os motoristas estão com medo e preocupados. Em grupos, a sensação é de que mais da metade dos condutores optou por ficar em casa por medo de se contaminar. Outros precisam seguir rodando —os motoristas de aplicativos foram considerados serviço essencial.

Marlon Luz, motorista de app, optou por parar durante a quarentena - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marlon Luz, motorista de app, optou por parar durante a quarentena
Imagem: Arquivo pessoal

"Tem uma parcela de motoristas que foi para a rua se arriscar. São em geral pessoas que não têm estrutura financeira para ficar uma semana em casa, nem dois ou três dias. Precisa levar todo dia a janta do dia seguinte ou até do mesmo dia para casa. Esses motoristas foram se arriscar, mas longe de fazer a meta de R$ 200 a R$ 300 por dia, para fazer R$ 50 é quase impossível, caiu muito o movimento. As pessoas ficam em casa, então não precisam de Uber", conta Marlon.

Entre os que estão na rua, a solução é se adaptar.

"Reduzi ao máximo meus gastos. Bolei novas estratégias para consumir menos combustível e não coloco combustível todos os dias como colocava, só quando necessário. Passei a evitar comer na rua, faço em casa e trago marmita. E busco gastar sempre menos para conseguir sobreviver", explica Yan.

Ao contrário de Marlon, Yan tem carro alugado. Ele explicou que manteve o veículo porque as locadoras deram desconto aos motoristas de aplicativos enquanto durar a atual crise. Os dois avaliam trocar os passageiros pela entrega de comidas e outros itens.

R$ 600 do governo "é desumano"

Os motoristas de apps se enquadram na classe de trabalhadores informais que terão direito a R$ 600 mensais do governo como ajuda durante a pandemia do coronavírus, mas eles dizem que esse valor chega a ser "desumano".

Yan Brauer segue nas ruas de São Paulo mesmo durante quarentena - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Yan Brauer segue nas ruas de São Paulo mesmo durante quarentena
Imagem: Arquivo pessoal

"Não é suficiente, de forma alguma. Pode ser que ajude algumas pessoas, mas não é o suficiente para ninguém. Esse é um valor que, na minha opinião, é totalmente desumano. Não ajuda na diferença perdida. Chega a ser desrespeitoso", critica Yan.

Os motoristas citam os Estados Unidos como exemplo. Por lá, a ajuda para desempregados e trabalhadores informais será de US$ 600 por semana enquanto a crise durar. O país fez um socorro de US$ 2 trilhões com medidas econômicas durante a pandemia.

"O próprio governo manda as pessoas ficarem em casa. Então, tem que pagar pelo menos um salário mínimo. R$ 600 é só para não morrer de fome, é muito pouco", afirma Marlon.

"A ajuda de R$ 600 para MEI é super bem-vinda", discorda Xavier. "No caso de motorista de app, seria o equivalente a um faturamento de R$ 1.000, depois de descontar os gastos. Se o valor é suficiente? Não. Não paga a parcela do carro".

Exigência de taxa zero dos apps

A decepção dos motoristas é também com os aplicativos de transporte. Para os condutores, as empresas fazem menos do que deveriam pelos parceiros. Os motoristas afirmam que são incentivados a rodar com o carro, mas que estão expostos e não têm a mesma renda.

Tilt teve acesso a um ofício, enviado na última semana pela Fembrapp (Federação dos Motoristas por Aplicativo do Brasil) às empresas de aplicativos, em que são feitas exigências como:

  • Zerar a taxa tirada dos condutores nesse período;
  • Antecipação do prêmio por produtividade anual;
  • Criação de uma linha de crédito para motoristas com juros menores que bancos para pagamento após a pandemia.

"Estamos conversando com os aplicativos, mas o retorno é zero e as soluções apresentadas são as que eles acham viáveis, e não o que a categoria precisa. Nós que temos a visão real das nossas necessidades e condições de trabalho no dia a dia", disse ao Tilt Eduardo Lima de Souza, presidente da Fembrapp.

Segundo Eduardo, a preocupação dos motoristas é de não ter dinheiro para pagar contas ou a prestação dos veículos. Zerar a taxa tirada de cada corrida amenizaria um pouco a escassez de passageiros para os que ainda quiserem trabalhar. Para ele, o impacto da pandemia sobre a categoria será "catastrófico" e as ações tomadas até agora pelos apps são "muito fracas".

Outro lado

Em contato com Tilt, a Uber se limitou a reforçar medidas anunciadas recentemente. Entre elas, está um desconto em consultas médicas (pagas pelo motorista) por meio de uma parceria sem necessidade de anuidade aos condutores. Motoristas com coronavírus ou suspeita de ter contraído a doença receberão nos 14 dias da quarentena um valor por dia correspondente à média diária que faz no app. A companhia também tem dado orientações de prevenção, mas sem oferecer equipamentos aos motoristas —condutores afirmam que ao menos a empresa oferece reembolso de álcool em gel comprado.

Já a 99 disse que "monitora diariamente os cenários envolvendo a pandemia do novo coronavírus e seus impactos no transporte de passageiros por aplicativos" e aponta que "a prioridade é garantir a saúde dos usuários e dos motoristas parceiros". A empresa afirma orientar sobre medidas de prevenção e contar com um fundo para ajudar motoristas que sejam diagnosticados com a doença. Além disso, está fazendo doação de corridas em diversas cidades do Brasil, em que 100% dos valores são repassados aos motoristas.

A Cabify, por sua vez, criou um comitê de trabalho para monitorar os desdobramentos causados pelo coronavírus no Brasil. O app ainda elabora possíveis ações e projetos para a atual quarentena, além de oferecer recomendações sobre prevenção, mas ainda não anunciou nenhuma medida direta.

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