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Física na Veia

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Conheça o Bingo, radiotelescópio do Brasil que vai capturar dados do espaço

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Dulcidio Braz Jr

Dulcidio Braz Jr. é físico pelo Instituto de Física "Gleb Wataghin" (IFGW) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde atuou como pesquisador no Departamento de Eletrônica Quântica antes de perceber que seu caminho era o da educação. É pioneiro no Brasil no ensino de relatividade, quântica e cosmologia para jovens estudantes do final do ensino médio e início do curso superior. Hoje, além de professor, é autor de materiais didáticos e faz questão de dizer que, aqui no blog, é professor e aluno em tempo integral --enquanto ensina, também aprende.

05/07/2021 18h44Atualizada em 05/07/2021 19h50

O que vem à sua mente quando você pensa em BINGO? Um globo cheio de bolinhas numeradas que serão sorteadas aleatoriamente e um monte de cartelas para marcar os números relativos às bolinhas sorteadas? Até bem pouco tempo era o que eu imaginaria também.

Mas proponho para você o mesmo upgrade que já fiz aqui com meus neurônios. A partir de agora, quando ouvirmos falar em BINGO, podemos imaginar também algo como o que pode ser visto na ilustração logo acima que mostra, numa perspectiva aérea, como será o novo radiotelescópio brasileiro chamado BINGO - Baryon Acoustic Oscillations In Neutral Gas Observation. Trata-se de uma grande estrutura de antenas e torre, mais ou menos do tamanho de um campo de futebol oficial, e que vai operar capturando e estudando as ondas eletromagnéticas provenientes do espaço ao redor e com comprimento de onda de 21 cm, radiação típica da emissão feita por átomos neutros de hidrogênio.

BINGO Radiotelescópio - BINGO - BINGO
Vista área de como serão as instalações do BINGO.
Imagem: BINGO

A finalidade do estudo é mapear tal radiação característica de uma fase da evolução do Universo em que a expansão começou a ser acelerada. Sim, sabemos que o Universo está em expansão desde os anos 20 do século passado a partir dos trabalhos de Edwin Hubble (1889-1953). E, desde os anos 90 do mesmo século, cientistas mediram uma inesperada e surpreendente aceleração nesta expansão, o que rendeu Nobel de Física em 2011. A responsável pela expansão acelerada é uma "entidade" nomeada dark energy (energia escura, em português) mas ainda mal compreendida pelos cientistas. O BINGO pretende avançar neste sentido, num trabalho pioneiro no mundo.

É bom que se diga com toda ênfase e orgulho, o BINGO é um projeto eminentemente brasileiro! Ele é fruto de uma pareceria entre o INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a USP - Universidade de São Paulo e a UFCG - Universidade Federal de Campina Grande e conta com parceiros internacionais na China, no Reino Unido, na França e África do Sul principalmente, segundo o prof. Dr. Elcio Abdalla, pesquisador da USP e um dos coordenadores do projeto.

O equipamento está sendo construído e testado no INPE, em São José dos Campos, interior de São Paulo. Posteriormente, suas partes serão transportadas até a Serra do Urubu, na Paraíba, onde o equipamento será montado para operar. O local de instalação do BINGO foi escolhido a dedo no vasto território brasileiro por apresentar baixa contaminação de radiação eletromagnética oriunda de equipamentos humanos, como sinais de telefonia celular e ondas de controle de tráfego aéreo, dentre outras.

Não fosse a pandemia, o BINGO deveria neste exato momento estar em fase de início de operações. Infelizmente, pelo atraso forçado, estima-se que no segundo semestre de 2022 ele comece a operar tirando suas primeiras medidas e fazendo as primeiras calibrações. Vai valer a pena acompanhar tudo isso bem de perto.

Amanhã, terça-feira, dia 6 de julho de 2021, e na quarta, dia 7, acontecerá o evento "Radiotelescópio BINGO: Lançamento do portal e atualizações do projeto". No primeiro dia do evento, das 7h15min até 12h30min, totalmente em português, dedicado ao público em geral, serão apresentados os mais recentes resultados da colaboração BINGO além do seu novo website. No segundo dia de atividades, dedicado à colaboração internacional e, portanto, de caráter técnico, totalmente em inglês, acontecerão as palestras proferidas pelos diversos pesquisadores de cada estágio das pesquisas. Ficou interessado? Você poderá acompanhar tudo pelo canal oficial do BINGO no Youtube.

Parece complicado para você? Não se assuste! Até para um físico, como eu, o projeto não é nada simples. Afinal, estamos falando de ciência na fronteira do conhecimento humano! Mas prometo acompanhar o projeto de perto e, dentro do possível, bem no espírito daqui do Física na Veia, criar textos didáticos palatáveis para qualquer pessoa, iniciada ou não na Física e na Astrofísica. Para tanto vou abusar da amizade com o prof. Dr. Alexandre Wuensche, meu ex professor, pesquisador do INPE (e excelente violonista, é bom que se diga). Alex, como é mais conhecido, é a principal mente por trás do BINGO. Contarei também, assim espero, com a recente amizade com a Dra. Larissa Santos, colaboradora do BINGO, e responsável pelo imperdível canal Bariogênese no Youtube onde ela publica vídeos bastante didáticos de divulgação científica em geral mas com ênfase na Astrofísica e na Cosmologia. Virei fã do canal e, desde já, recomendo-o! Siga a Dra. Larissa também pelo seu perfil no Instagram.

Aproveito e deixo logo abaixo um vídeo do canal Bariogênese em que a Dra Larissa conversa com o Dr. Alexandre exatamente sobre o BINGO.

Indico também este outro vídeo do canal Café e Ciência onde Felipe Hime, astrônomo e editor do canal, entrevista Alexandre Wuensche sobre diversos aspectos do BINGO.

Abraço do prof. Dulcidio. E Física na veia!

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