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Quebrada Tech

REPORTAGEM

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Streaming de podcasts cresce com vozes da quebrada que surgiram na pandemia

Igor Fink é um dos podcasters da zona norte de São Paulo que distribui conteúdo na plataforma Hub da Norte - Coletivo Mudança de Cena
Igor Fink é um dos podcasters da zona norte de São Paulo que distribui conteúdo na plataforma Hub da Norte Imagem: Coletivo Mudança de Cena
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O Desenrola E Não Me Enrola é um coletivo de produção jornalística que atua a partir das periferias de São Paulo, investigando fatos invisíveis que geram grandes impactos sociais na vida dos moradores e moradoras dos territórios periféricos.

Patricia Santos e Ronaldo Matos (edição)

10/11/2021 04h00

Com o fechamento da Casa de Cultura da Vila Guilherme, espaço público de cultura localizado na zona norte de São Paulo, artistas e coletivos artísticos da região ficaram sem um local para realizar apresentações. Uma destas iniciativas é a Mudança de Cena, coletivo que se inspirou na pandemia para criar o projeto Hub da Norte, plataforma de streaming de áudio que reúne podcasts da região.

Os idealizadores do Hub da Norte são Osmar Araújo e Leandro Senna, integrantes do coletivo Mudança de Cena, que entendeu a importância de reinventar a estrutura das atividades culturais durante a pandemia.

"Eu pensei em montar uma rádio web, só que precisaria ter uma contratação de internet diferente, com melhor upload e mais cara. A gente não tem recurso para esse pagamento. Seria uma rádio web de três meses, que era o que tínhamos para pagar", diz Araújo.

A limitação imposta pelo acesso a um bom serviço de internet fez o agente cultural repensar o uso dos recursos adquiridos por meio da Lei Aldir Blanc, edital de apoio emergencial a agentes culturais afetados pela pandemia de covid-19.

Após entender que criar uma rádio não seria possível, Araújo iniciou o desenvolvimento de uma plataforma que vai conectar produtores de podcasts com ouvintes que são moradores da zona norte de São Paulo, com o objetivo de formar uma rede de produtores e consumidores de áudio.

Os principais assuntos abordados nos podcasts distribuídos na plataforma Hub da Norte são cultura, educação, ciência, direitos humanos e direito à cidade.

A iniciativa tem tudo para fortalecer o campo de produtores de podcasts nas periferias e favelas, um cenário promissor que já noticiamos com o surgimento de diversas iniciativas de podcasts e videocasts na quebrada, fato que está relacionado também ao comportamento dos moradores das periferias que passaram a consumir mais conteúdos em áudio durante a pandemia.

Parceiros

Segundo a Associação Brasileira de Podcasters (ABPOD), cerca de 70% dos podcasts brasileiros surgiram a partir de 2018. Foi nesse período que o jovem Igor Fink, 22, começou a produzir podcasts. Hoje ele é um dos parceiros que distribui conteúdo no Hub da Norte.

"Conheci o Osmar em 2017 em um projeto deles junto com o Sesc. Desde então estamos trabalhando juntos. Eu sempre tive vontade de produzir coisas de algum jeito que agregasse conhecimento a outras pessoas. Quando chegou a pandemia, eu me vi com tempo livre e pensei que seria o momento de me dedicar a algo que sempre quis", diz.

Fink afirma que os assuntos de seu podcast surgem aleatoriamente, mas de acordo com o que ele gosta de fazer. "Eu gosto muito de música e quando comecei a produzir o 'Herói Genérico' não tinha uma pauta específica. Já produzi 15 episódios e acho que três foram sobre música, e os outros foram sobre temas variados", conta.

Amanda Nascimento produz o podcast 'Se Essa Rua Fosse Nossa', que surgiu como um trabalho de conclusão de curso da Unesp, mas que não poderia ficar só na academia.

"O tema do meu TCC era sobre opressão. Eu queria falar sobre opressões vivenciadas dentro de coletivos, e como lidar com essa questão de raça, gênero e classe, essa intersecção dentro dos coletivos", afirma.

Nascimento diz que a intenção do podcast não é necessariamente criar um manual de boas maneiras, mas sim de ter um espaço para que mulheres pudessem falar sobre todas as suas questões individuais, de como agregar mulheres negras, mães e LGBTQIA+, trazer à tona o debate, acolher todas essas diferenças e principalmente rever os atos dentro dos coletivos.

"Eu não quero dar respostas de como acolher mulheres negras, Se é 'assim e assim' que se faz. Não. Eu queria enfatizar que isso acontece em qualquer estrutura de trabalho. Até mesmo na militância esses temas sobre racismo, violência contra mulher ou pressões e silenciamentos são um um tabu. Quando vamos confrontar, ainda há muitos ruídos", afirma.

Futuro

Para o criador da iniciativa, a plataforma do Hub da Norte é promissora e ainda tem muito mais para crescer e agregar ao contexto educacional e territorial dos moradores das periferias.

Outro projeto que está no radar é potencializar a atuação do Hub da Norte, oferecendo empréstimo de infraestrutura e equipamentos para produção e captação de áudio para os produtores de podcast da zona norte.

Araújo diz que também pretende dar início ao projeto Fronteira Final, que visa disseminar conhecimento científico através dos podcasts juntamente com professores da rede pública de ensino da zona norte.

"A gente já aplicou o projeto uma vez e não conseguiu recurso, mas a ideia é basicamente que, junto com algum professor de uma escola pública, a gente faça um bate-papo sobre um tema da ciência", diz.