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Guilherme Rambo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Não é tão simples: Apple tem muitos desafios para incluir Face ID no Mac

Divulgação/ Apple
Imagem: Divulgação/ Apple
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Guilherme Rambo

Guilherme Rambo é programador desde os 12 anos. Especialista em engenharia reversa, é conhecido mundialmente por revelar os segredos da Apple antes mesmo dos anúncios da empresa, além de programar para as plataformas da empresa.

30/07/2021 04h00

O Face ID foi introduzido em 2017 com o lançamento do iPhone X. Na época, a tecnologia serviu para tornar possível a criação de um iPhone sem o botão Home, existente desde a primeira versão do aparelho, lançada dez anos antes. Além de melhorar a segurança com relação ao Touch ID, o Face ID incluiu também o sistema de câmeras TrueDepth, capaz de interpretar expressões faciais, trazendo consigo recursos como fotos em modo retrato e animoji/memoji.

Atualmente, a tecnologia está presente em diversos iPhones e iPads na linha de produtos da Apple. Com a pandemia e as pessoas usando máscara, acabou se tornando um inconveniente, o que fez muita gente questionar a validade da tecnologia e clamar pela volta do sensor de impressão digital. A empresa entregou uma solução através do desbloqueio via Apple Watch — mas isso requer um dispositivo extra, claro.

comentei por aqui que no meu mundo ideal, o iPhone teria as duas opções — Face ID e Touch ID ao mesmo tempo — para que o usuário escolhesse qual mecanismo de autenticação deseja usar dependendo do contexto. Está de máscara ou não consegue olhar para a tela do iPhone? Vai de Touch ID. Está com os dedos molhados ou com as mãos ocupadas? Face ID.

Discussões sobre preferências à parte, existe uma linha de produtos da Apple que ainda não foi contemplada com o recurso: a linha de Macs. Antes da introdução dos Macs com processadores da Apple, existiu muita especulação sobre se eles viriam com Face ID. Pois a Apple lançou já quatro modelos de Macs com o processador M1 e nenhum deles conta com a tecnologia.

Recentemente, o analista Mark Gurman afirmou que a Apple estaria sim trabalhando para trazer o recurso aos Macs, mas que isso ainda levaria algum tempo — um ou dois anos, segundo ele.

Essa linha do tempo pode parecer surpreendentemente longa para algumas pessoas que querem o recurso no Mac, mas eu entendo perfeitamente o motivo dessa demora, que se dá por conta de alguns fatores.

O primeiro fator é sobre usabilidade. A conveniência do Face ID no Mac não seria tão maior quando comparada à conveniência do Touch ID, já presente em diversos modelos.

O desbloqueio do Mac é feito com menos frequência que no iPhone ou iPad. Além disso, quando é preciso autenticar alguma ação ou transação no computador, as mãos do usuário geralmente já se encontram no teclado, que é onde fica o sensor de impressão digital, então acaba sendo um gesto simples e cômodo de ser executado.

Em Macs que não possuem Touch ID — como o Mac Mini M1 que eu utilizo aqui — a autenticação via Apple Watch dá conta do recado, ela é tão boa que às vezes parece que o Mac nem tem senha de bloqueio (mesma sensação que eu tive ao usar o Face ID no iPhone X pela primeira vez).

Levando em conta este contexto, é fácil compreender o porquê do Face ID no Mac não ter sido priorizado pela Apple até o momento.

Além dessa questão, existem também alguns desafios técnicos que precisam de solução para tornar o Face ID no Mac possível.

Se você possui um Mac portátil, olhe bem para a espessura da tela, incluindo a tampa traseira. Agora compare essa espessura com a espessura de um iPhone. Muita gente vê o sistema TrueDepth na frente do iPhone e imagina que ele é muito fino e ocupa apenas a parte frontal do aparelho, mas na verdade o sistema é montado na parte de trás do iPhone e se estende até a frente, onde ficam as lentes. Não haveria espaço para incluir esse sensor em nenhum dos Macs portáteis atuais.

Existe também outra questão técnica quando o assunto envolve pagamentos e outras operações que requerem confirmação do usuário.

No iPhone e no iPad, quando o Face ID é usado para autenticar um pagamento —seja virtual ou físico— existe um passo a mais: o usuário precisa dar dois cliques no botão lateral para confirmar sua intenção. Essa confirmação não ocorre em software, o botão lateral está diretamente ligado ao Secure Enclave do aparelho, responsável pelas operações de segurança e pagamentos.

Não existe um botão equivalente nos Macs que poderia ser usado para o mesmo fim. A Apple precisaria incluir um botão assim, ou implementar a mesma funcionalidade com um botão do teclado já existente. Ainda assim, existe o desafio de como isso funcionaria em Macs nos quais o usuário pode utilizar um teclado externo — iMacs, por exemplo.

Mas será que a Apple não poderia simplesmente mostrar um botão na tela para o usuário clicar, confirmando a intenção de pagamento? A resposta é não. Esse tipo de confirmação precisa ter um componente de hardware envolvido, para evitar que um comprometimento do software possa ser usado para forçar o usuário a pagar por alguma coisa.

Apesar dessas questões, acredito sim que veremos o Face ID nos Macs num futuro não tão distante. Além de permitir a autenticação, a presença do sistema TrueDepth permitiria recursos como o Center Stage que veio nos novos iPads Pro, dentre outros recursos de realidade aumentada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL