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Caos nas cidades: por que semáforos pifam sempre que chove?

Semáforos quebrados são comuns em dias de chuva - UOL
Semáforos quebrados são comuns em dias de chuva Imagem: UOL

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

03/03/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Você já deve ter se deparado com cena comum: chove e semáforos pifam nas cidades
  • Problemas são de instalação, conexões, emendas, fuga de correntes, energia e outros
  • CET coloca culpa principal em furto de cabos e vandalismo na capital paulista
  • Conserto dos semáforos dura em média duas horas, mas pode ser maior em casos graves

É só estacionar o carro na rua sob chuva forte que a irritação começa: é semáforo pifado aqui, outro piscando ali, e um caos no trânsito de deixar qualquer um maluco. Se não tem jeito de escapar, o jeito é ao menos entender o motivo disso e por que nunca é resolvido - além de aceitar a situação, já que assim dói menos.

Por trás dos semáforos piscando ou pifados completamente, existem sistemas em pane. E essas panes podem ter diversas razões, como quedas de energia ou até problemas próprios dos semáforos. Mesmo furtos nas cidades contribuem muito para isso.

O mais interessante disso tudo é que existe um problema antigo e um mais moderno. Antigamente, o problema passava pelos cabos regulares aéreos mais sujeitos a intempéries. Isso foi resolvido em alguns locais, usando cabos com fibras ópticas em cidades como a capital paulista, como explica o professor Sergio Ribeiro Augusto, do curso de Engenharia Eletrônica do Instituto Mauá de Tecnologia.

"Sistemas atuais são processados como se fossem um minicomputador. No passado, os controladores estavam conectados ao sistema de controle. Tinham cabos aéreos e eles pifavam com raios. Hoje em dia, isso foi resolvido em parte; usam GPS, e a comunicação entre os controladores das centrais é por fibra óptica, então diminuiu em locais como São Paulo, que já não é tão afetada por raios", explica.

O problema mais comum daí, também segundo o especialista, envolve instalações de semáforos e conexões. O fato de os equipamentos estarem expostos ao tempo acaba complicando a vida útil deles e causando problemas.

"Hoje os controladores são bem mais robustos, mas como estão expostos ao tempo, têm problemas de instalação do semáforo, problemas das conexões. Aí quando chove, tem muita umidade. E propicia problemas de corrente elétrica. Daí o semáforo pode sair de operação", conta o professor.

Uma das críticas comuns de especialistas em transporte público é que cidades como São Paulo não têm uma padronização de semáforos. Cada licitação foi feita de um jeito, até com empresas que já fecharam e não têm os dados abertos. Esse, por sinal, é um desafio para a cidade inteligente do futuro, com semáforos realmente inteligentes e que fiquem menos sujeitos a problemas.

Em meio aos transtornos, uma coisa é clara: semáforos mais antigos têm mais chances de pifarem do que os mais novos, obviamente. As falhas, de acordo com o professor Sergio Augusto, envolvem elementos como instalação, envelhecimento, conexões, emendas, fuga de correntes, energia, entre outros.

Roubos de cabos e falhas de energia

Em contato com Tilt, a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) apontou que a principal causa de problemas em semáforos é o furto e vandalismo —fator também citado pelo professor do Instituto Mauá.

De acordo com a companhia, em 2019 foram identificadas "2.010 ocorrências de vandalismo, compreendendo furtos e roubos de componentes semafóricos da cidade de São Paulo". A capital paulista é o maior parque semafórico do Brasil, com cerca de 6.500 cruzamentos controlados dessa forma.

"Entre janeiro e dezembro de 2019 foram 206 ocorrências em controladores e 1.804 em cabos elétricos. A extensão dos cabos furtados corresponde a aproximadamente 185 quilômetros de cabos elétricos. Vale ressaltar que o centro da cidade é a área onde há a maior incidência desse tipo de crime. A CET mantém canal aberto com a polícia militar, polícia civil e GCM para combater essas ocorrências", aponta o órgão.

O professor Sergio Ribeiro Augusto explica que roubos de cabos podem levar a emendas que sofrem com o tempo e que geram problemas em dias chuvosos, com a presença da umidade. A CET ainda cita outro problema: o corte de energia que rola em dias de chuva. Tilt perguntou se o órgão tem números de ocorrências de semáforos quebrados em dias de chuva na capital, mas não obteve uma resposta até o fechamento desse texto.

"São vários fatores que podem causar a interrupção de seu funcionamento, como o rompimento de cabos por queda de árvore, vandalismo, furto da fiação elétrica, furto de controladores, e, nos dias chuvosos, o corte de energia que provoca desligamento ou falha na programação do equipamento", diz a CET.

Após o problema, vem o conserto, que pode levar mais tempo do que muita gente gostaria. Hoje o gerenciamento é remoto, mas a maioria dos reparos precisa ser feita presencialmente e varia conforme a gravidade do caso. A CET aponta que o tempo médio para conserto é de duas horas, mas ele pode ser menor em casos mais simples ou maior nos mais graves, como os furtos de equipamentos.

O que é o amarelo piscando?

Além do problema do semáforo apagar totalmente, existe um outro bem comum: o amarelo piscando, que ocorre geralmente em dias chuvosos, mas também aparece volta e meia quando sequer caiu uma gota. O que poucos sabem é que ele representa uma configuração de segurança para o equipamento.

Os semáforos têm um sistema que impedem, por exemplo, que haja uma indicação de sinal verde para dois lados de um cruzamento. O controlador do semáforo conta com uma tabela de fases (vermelho, amarelo, verde) que impede que as cores se repitam entre dois lados —como ambos funcionarem com o verde, o que causaria acidentes.

"Isso pode ser ocasionado por uma fuga de corrente ou problema de instalação em que você tem um fio que tenta ativar uma lâmpada que não poderia. O sistema detecta isso e vê que tem alguém ali querendo dar um verde conflitante. Ele então desliga o sistema e entra no modo de segurança amarelo piscante, para evitar que mostre verde para ambos os lados", aponta Sergio Augusto.

O modo de segurança também entra em ação se for detectada a "falta do vermelho". Se um semáforo tem um problema com a lâmpada vermelha, ficando verde de um lado e apagado em outro no cruzamento, a falha é detectada e o amarelo piscante novamente é acionado para evitar acidentes. Em dias de chuva, casos do tipo podem piorar pelos problemas citados de umidade e falhas em instalações.

Por trás desse amarelo piscante também está exposta uma falta de tecnologia. Segundo especialistas ouvidos por Tilt, os semáforos podiam ter uma "reprogramação automática" e evitar que saiam de funcionamento por horas. Algo semelhante já ocorre para a energia elétrica.

Cabo subterrâneo é solução?

Uma das formas de evitar o problema recorrente nos semáforos, de acordo com o professor, é a manutenção preventiva. A atualização e modernização dos sistemas também é outro ponto.

A CET afirma que está finalizando um novo edital de modernização do sistema para abrir processo de licitação. Na licitação entrarão elementos como atualização dos equipamentos e das tecnologias.

Uma das previsões do modelo é que os fios semafóricos sejam transferidos ainda mais para o subterrâneo. Se isso ocorrer, eles ficarão menos sujeitos a ações do tempo, umidade e intempéries, além de acabarem mais protegidos de roubos.

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