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Ricardo Cavallini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caso Monark vai mostrar se ainda vamos recompensar quem dispara absurdos

Bruno Aiub, mais conhecido como Monark, apresentador do "Flow Podcast" - Reprodução/ YouTube
Bruno Aiub, mais conhecido como Monark, apresentador do 'Flow Podcast' Imagem: Reprodução/ YouTube
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Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

10/02/2022 04h00

Como todos vocês já devem saber, esta semana descobrimos um novo perfil. Depois dos homens que são gays apenas quando fumam maconha, temos os que são nazistas apenas quando estão bêbados.

Goste você ou não, Monark e o Flow têm muita relevância. Talvez a maior prova disso seja o fato ter ocupado as principais chamadas da home dos principais veículos do Brasil, como o UOL e o G1.

Não tem como falar disso sem me posicionar. Eu já tenho falado sobre esse assunto em vários artigos, posts e papos no podcast. Não é coincidência, este problema está fervilhando nas redes há um tempo e o Monark foi apenas um "bom" exemplo da porcaria toda.

Em conversa com o Marcelo Tas no meu podcast, falei que acredito que as pessoas que reclamam da falta de liberdade de expressão têm um entendimento errado sobre liberdade. Também falei sobre a responsabilidade das plataformas, que estão pagando por isso, ou seja, fomentando o ódio em busca de lucro.

Apenas para citar um artigo, mês passado critiquei a postura do Spotify por manter os episódios de Joe Rogan. Disse que a única preocupação era o lucro, "is all about money". A conclusão é tão óbvia que o The New York Times falou a mesma coisa uma semana depois.

Pelo menos no quesito de falar besteira, Monark conseguiu superar seu ídolo, Joe Rogan.

Mas meu foco aqui não é sobre o crime em si. Em relação a isso, espero que o MP e associações atuem. Além de fazer a justiça funcionar, será bom para acreditarmos que as instituições ainda funcionam.

O que eu queria era levar a discussão um pouco além, pois acredito que esse fato é apenas ilustrativo do cenário doentio que nossa sociedade se encontra hoje. Será que sairemos melhores disso? A repercussão do episódio ajudou a sociedade refletir sobre o assunto?

Para responder isso, um dos pontos é descobrir se Monark ou Flow sairão machucados do acontecimento. Afinal, vivemos um período onde muitas vezes quem faz besteira acaba ficando ainda mais famoso e tendo ainda mais lucro.

O Flow será prejudicado?

Diferente de todos os outros podcasts, o Flow é uma empresa, um conglomerado. Com vários podcasts e várias outras iniciativas. Porém, boa parte da empresa é sustentada pelo carro-chefe, justamente o que era comandado por Monark. Mesmo os patrocinadores dos outros podcasts eram, na verdade, uma compra em todo o inventário da empresa.

O valor pago pelo YouTube para criadores é muito baixo. Mesmo mantendo boa audiência, o valor provavelmente não cobrirá os custos de uma empresa tão grande sem os patrocínios.

Em outubro de 2021, Monark perdeu o patrocínio do iFood e outras empresas após perguntar no Twitter se "ter uma opinião racista é crime?". Poucos meses depois, ganharam patrocínios de outras empresas, mas isso levou um tempo e acabou atraindo marcas menores e menos preocupadas com a imagem.

Na própria live onde anunciaram o término, uma empresa que vende líquido para vapes enviou um superchat (mensagens pagas com destaque) para anunciar um superdesconto.

Porém, com o tamanho do impacto desta vez, isso pode demorar muito mais e com certeza afastará a maior parte dos anunciantes avessos a risco.

Esta aversão ao risco pode afastar anunciantes de outros podcasts. O que o Flow contribuiu para formar esse mercado pode ter sido jogado fora agora.

Monark será recompensado?

Dolorosa ou não para ele, a decisão foi a mais fácil de todas.

Perdendo todos os patrocinadores e com vários dos principais parceiros —como Davy Jones (Flow Sport Clube) e Sérgio Sacani (Ciência Sem Fim)— informando que não ficariam caso o Monark permanecesse, o Flow muito provavelmente acabaria se o apresentador do podcast continuasse na empresa.

Quando a bomba explodiu, Monark perderia a empresa de uma forma ou de outra. Seus fãs não entenderam isso ainda, mas sair foi uma maneira honrosa de assumir o prejuízo.

Tenho escutado muita gente opinar que ele se deu bem, pois sua participação será comprada e ele sairá com dinheiro.

Esta é uma opinião dada pelo fígado. A real é que ele, para começar, perdeu um ótimo salário. Em entrevistas, o número citado era de R$ 50 mil mensais por um trabalho fácil.

Não quer dizer que eles não tenham trabalhado muito para isso. Nem tão pouco que fazer podcast seja fácil (eu sei bem o tamanho do esforço), mas Monark não se preparava para as conversas, acordava a hora que queria para bater papo, fumando maconha ou ficando bêbado na maioria dos episódios. O esforço dele era mínimo graças à estrutura que foi montada. Mérito deles.

Sua parte será comprada, mas a empresa que só crescia está em seu pior momento. Será a pior avaliação.

Com vários convidados pedindo para deletar suas participações, sem nenhum patrocinador por um tempo e com toda a carga psicológica de tirar o emprego de seus amigos, Monark não tem muita margem de negociação.

Pelo menos uma parte da base de fãs continua. Na live onde anunciaram a saída, com 150 mil pessoas ao vivo, a maioria absoluta das mensagens no chat era a favor de Monark, pedindo para que ele ficasse.

Tudo vai depender da capacidade de se reinventar de Monark. Ele já conseguiu isso uma vez.

Monark foi streamer de Minecraft com um público com menos idade. Quando deixou de fazer sucesso entrou em depressão. Se reinventou com o Flow.

Agora pode ter chegado em um ponto de inflexão. Precisa decidir entre rever seus valores e vícios ou se acabar de vez, chegando às últimas consequências.

Algum saldo positivo?

Como falei, o episódio é apenas ilustrativo de um momento onde a desinformação, a ignorância e o ódio parecem estar vencendo.

A democracia representativa está doente.

Com a desculpa de fomentar a discussão, vários podcasts recebem convidados que atacam a ciência, defendem a misoginia, o preconceito, as fake news e muito mais.

Um prato cheio para os políticos, que podem falar para um grande público por horas sem nenhuma interrupção, nem alguém com alguma capacidade para contra-argumentar. Pior, parte dos podcasts não tem interesse no contra-argumento, pois isso poderia inibir a visita de outros políticos.

Os podcasts são maravilhosos (mesmo). Ganharam merecidamente seu papel na democracia e no entretenimento, mas em algum momento precisarão fazer sua autocrítica. Eles têm responsabilidade. Na rede, todos nós temos.

E falando em protagonismo individual, um último ponto. Monark representa uma categoria que cresceu muito no Brasil, a das pessoas que têm orgulho de serem burras. Tendo várias vezes assumido sua falta de capacidade cognitiva, falar merda se tornou caricato e até parte de sua marca pessoal.

Durante sua fala criminosa, uma das perguntas que chama atenção poderia ser facilmente explicada por algum terapeuta. Ele pergunta, indignado: "as pessoas não têm o direito de ser idiotas?"

Então espero que esse episódio seja educativo. Que até os mais burros possam entender. Será suficiente para reverter o cenário? Dificilmente, mas é um bom começo.