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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Big techs chinesas realizam demissão em massa pela primeira vez na história

A gigante chinesa Tencent só cresceu desde sua fundação, mas agora vai fazer sua primeira demissão em massa da história - Divulgação
A gigante chinesa Tencent só cresceu desde sua fundação, mas agora vai fazer sua primeira demissão em massa da história Imagem: Divulgação
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

25/03/2022 04h00

A história das big techs chinesas é uma história de suor, sangue e, praticamente, nenhuma lágrima. Ao menos até este ano. A trajetória percorrida por pequenas startups que se transformaram em titãs da tecnologia, como Tencent e DiDi, por exemplo, confunde-se com a própria rota da digitalização da economia chinesa, atualmente a mais profícua do mundo.

Não à toa, a China é a única economia entre os países do G20 a declarar-se "uma sociedade cashless", tamanho o sucesso do mobile payment no país. Em nenhum outro lugar do mundo o varejo offline é menor que o e-commerce. Na China, 52% das compras já acontecem em canais digitais, de acordo com dados do CAC (Cyberspace Administration of China), órgão público que administra a web chinesa.

O crescimento da economia digital chinesa e, consequentemente, das corporações de tecnologia, seguiu um ritmo acelerado nas décadas de 2000 e 2010, fortemente impulsionado pela expansão do PIB do país, que registrou, várias vezes, expansão anual acima dos dois dígitos, além, claro, do fato de sempre existirem milhões de novos consumidores no interior do país a comprar seu primeiro celular, criar sua primeira conta em rede social, fazer suas primeiras aquisições no e-commerce.

A realidade inescapável é que a China tornou-se uma economia digital madura e sua população, em grande parte, já possui o perfil dos consumidores de países desenvolvidos, ou seja, não há exatamente muito mais gente —e dinheiro— para incluir no planejamento financeiro das empresas de tecnologia.

A "maturidade digital" chinesa não é, exatamente, uma novidade, já que a desaceleração no crescimento de número de usuários de serviços online é percebida desde 2018.

No entanto, este "freio natural" passou um tanto despercebido pelos analistas (e investidores) uma vez que a crise causada pelo covid-19 forçou novas transferências de renda e consumo para canais digitais (afinal, lojas físicas passaram meses sob lockdown) e o crescimento marginal do consumo das famílias em 2020 e 2021 manteve os balanços das big techs em ritmo satisfatório.

Nos últimos meses, no entanto, o cerco regulatório promovido por Pequim, que limitou ofertas públicas de ações, captações no mercado acionário internacional e impôs multas bilionárias às suas principais big techs, acusadas ora de práticas monopolistas, ora de desrespeitar a privacidade dos consumidores, ajudou a criar um clima de "tempestade perfeita".

Afinal, o governo desamparou as joias tech chinesas bem no momento em que a economia do país vive seu momento menos brilhante —este ano, o PIB chinês deve crescer "só" 5,5%— e a saída óbvia dos "mercado maduros", crescer para o exterior, tornou-se particularmente difícil, em função das fortes tensões (e, eventualmente, boicotes) estimuladas pelos Estados Unidos contra as empresas chinesas de tecnologia.

A soma de tantos fatores negativos fez nomes brilhantes como a DiDi, que só na China transporta mais passageiros que a Uber em todos os países do mundo, cortar em mais de 10% seu quadro global de funcionários.

Companhias de variados tamanhos reviram seus planos de investimento, cortaram gastos e deixaram de lado operações pouco lucrativas, como as de "serviços locais", especialmente aquelas que exigem uma cara integração entre plataforma de tecnologia e serviços de logística físicos, como o emprego de motoqueiros, caminhões e vans para entregas "de última milha".

Nesta semana, até mesmo titãs como Alibaba e Tencent anunciaram cortes.

O comunicado é histórico, já que estas grandes corporações sempre mostraram forte estabilidade, mesmo em momentos difíceis da economia global —como a crise do subprime, em 2008 e a pandemia de covid, em 2019.

A Tencent é quem deve fazer os maiores cortes, eliminando até 20% dos postos de trabalho.

No mágico, colorido e multibilionário mundo das empresas de tecnologia da China, a expressão "cortes em massa" é absolutamente novo.

Para quem vai perder o emprego, os cortes são uma tragédia. Para o mercado de capitais, no entanto, os anúncios são música. Na última semana, em um só dia (17 de março) o "Nasdaq Golden Dragon Index", índice que soma o valor das ações de empresas de tecnologia chinesa, negociadas no mercado americano, apresentou alta de 33%.