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Revolução? Celular com tela dobrável nasce enjaulado e com dobra tímida

Samsung Galaxy Fold não pode ser tocado por ninguém durante o MWC - Getty Images
Samsung Galaxy Fold não pode ser tocado por ninguém durante o MWC Imagem: Getty Images

Helton Simões Gomes

Do UOL, em Barcelona (Espanha)*

01/03/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Samsung e Huawei lançaram seus modelos de celular com tela dobrável na MWC
  • A revolução, no entanto, frustrou quem quis ver de perto como as dobras funcionavam
  • Alguns analistas acreditam que os celulares ainda não estão prontos

A maior revolução nos smartphones dos últimos 10 anos ganhou corpo nesta semana, mas a maioria das pessoas só pôde vê-la a metros de distância através de uma gaiolinha de vidro, como se os celulares dobráveis fossem obras de arte e não produtos de consumo com data certa - e até preço - para chegar às lojas.

Os smartphones dobráveis eram para ser as estrelas da edição deste ano do Mobile World Congress (MWC), realizado em Barcelona, na Espanha, e que termina nesta quinta-feira (28). Foram, porém, enjaulados e mantidos longe das mãos dos visitantes do maior evento de tecnologia móvel.

A estreia foi classificada como "bizarra" por alguns especialistas. Ainda assim, há quem diga que a possibilidade de carregar um smartphone que se transforma em um tablet mudará o jeito como você lida com dispositivos móveis e pode abalar outros segmentos de eletrônicos.

A bizarrice não começou em terras espanholas. Quando a Samsung lançou seu dobrável, o Galaxy Fold, que ofuscou o aguardadíssimo Galaxy S10, já havia indícios de que as únicas coisas a serem dobradas seriam as expectativas dos fãs de celulares. Logo após apresentar os aparelhos em San Francisco, a sul-coreana mostrou a jornalistas, analistas e convidados que foram ao evento as três versões do S10. Mas nenhum Fold.

Quatro dias depois, foi a vez da Huawei apresentar já em Barcelona a sua aposta no novo segmento, o Mate X. A feira abriu no dia seguinte, e a configuração dos estandes da líder e vice-líder em vendas de celulares no mundo sugeria que uma batalha pela atenção dos visitantes estava prestes a acontecer, já que Samsung e Huawei estavam uma de frente para a outra.

Galaxy Fold aberto tem tela de 7,3 polegadas - Gabriel Ribeiro/UOL
Galaxy Fold aberto tem tela de 7,3 polegadas
Imagem: Gabriel Ribeiro/UOL

Antes da abertura dos dois espaços ao público, uma cena curiosa mostrou que a disputa seria, na verdade, para ver quem decepcionava mais. Durante quase 15 minutos, o UOL Tecnologia presenciou cinco funcionários da Samsung se revezarem para solucionar um problema com o Fold.

A tela do Huawei Mate X abre no sentido contrário ao do Galaxy Fold - Divulgacão
A tela do Huawei Mate X abre no sentido contrário ao do Galaxy Fold
Imagem: Divulgacão

Uma falha técnica o impedia de rodar o vídeo promocional que deveria tocar enquanto estivesse exposto, não sobre mesas como outros celulares, mas, sim, dentro de uma caixa de vidro. Essa estratégia, de mostrar e não deixar tocar, foi adotada pela Huawei logo ali em frente.

A Huawei decidiu exibir o aparelho em outro estande. Por lá, cometeu a ousadia de permitir que expositores segurassem um Mate X para quem quisesse ver o aparelho fora do aquário. Os curiosos que não mantinham as mãos nos bolsos eram cortados com ordens de "Não toque". Isso, é claro, se você não fosse ministro de Estado. Marcos Pontes, titular da pasta de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC), colocou as mãos no aparelho durante um encontro com executivos da Huawei.

Os funcionários ainda manipulavam o smartphone para atender a pedidos como "Ligue a câmera", "Mostre a parte de trás" e "Abra esse app aqui". A única solicitação que recusavam era a de dobrar o celular completamente. Ao UOL Tecnologia, um deles disse que a restrição era para preservar o aparelho ao longo dos quatro dias de feira.

A promessa alardeada pela Huawei - e também feita pela Samsung para o Fold- é que o Mate X pudesse ser dobrado ou desdobrado cerca de 100 mil vezes antes de começar a apresentar algum problema.

Galaxy Fold: conheça o celular dobrável da Samsung

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Fluxo que, durante a feira, só poderia ser alcançado se o telefone fosse aberto ou fechado mais de 45 vezes por minuto durante todas as cerca de 37 horas em que foi exposto.

Ao ser questionado sobre o assunto, David Moreno, diretor de relações públicas da Huawei para a América Latina, disse que a precaução foi tomada porque o aparelho provavelmente deve ser um protótipo. Entre os analistas, a opinião é de que tanta cautela sugere que os aparelhos foram anunciados antes de estarem prontos.

São projetos que as empresas têm desenvolvido por anos, mas talvez tenham acelerado para poder mostrá-los agora. O fato de não poder tocá-los é realmente bizarro e pode significar que não estejam totalmente prontos"

Roberta Cozza, diretora sênior de pesquisa da Gartner

Mate X: conheça o smartphone dobrável da Huawei

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Outros dobráveis

Outras empresas também apresentaram protótipos de celulares com telas dobráveis: a TCL manteve o seu em um aquário e a Oppo só mostrou fotos em sua conta no Twitter.

A fabricante de baterias Energizer chegou a listar um celular dobrável no catálogo de produtos a serem exibidos, mas não levou nenhum para o estande. Quando questionados, os funcionários diziam que a empresa não conseguiu produzir um modelo a tempo da feira porque Huawei e Samsung compraram todas as telas flexíveis dos fornecedores disponíveis.

Ainda que o Mate X não pudesse ser tocado durante seu debute, a Huawei fixou data para vendê-lo e até preço: isso acontecerá até o meio do ano a um custo de US$ 2.600 (R$ 9.699) - entre o fim de 2019 e início de 2020, chega ao Brasil. A Samsung marcou o início das vendas do Fold para 26 de abril por US$ 1.980 (R$ 7.386).

Richard Yu, CEO do grupo de consumo da Huawei, admitiu que o aparelho é muito caro. Analistas concordam que esse precinho, que faz dos dois celulares os mais caros do mundo, será um problema.

Bryan M, vice-presidente de pesquisa de aparelhos da IDC, disse o seguinte sobre o Fold:

"Não será um grande impulsionador de volume a esse preço."

Cozza, do Gartner, acredita que os aparelhos podem ser enquadrados em uma categoria acima da dos celulares premium."É um aparelho de luxo. O preço é maior porque a tecnologia de fabricação é muito complexa." 

A Strategy Analystics estima que sejam vendidos 1,2 milhão de celulares dobráveis no mundo em 2019 e que esse número chegue a 64,9 milhões até 2023.

Para conseguir isto, porém, as fabricantes terão que superar o ceticismo de quem acha que os aparelhos não são tudo isso.

"Parece uma solução para um problema inexistente, e a maioria dos consumidores acha que é muito caro - é um produto que ainda está em estágio inicial. Estamos na Idade da Pedra do aparato flexível", diz Ben Wood, analista da consultoria de tecnologia CCS Insight.

Caro e feito de uma tecnologia aparentemente inacabado. Por que então os aparelhos dobráveis surgiram agora?

"As fabricantes quiseram acelerar o lançamento não por acreditarem que vender muitos deles, mas porque isso traz visibilidade para a marca, as transforma em uma líder em tecnologia. É importante obviamente porque os dobráveis têm o potencial de serem a próxima sensação entre os smartphones", diz Cozza.

Só que nem todas as fabricantes estão na mesma situação. "Mais do que Huawei, a Samsung está sob pressão para mostrar que pode surgir com algo novo, de que ela é capaz de produzir a próxima sensação. A Huawei foi esperta porque deu um preço maior ao aparelho para passar a mensagem: 'Nós podemos ser líderes aqui: temos algo melhor que até custa mais'."

A diretora da Gartner acredita, no entanto, que os celulares dobráveis são a maior novidade já surgida no mundo dos celulares inteligentes. A possibilidade de migrar de uma tela tradicional para uma maior apenas abrindo o smartphone pode condicionar o comportamento do consumidor, diz ela. A Samsung, por exemplo, mostrou que será possível usar três aplicativos ao mesmo tempo, o que pode tornar os usuários mais produtivos.

Cozza diz ainda que, com o lançamento dos dobráveis, as fabricantes podem ter atirado no que viram e acertado no que não viram. O surgimento de um smartphone capaz de se desdobrar para colocar nas mãos das pessoas uma tela maior pode involuntariamente atingir as vendas de tablets de tamanho médio.

*O jornalista viajou a convite da Huawei

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