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Ricardo Cavallini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Assédio no TikTok: a nova moda é humilhar entregadores em troca de likes

Perfil no TikTok publica vídeo em que mostra entregador da Amazon dançando antes de entregar a encomenda - Reprodução/ TikTok/ @ChrissysCrew
Perfil no TikTok publica vídeo em que mostra entregador da Amazon dançando antes de entregar a encomenda Imagem: Reprodução/ TikTok/ @ChrissysCrew
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Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

17/02/2022 04h00Atualizada em 17/02/2022 19h36

No YouTube, o podcast entrevista um terraplanista. No Spotify, um antivacina. No Facebook, sua tia espalha fake news. No Twitter, tem alguém vendendo curso ensinando você a ficar rico. No Instagram, alguém dá golpe vendendo eletrônicos baratos ou fazendo sorteios de mentira. No Linkedin, tem até assistente dando aula sobre carreira mostrando o que você pode aprender com a derrota do Palmeiras.

A autoajuda, o ódio, a polaridade, o negacionismo, o controle das massas. O defeito pode ser do ser humano, mas é inegável que as redes sociais incentivam, dão chancela e fomentam o pior da humanidade, com likes, seguidores e, no final das contas, muito dinheiro.

Neste turbilhão de atrocidades, a novidade agora é humilhar trabalhadores.

No TikTok, estão bombando vídeos com a temática "eu pedi para o entregador da Amazon dançar antes de entregar meu pacote".

Traduzindo em palavras honestas: "cansei de dançar para vocês, agora eu humilho alguém para isso."

Terceirizamos a dancinha. Humilhando entregadores em troca de likes, chegamos ao fundo do poço!

Em tempos em que a privacidade está sendo tão discutida, colocar esses vídeos no TikTok sem a permissão do entregador já é um problema em si.

Mas o principal é sem dúvida o assédio.

Enquanto espero uma parte dos leitores chamarem isso de mimimi, de reclamar de uma brincadeira inocente, ou até clamar pela tal liberdade de expressão, que tal brincarmos de ter um pouco de empatia? Imagine-se no lugar do entregador, você se sentiria humilhado?

A maioria dessas pessoas está neste trabalho por falta de opção, e as empresas são conhecidas pela rigidez com que tratam os entregadores, com meta de corridas, tempo e notas.

Existem relatos mostrando pedidos para que o entregador diga para as câmeras: "obrigado por me manter empregado".

Não deixa de ser uma versão do mundo bizarro do "você sabe com quem está falando?". Sou eu, quem paga o seu salário. Agradeça aqui na câmera ou te dou duas estrelas.

Por ter o poder de dar uma nota ruim na entrega, o cliente está em uma situação de poder em relação ao entregador. As notas têm efeito real em seu trabalho e sua renda. A vida desses caras não é nada fácil. Pode chamar de mimimi, mas isso é assédio, sim.

TikTok, a rede conhecida por ser a versão light do OnlyFans, com várias pessoas vendendo poses sexies usando pouca roupa em troca de likes e seguidores, agora mostra sua face mais sórdida.

Quanto tempo será que essa moda demora para chegar ao Brasil? Relatos de moradores ofendendo e humilhando entregadores do iFood não são raros por aqui.

As plataformas costumam ter um discurso padrão para esse tipo de situação. Dizem que não tem nada com isso. Que não são seus funcionários, que apenas intermedeiam negócios entre consumidores e restaurantes ou entregadores ou lojas ou seja lá quem esteja no ecossistema.

Ninguém está nem aí.

E não me espantaria nada se a venda de campainhas com câmeras aumentasse muito nos próximos meses.

Como nós, brasileiros, somos lembrados diariamente: o inferno tem subsolo.