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Com app próprio, Bolsonaro fideliza seguidor e afasta a crítica (e a nação)

App Mano, que conta com um canal sobre Jair Bolsonaro - Reprodução
App Mano, que conta com um canal sobre Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução

Márcio Padrão

Do UOL, em São Paulo

11/04/2019 04h00

O presidente Jair Bolsonaro, sabemos, usa intensamente as redes sociais para manter uma comunicação mais direta com a população. Ao mesmo tempo, costuma dizer que empresas como o Facebook e Google supostamente censuram o conteúdo de políticos de direita, como ele. Por isso, ele e seus apoiadores adotaram vias alternativas de comunicação online.

Uma das soluções para evitar esse tal boicote é o app Mano, no qual o presidente mantém um canal com mais de 200 mil inscritos. A ferramenta, desenvolvida por uma empresa de Rio Bonito (RJ) no ano passado, reúne canais para transmissões de vídeo online (IPTV).

Segundo o filho do presidente Flávio Bolsonaro, hoje senador pelo PSL-RJ, disse em vídeo no YouTube publicado em julho do ano passado, pouco antes da campanha eleitoral, a conta do pai foi criada no Mano numa tentativa de escapar dos limites impostos pelo Facebook, que teria reduzido o alcance das postagens:

Eles [o Facebook] entregam aquilo que a gente posta para uma parcela muito pequenininha dos nosso seguidores e, para combater isso, a gente está criando uma plataforma própria, um canal chamado TV Bolsonaro

No vídeo, o político pede que as pessoas assinem o canal para que recebam notificações de todas as atividades do presidente.

O presidente não faz postagens pessoais no canal, como costuma fazer no Twitter. Divulga mais vídeos e links de páginas favoráveis a ele, como "O Antagonista" e "TV Cidade News".

Uma das notícias publicadas ali veio de uma emissora de TV de Brasil Novo, no Pará, que elogiava efusivamente o trabalho do ministro da Justiça, Sergio Moro, por exemplo.

Como é o Mano

A interface do canal inclui um player no topo, que exibe ao longo do dia vídeos gravados ou ao vivo sobre as ações do governo federal. O UOL observou que uma das lives do Facebook de Bolsonaro também foi exibida simultaneamente no Mano.

Na parte de baixo da janela, os usuários online podem deixar comentários, que vão rolando a tela, de forma muito similar ao WhatsApp. Além de textos e emojis, dá para enviar fotos e vídeos. Quase todo o conteúdo ali é político, pró-Bolsonaro ou pró-direita.

O Mano tem outros canais de conteúdo --vimos um quiz de prêmios, com 133 mil inscritos, e outros veículos locais, como Band Amazonas, Mix Manaus e TV Conquista (MT). Mas o canal de Jair Bolsonaro é o maior de todos.

A Ip.TV, a empresa desenvolvedora do app Mano, afirma não ter nenhum viés ou vínculo político. Também nega que haja algum tipo de parceria ou elo com a família Bolsonaro. Segundo ela, o app ainda não deu lucro porque não foi criado para fins comerciais, mas para possível expansão de atividades da empresa.

O aplicativo está aberto à adesão de qualquer pessoa, grupo ou associação que deseje fazer parte dessa nova rede social. No ano passado, Flávio Bolsonaro criou um canal e, assim como se deu em outras redes sociais, seu canal atraiu interessados em quantidade compatível com a notoriedade da família Bolsonaro
Bruno Silva, diretor jurídico da IP.TV

Rede social Opinne, voltada para apoiadores de Jair Bolsonaro - Reprodução
Rede social Opinne, voltada para apoiadores de Jair Bolsonaro
Imagem: Reprodução

Como é a Opinnee

Mais recentemente surgiu a rede social Opinnee, criada por Max Ferreira, para atender aos seguidores do presidente. Eles andaram migrando para a rede social Gab para fugir do Facebook, mas agora começam a construir plataformas próprias.

Ferreira, assim como a família Bolsonaro, acredita que as grandes redes sociais não dão espaço adequado ao espectro político de ultradireita, por isso defende a criação de um canal de interação específico para este público. Ele faz críticas às moderações e ao combate a boatos das maiores redes sociais.

Segundo ele contou em uma entrevista ao site Conexão Política, a ideia da Opinnee veio após Bolsonaro levar uma facada.

A Opinnee, pra mim, é isso; um projeto que surgiu aqui no Brasil e que pode conquistar o mundo. E neste contexto, enviando uma espécie de recado para as plataformas atuais, dizendo que não se deve tirar a voz do povo independente de ideologia
Max Ferreira

A interface da nova rede social é muito similar à do Facebook, com um feed de notícias no centro da tela; sugestões de amigos à direita; e um menu à esquerda para outras áreas da plataforma, como álbuns, posts em alta e notícias.

A aba de conteúdo noticioso traz posts mais opinativos --na época que a reportagem entrou, havia títulos como "Se O Crime Compensa, Imagina A Canalhice" e "A Cilada Microabortiva: Um Risco À Moral Cristã".

Ferreira afirma que a plataforma é independente e por isso pede doações aos entusiastas via Paypal. Enquanto ainda espera tornar-se um sucesso entre os bolsonaristas, ele alimenta seu perfil no Opinnee com memes e textos. Procurado, ele não respondeu ao pedido de entrevista do UOL.

Perigo de isolamento

Nenhuma das duas iniciativas pode ser considerada um sucesso de público, mas levanta um alerta para o risco de o presidente da República falar apenas para uma audiência extremamente favorável.

São 200 mil inscritos do canal de Bolsonaro no Mano, contra 3,9 milhões no Twitter, 10,7 milhões no Facebook e 2,3 milhões no YouTube. No Opinnee, os seguidores são quase nulos.

Então, as alternativas servem mais para fidelizar um eleitor cativo. Ali, os políticos estão livres de ataques, críticas ou qualquer escrutínio público.

Falar diretamente com seus eleitores aproxima o presidente, por exemplo, de parte da população que valoriza a autenticidade e a comunicação direta dos políticos.

"Políticos ao redor do mundo acreditam cada vez mais que Facebook e Twitter são as melhores ferramentas para falar com sua audiência --sem filtro, sem intermediário, só 'papo reto'. Eu acho que eles estão totalmente certos. A mídia tradicional é frequentemente hostil a essa nova geração de líderes", afirmou Brian Winter, analista de política latino-americana da "Americas Quarterly", ao UOL.

É claro que Bolsonaro adotou esse estilo para aproximar-se da população; a dúvida é que população é essa. O Brasil tem 208,4 milhões de habitantes, mas a internet não chega para quase metade das pessoas. Das dezenas de milhões de internautas do país, nem todos usam as redes sociais a que o presidente recorre. Menos ainda são seguidores do presidente.

O problema é Bolsonaro, o presidente de mais de 200 milhões de pessoas, se comunicar só com uma parcela delas.

O UOL procurou as assessorias de imprensa do presidente e do senador Flávio Bolsonaro, mas não houve retorno.

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