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Felipe Zmoginski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como moeda eletrônica da China fará dinheiro de papel virar peça de museu

WorldSpectrum/ Pixabay
Imagem: WorldSpectrum/ Pixabay
Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

26/05/2021 04h00

Grandes mudanças tecnológicas são difíceis de prever e, quando se insinuam, é igualmente difícil de acreditar que se tornarão um padrão. Nos anos 80, quando Bill Gates afirmou que em cada casa, em cada estação de trabalho, haveria um computador pessoal, a ideia parecia inexequível. Hoje, em cada residência, há uma dezena deles, se considerarmos os notebooks antigos guardados nos armários, os tablets e os smartphones.

Um novo estudo, publicado pelo conglomerado japonês Mitsui & Co, afirma agora que o dinheiro de papel e as Casas da Moeda serão peças de museu em algumas décadas. E o principal indício usado para sustentar a previsão é o fato de a China liderar a adoção de criptomoedas soberanas.

Estas moedas nacionais eletrônicas funcionam como o Bitcoin, Ethereum e tantas outras, com a diferença de que possuem um lastro e uma entidade regulatória por trás, no caso, os Estados Nacionais.

No mundo, já existem a E-krona, usada na Suécia, e o Bakong, utilizado no Camboja. Nenhuma delas, porém, tem a projeção do e-RMB, nome dado à moeda eletrônica na China, país que detém a segunda maior economia do mundo.

A China testa, desde 2017, formas de criar uma plataforma para transacionar valores de forma eletrônica. Em 2019, os testes saíram do papel, de forma controlada. Em grandes cidades, como Shenzhen e Chengdu, por exemplo, é possível abrir uma conta digital em bancos públicos para receber, pagar ou fazer aplicações em e-RMB.

O e-RMB, por ser um meio de pagamento oficial, não pode ser recusado por estabelecimentos de varejo. O dinheiro digital, que nunca foi impresso, circula livremente nestas regiões, em formato de teste, e apresenta diversas vantagens para a sociedade.

Uma delas é a economia gerada pelos bancos centrais, que deixam de gastar com a impressão e distribuição de dinheiro físico.

Outra vantagem é permitir maior inclusão financeira. Criar uma carteira digital é muito mais simples —e barato— que ir a um banco, assinar papelada, obter um cartão de plástico e, enfim, ser um correntista. Em um único app, resolve-se tudo.

O aspecto mais importante, porém, é o aumento da eficiência e segurança financeira trazido pelas e-moedas.

As transferências são rastreáveis, uma vez que no código da moeda fica um registro encriptado de por onde ela passou, e a compensação é imediata.

Para quem faz transações à distância, como a compra e venda de produtos, as partes sabem, em tempo real, quando o vendedor recebeu o pagamento, por exemplo.

Um artigo publicado pelo diretor do Banco do Povo (equivalente ao Banco Central) da China, Fan Yifei, explica que a plataforma de tecnologia criada pelo país poderá ser oferecida a países terceiros.

O impacto de uma grande economia usando criptomoedas soberana, como a China, e sua disposição em compartilhar suas plataformas, deve gerar uma corrida cripto, incentivando outras economias a fazê-lo.

Para não ficar defasados do ponto de vista tecnológico, autoridades monetárias como o Banco Central Europeu e o Federal Reserve americano, devem se sentir impelidos a acelerar seus projetos cripto, em um movimento sem retorno.

A moeda de metal e o papel-dinheiro, tecnologias milenares, já podem vislumbrar seu ocaso definitivo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL