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Por que o divórcio de Jeff Bezos deve preocupar os investidores da Amazon

Jeff e MacKenzie Bezos anunciaram divórcio no início de 2019 - Jorg Carstensen/AFP
Jeff e MacKenzie Bezos anunciaram divórcio no início de 2019 Imagem: Jorg Carstensen/AFP

James B. Stewart

23/01/2019 04h00

Jeff Bezos e sua mulher, MacKenzie, podem ser o primeiro casal bilionário com uma participação grande em uma enorme empresa de tecnologia a anunciar divórcio.

Eles não serão os últimos.

O anúncio surpresa feito na semana passada de que o casal Bezos se divorciou após 25 anos de casamento instantaneamente levantou questões sobre o futuro da participação de 16% que eles têm, cerca de US$ 140 bilhões, em ações da Amazon, já que seu fundador, presidente, diretor-executivo e maior acionista, Jeff Bezos, exerce um controle quase total sobre a empresa que criou.

A grande questão é, e agora o que vai acontecer? MacKenzie Bezos venderá sua parte das ações da família na Amazon? Ela vai procurar um lugar no conselho da empresa? Ela vai pressionar por grandes mudanças estratégicas ou gerenciais?

O divórcio de Bezos poderia ter consequências para os investidores de outras empresas com fundadores bilionários, como Google, Facebook, Groupon e Snap, para citar alguns. Ao contrário de Jeff Bezos, dono de ações da Amazon com direitos ordinários de voto, esses empreendedores de tecnologia mantêm o controle de suas empresas, detendo classes especiais de ações que conferem poder extra aos seus proprietários. 

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Para colocar de forma mais explícita: o que aconteceria se Mark Zuckerberg e sua mulher pedissem divórcio?

Isso não é para sugerir que haja algo errado na relação entre Zuckerberg e Priscilla Chan, ou com os casamentos de acionistas controladores em qualquer outra empresa gigante de tecnologia.

Mas mais separações desse tipo são inevitáveis, afinal de contas, a taxa de divórcios na Califórnia é de cerca de 60%, e muitos dos fundadores de companhias do Vale do Silício estão agora atingindo apenas a idade da proverbial crise da meia-idade.

O fenômeno das empresas de tecnologia com fundadores controladores ainda é relativamente recente. O Google estabeleceu uma tendência quando abriu seu capital em 2004, com ações de duas classes que garantiam Sergey Brin e Larry Page como proprietários controlados. Nos 15 anos seguintes, cerca de dois terços das ofertas iniciais de ações públicas apoiadas por fundos de capital de risco envolveram super-ações semelhantes, segundo a Dealogic.

O destino dessas ações de controle em casos de divórcio é, ou deveria ser, de intenso interesse para os investidores.

David F. Larcker, diretor da Iniciativa de Pesquisa em Governança Corporativa da Faculdade de Administração de Stanford e co-autor do livro "Separation Anxiety: The Impact of CEO Divorce on Shareholders," ("Ansiedade da Separação: O Impacto Divórcio de CEO em Acionistas", não publicado no Brasil), disse que sua pesquisa mostrou que "os acionistas devem prestar atenção às questões pessoais envolvendo a vida dos CEOs e levar essas informações em consideração ao tomar decisões de investimento."

A lei não exige explicitamente que os acionistas controladores divulguem acordos pré-nupciais ou outros que possam afetar a disposição de participações de suas empresas em caso de divórcio. Mas alguns especialistas disseram que apoiariam essa exigência.

"Isso é absolutamente essencial e, como resultado, deve ser divulgado", disse John C. Coffee Jr., diretor do Centro de Governança Corporativa da Universidade de Columbia. Na teoria, ele disse, qualquer provisão que tranquilizaria os investidores levaria a um preço mais alto das ações. "Não há dúvida de que é do interesse dos acionistas", disse ele.

Charles M. Elson, professor e diretor do centro de governança corporativa da Universidade de Delaware, também apoia a divulgação de acordos pré-nupciais. "Ninguém pensou que o divórcio de Bezos fosse um fator de risco" para a Amazon, disse Elson. "Agora ninguém sabe como isso vai acabar. Do ponto de vista do acionista, é certamente essencial."

Larcker disse que exigir que a divulgação pública seja ir longe demais, considerando as questões de privacidade envolvidas. Mas ele concordou que, pelo menos, o conselho precisava ser mantido plenamente informado:

Uma vez que um acordo de divórcio está em andamento, o conselho precisa pensar se o ex-cônjuge exigirá um assento no conselho, se planeja liquidar suas ações ou talvez vender como um bloqueio a um investidor, talvez ativista. Todas essas ações podem ter um impacto real no valor do acionista

Até agora, os investidores quase não reagiram ao divórcio de Bezos --as ações da Amazon subiram um pouco desde o anúncio. Isso pode ser em parte porque o casal fez de tudo para caracterizar a separação como amigável, dizendo que planejam "continuar nossas vidas compartilhadas como amigos".

Quando muitos bilhões de dólares estão em jogo, os divórcios amigáveis são raros, mesmo quando começam desse jeito.

"A maioria dos divórcios começa de forma contenciosa e termina de forma contenciosa", disse Samantha Bley DeJean, advogada matrimonial em São Francisco, que trabalhou com muitos empresários do Vale do Silício e representa Angelina Jolie em sua batalha de custódia com Brad Pitt. "Quando eles começam amigavelmente, você espera que eles continuem assim, mas na minha experiência isso só piora."

Em 2017, Mark Pincus, o bilionário fundador da empresa de jogos online Zynga, e Alison Gelb Pincus pediram o divórcio. Os dois tiveram um acordo pré-nupcial, que não foi divulgado, mas presumivelmente abordou a questão da participação de 70% de Pincus na Zynga. Em entrevista ao "The New York Times" no ano passado, Pincus disse que a separação foi amigável.

Depois que o casal pediu o divórcio, Pincus converteu suas ações com direito a voto em ações ordinárias, reduzindo seu controle de voto da Zynga para cerca de 10%. Ele disse ao "Times" que a conversão não teve nada a ver com o divórcio.

Alison Gelb Pincus é uma empreendedora por direito próprio: ela ajudou a fundar a loja online One Kings Lane, que foi vendida em 2016 para a Bed Bath & Beyond por quase US$ 30 milhões. O casal Pincus finalizou discretamente o divórcio no ano passado em termos que não foram divulgados. A Zynga não divulgou quaisquer alterações nas participações da Mark Pincus desde então.

Uma porta-voz da Zynga, onde Pincus continua como presidente-executivo, se recusou a comentar. DeJean, que representou Alison Gelb Pincus, disse que não poderia discutir o caso. Mas, em geral, ela afirmou, o fato de ambos os cônjuges serem extremamente ricos normalmente não muda a dinâmica de um divórcio.

"Torna-se uma questão de princípio", disse ela, "e os princípios podem ser perigosos nessas situações, especialmente quando há dinheiro suficiente para litigá-los".

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Em seu divórcio em 2010, Steve e Elaine Wynn, fundadores da empresa de cassinos Wynn Resorts, receberam, cada um, metade da participação de 36% do casal na empresa, avaliada em US$ 1,4 bilhão. Para manter o controle de Steve Wynn, Elaine Wynn concordou em votar em suas ações junto com as de seu ex-marido.

Na época, o acordo parecia amigável: Elaine Wynn descreveu calorosamente Steve Wynn como seu "parceiro de 41 anos e pai de seus filhos", e Steve Wynn disse estar contente por sua ex-mulher permanecer no conselho da empresa.

Isso não durou muito tempo. Depois de dois anos amargos, Elaine Wynn foi forçada a sair do conselho e entrou com um processo para recuperar o controle de suas ações.

A animosidade só se aprofundou depois que o "The Wall Street Journal" noticiou no ano passado que Steve Wynn assediou sexualmente empregados da companhia e pagou US$ 7,5 milhões a uma manicure depois que ela contou a outras pessoas que Wynn a forçou a fazer sexo.

Isso levou Wynn a renunciar ao cargo de diretor-executivo. Ele vendeu suas ações, deixando sua ex-mulher como a maior acionista da empresa. Desde o pico em 2014, as ações da Wynn caíram mais da metade.

A pesquisa de Larcker descobriu que entre os 24 executivos-chefes que se divorciaram entre 2009 e 2012, sete (29%) renunciaram dentro de dois anos após o acordo de divórcio.

DeJean afirmou que recentemente elaborou vários acordos pré-nupciais para jovens empreendedores. Negociá-los é delicado: não é especialmente romântico discutir a alienação de ativos em um processo de divórcio no meio de um namoro ou noivado.

A ideia de tornar esses termos pré-nupciais públicos pode ser um anátema para esses clientes.

Ainda assim, DeJean disse: "Eu posso ver porque os investidores gostariam de saber."

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