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Choveu e a luz piscou? Como a tecnologia impede que a energia caia de vez

Em chuvas, tem sido cada vez mais comum luz de casas apenas piscar - Getty Images
Em chuvas, tem sido cada vez mais comum luz de casas apenas piscar Imagem: Getty Images

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

04/02/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Já deve ter rolado com você: é comum em chuvas luz de residências piscar
  • Razão disso está em novas tecnologias para evitar que ela se apague totalmente
  • Empresas têm digitalizado redes de energia e instalado novos equipamentos
  • Solução ideal é a rede subterrânea, mas isso ainda é um sonho distante

O verão é sempre igual: as chuvas torrenciais caem no quintal. Só não queremos que caia a energia porque, não tem jeito, ela é vital. Paródias à parte, com as tempestades vem também a chatice de ter o fornecimento de energia elétrica interrompido na sua casa. Você pode não ter reparado, mas tem sido cada vez mais comum que a luz apenas pisque em vez de cair. Afinal, por que isso rola?

Por trás desses poucos segundos que nos assustam e nos fazem temer pelo pior, existe uma série de processos e tecnologias envolvidas, que foram reforçados nos últimos anos ao longo da fiação. Por exemplo, religadores automáticos e equipamentos que fazem uma reconfiguração da rede, caso uma falha seja notada.

Isso tudo faz parte da digitalização dos sistemas de energia que vão para nossas casas.

A digitalização da rede

A ideia de digitalizar a rede é tornar alguns processos automáticos, sem que haja a necessidade de um deslocamento de equipe para o local. O sistema que fornece energia fica mais "inteligente" e menos dependente de humanos, que não precisam mais ser uma "babá" de qualquer pequeno problema na rede.

Em meio a isso, está um dos principais responsáveis pela "piscada" de luz na sua casa: os religadores automáticos. Esse instrumento faz com que interrupções na energia elétrica durem apenas alguns segundos, em vez de horas como ocorria antes. Ele atua quando, principalmente durante uma chuva, algo acaba criando um curto-circuito na fiação exposta das ruas.

"Antigamente, quando chovia e ventava, acontecia de uma fase encostar na outra, gerando um curto-circuito. O curto-circuito é quando uma corrente aumenta, o que faz a tensão elétrica cair e apagar a lâmpada", explica o professor Edval Delbone, coordenador do curso de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia.

Era o que acontecia, por exemplo, quando um galho caía no fio. Antes, isso gerava um curto-circuito e uma equipe precisava ir até o local para corrigir a falha, algo que poderia levar horas. Hoje os religadores automatizaram o processo.

"No passado, a rede desligava e abria o fusível. A equipe via que não tinha rompido nenhum fio e religava a rede. Hoje isso é feito automaticamente, fica alguns segundos desligado e tenta religar uma, duas vezes. Se no terceiro ciclo de religamento o curto continuar, fica desligado", aponta Saulo Ramos, diretor de operações da Enel em São Paulo.

Segundo a concessionária de energia que abrange 24 municípios na Grande São Paulo, o número de religadores passou de 1.200 em 2015 para 7.700 no final do ano passado. Esses equipamento são uma espécie de caixa que ficam na metade do poste e já são vistos por aí, como aponta Sérgio Sevileanu, especialista em redes da Siemens - a empresa tem parceria com a Cemig para digitalização dos sistemas em Minas Gerais.

"O religador parte da premissa que algumas falhas são transitórias. Como um galho que se solta da árvore. A tendência é continuar caindo e ir para o chão. O religador percebe o curto antes da estação e desliga o circuito por alguns segundos e volta a tentar ligar depois de um tempo. A expectativa é que quando religue o galho tenha terminado a queda e não exista mais o curto-circuito", explica Sevileanu.

De acordo com os especialistas, essas piscadas de luz geralmente não causam danos a equipamentos - seria como remover o aparelho da tomada e uma possível falha dependeria do tipo de equipamento.

"O risco não é tão grande. O pior risco é a descarga elétrica. A descarga gera a tensão que aí sim danifica os eletrodomésticos. Tem um risco, mas não é tão grande quanto a descarga, é como tirar da tomada. Quando tira da tomada pode criar um transitório, mas não é tão danoso quanto uma sobretensão na rede", diz o especialista da Siemens.

Autoreconfiguração também ajuda

Outra tecnologia que tem evitado que quedas de energia durem por mais tempo é uma "autoreconfiguração da rede". Essa nova tecnologia é mais robusta do que os religadores e depende de mais fatores - além disso, a "piscada" sentida nesses casos pode ser um pouco mais longa.

A reconfiguração da rede ocorre em casos mais graves, como uma queda de uma árvore sobre um poste ou fios. O curto-circuito gerado não é resolvido simplesmente pelo religador e, nesses casos, uma região ficará sem energia. Mas a intenção é que o número afetado seja diminuído com a autoreconfiguração.

"Vamos supor que uma árvore caia sobre a rede e fica um trecho da rede com dano. Na autoreconfiguração esses equipamentos identificam onde está o defeito, vão isolar essa falha e reenergizar todos os outros clientes por meio de uma reconfiguração dos postes que levam energia. Digamos que dez mil pessoas são afetadas inicialmente. Dessas, oito mil podem ser beneficiadas com a autoreconfiguração e vão só sentir uma piscada mais longa", conta Ramos.

Em São Paulo, a Enel aponta que os sistemas de autoreconfiguração passaram de 20 em 2015 para 3.200 no fim do ano passado. A concessionará ainda instalou 7.200 "localizadores de faltas" desde 2017 - essa tecnologia é colocada pela rede para que o defeito seja mais precisamente localizado e, assim, a equipe em campo não tenha que procurar em todo o sistema para identificar onde está a falha.

E a rede subterrânea?

Todos esses problemas, claro, poderiam ser evitados se a rede fosse subterrânea, como já ocorre em vários países mais desenvolvidos e apenas em algumas áreas aqui no Brasil. Para o diretor da Enel, o aterramento da rede não é um sonho, mas é algo caro e que precisa de mais incentivos.

"É um investimento muito expressivo, é mais cara que a rede aérea. A Enel é regulada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), e a Aneel não considera o aterramento como investimento. Para ser realidade, o estado e o município precisam entrar com uma parcela, as empresas com uma parcela, e a Aneel precisa liberar uma tarifa diferenciada para essa região. Digamos que foi enterrada uma região nobre, essa região poderia ter uma tarifa maior depois de atestada a qualidade maior da região com o enterramento", alega Saulo Ramos.

Em São Paulo, apenas algumas poucas regiões tem a rede subterrânea. Entre elas, parte do centro de São Paulo, a avenida Paulista e partes de regiões nobres como a Vila Olímpia e Itaim. Para o especialista da Siemens, a rede subterrânea faz parte apenas de um "futuro ideal".

"Em um futuro distante podemos ter as redes subterrâneas que iriam aumentar infinitamente a qualidade do fornecimento. Além de evitar acidentes como galho e carro que bate em poste, também fica mais protegido das descargas atmosféricas. Na Alemanha a maior parte do país é assim. As concessionárias não fazem porque é mais caro, precisa de obra civil mais complexa. Esse seria o cenário ideal", opina Sevileanu.

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