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Guilherme Rambo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você deveria ter direito de reparar sozinho o iPhone sem passar pela Apple?

Asif Ikbal Bhuiya/ Pixabay
Imagem: Asif Ikbal Bhuiya/ Pixabay
Guilherme Rambo

Guilherme Rambo é programador desde os 12 anos. Especialista em engenharia reversa, é conhecido mundialmente por revelar os segredos da Apple antes mesmo dos anúncios da empresa, além de programar para as plataformas da empresa.

09/07/2021 04h00

Quando você adquire um produto eletrônico, existe uma certa expectativa de que ele funcionará sem grandes problemas e que, caso algum problema aconteça, você conseguirá suporte do fabricante para repará-lo ou trocá-lo por um produto em pleno funcionamento.

Algumas pessoas mais tecnicamente habilitadas vão além: gostariam de poder reparar seus eletrônicos em casa, com instruções fornecidas livremente pelo fabricante.

Apesar disso, os fabricantes têm tornado a vida de quem gosta de reparar seus produtos mais difícil, restringindo o acesso a manuais e componentes de reparo a alguns poucos parceiros, tornando a oferta dos serviços de reparo mais escassa e cara.

A Apple não é exceção neste caso, a empresa é frequentemente criticada por apoiadores do chamado "direito ao reparo" (right to repair). Um exemplo de quem critica a Apple é a iFixit, conhecida por desmontar produtos da empresa e fornecer ferramentas e manuais para quem quer reparar os produtos em casa.

Este tema possui diversos ângulos, o que torna as discussões ao redor dele bastante complexas. Tão complexas que é bem provável que eu pareça me contradizer neste texto, visto que é difícil concordar inteiramente com qualquer um dos extremos.

A iFixit critica os produtos da Apple na questão da reparabilidade não somente pela falta de acesso a manuais e componentes, mas também por questões práticas como o uso de adesivos no lugar de parafusos ou outros meios de fixação, além da integração de componentes que podem provocar a necessidade de trocar a placa lógica inteira de certos produtos mesmo que apenas um componente pequeno esteja com defeito.

Aqui eu discordo bastante com a iFixit, porque estes pontos negativos para a reparabilidade dos dispositivos existem para trazer muitos pontos positivos tanto no design, quanto na usabilidade e performance.

Citando dois exemplos: a resistência contra líquidos nos iPhones mais recentes é resultado de algumas dessas mudanças na forma como eles são montados; a performance impressionante dos Macs com Apple Silicon é resultado da integração direta de processador, GPU e memória RAM.

Alterar os produtos para atender essas demandas da iFixit os tornaria menos atraentes, tanto do ponto de vista visual quanto na sua funcionalidade.

Os dispositivos eletrônicos de hoje em dia estão cada vez mais avançados e miniaturizados, o que aumenta a complexidade de qualquer reparo que precise ser feito neles. As empresas não fazem isso com seus produtos na intenção de torná-los mais difíceis de reparar, mas sim para torná-los melhores e mais desejáveis ao consumidor.

Dentro dessa complexidade técnica entra também a questão da segurança. Como vimos aqui na coluna recentemente, um smartphone contém informações valiosíssimas como dados bancários e outros dados sensíveis do usuário, geralmente protegidos por criptografia e algum tipo de biometria.

Esse nível de segurança não é facilmente alcançado e exige componentes especializados, além de medidas como o pareamento de determinados componentes, um processo que se fosse disponibilizado abertamente poderia comprometer a segurança de todos.

De certa forma, esperar que qualquer um possa reparar seu iPhone em casa é como esperar que qualquer pessoa possa reparar um caixa eletrônico de banco sem comprometer sua segurança.

Não existe também só a questão da segurança da informação, mas também o bem-estar do usuário. Uma troca de bateria malfeita (ou feita com uma bateria de má qualidade) pode resultar em ferimentos graves ou até mesmo a morte.

Por outro lado, nem todo componente de um iPhone está envolvido na segurança do aparelho ou de seu usuário. Idealmente, a Apple e os demais fabricantes deveriam oferecer meios para que o consumidor possa fazer reparos simples sem a necessidade de uma assistência técnica autorizada —uma troca de tela, por exemplo.

Recentemente, a Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) recebeu instruções do governo Biden para que crie uma proposta de lei de direito ao reparo, que poderia obrigar empresas como a Apple a fornecer manuais, componentes e ferramentas para empresas de reparo independente e usuários.

A Apple se opõe a tais medidas e faz lobby constante para que não sejam aprovadas. A empresa utiliza argumentos que se alinham com o que falei anteriormente sobre questões de segurança.

Creio que seja possível a aprovação de alguma lei nesse sentido por lá. A maior preocupação da Apple não é somente a segurança, mas também os lucros que obtém graças à monopolização dos reparos nos seus aparelhos.

Seria benéfico para os consumidores se existisse algum tipo de abertura maior a reparos independentes, desde que isso seja feito sem comprometer a segurança dos dispositivos.

A parte mais interessante seria certamente a possibilidade do surgimento de mais centros de reparo independentes, já que a parcela de usuários que gostaria de reparar seus aparelhos em casa é muito pequena.

A abertura do reparo para mais fornecedores teria o potencial de torná-lo mais acessível a todos, mesmo aqueles que não tem habilidade ou não querem fazer reparos por conta própria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL